A periodização semanal é dinâmica e se ajusta tanto à função do atleta quanto à dificuldade do próximo jogo, diz Bruno Bedo
Como os treinos futebolísticos devem se ajustar à realidade de cada semana e de cada adversário? Para quem acompanha o futebol, sabe que a rotina dos jogadores é intensa: jogos a cada três ou quatro dias, longas viagens e pouca margem para recuperação. Diante disso, surge uma pergunta importante — é possível treinar com a mesma intensidade em todas as semanas? Ou será que o nível do adversário, o local da partida e o tempo de recuperação deveriam influenciar no planejamento das sessões? Um estudo no International Journal of Sports Science & Coaching acompanhou 18 jogadores profissionais por 13 semanas de competições, usando GPS e acelerômetros para quantificar corrida, acelerações e desacelerações em treinos e jogos. A pergunta central foi: como a carga semanal varia conforme o contexto do próximo confronto — local da partida (casa/fora) e força do adversário — e de que modo isso dialoga com as exigências de cada posição?
O pico de estímulo ocorre tipicamente no MD-3 (três dias antes do jogo); a partir daí, a carga é reduzida gradualmente para favorecer a recuperação e o ajuste tático. As posições respondem de forma distinta: laterais e meio-campistas acumulam maiores distâncias e mais ações de alta intensidade, enquanto zagueiros centrais e atacantes concentram esforços em espaços mais específicos e apresentam cargas menores. O contexto competitivo modula o planejamento: antes de jogos considerados mais acessíveis (em casa ou contra rivais da parte inferior da tabela), as sessões tendem a ser mais intensas e volumosas; frente a adversários mais fortes — sobretudo fora de casa —, a carga é rebaixada, priorizando preservação física e ensaios estratégicos.
Em síntese, a periodização semanal é dinâmica e se ajusta tanto à função do atleta quanto à dificuldade do próximo jogo. Não há “receita única” de microciclo. Em semanas menos exigentes, pode-se ampliar estímulos de potência, velocidade e resistência; em vésperas de confrontos duros, viagens longas ou decisões, reduzem-se volume e intensidade, com ênfase em tática e recuperação. O monitoramento individual é crucial: dois jogadores expostos à mesma sessão podem responder de maneira distinta, e dados de GPS/Acelerometria permitem calibrar a carga com precisão para evitar sobrecarga. Essa abordagem — periodização orientada pelo contexto — equilibra desempenho, prevenção de lesões e prontidão ao longo de calendários congestionados. No fim, treinar bem não é treinar sempre no limite, e sim treinar o necessário, no momento certo e para o jogador certo.
Ciência e Esporte
A coluna Ciência e Esporte, com o professor Bruno Bedo, vai ao ar toda sexta-feira às 10h00, na Rádio USP (São Paulo 93,7 FM; Ribeirão Preto 107,9 FM) e também no Youtube, com produção do Jornal da USP e TV USP.
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