Entre 2019 e 2023, as conferências da ONU sobre clima avançaram em acordos pontuais, mas continuam reféns de disputas geopolíticas, pressões econômicas e interesses corporativos

Entre 2019 e 2023, as Conferências das Partes (COPs) da ONU ocorreram sob forte tensão política e econômica. A COP 25, em Madri, terminou sem acordo sobre o mercado de carbono. Em 2021, a COP 26 de Glasgow resultou no Pacto do Clima, que reforçou metas até 2030. Já a COP 27, no Egito, criou o fundo de “perdas e danos” para países vulneráveis e a COP 28, em Dubai, reconheceu oficialmente a necessidade de transição dos combustíveis fósseis.
Apesar desses avanços, grande parte dos compromissos não se traduziu em ações concretas — reflexo de uma governança climática ainda frágil e de um cenário global marcado por disputas de poder e crises sucessivas.
Geopolítica e retrocessos
A professora Tatiana de Souza Leite Garcia, do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, explica que o período foi marcado por um acirramento das tensões entre potências, sobretudo entre Estados Unidos e China. “Essas rivalidades se refletem diretamente nas negociações multilaterais, reduzindo a confiança e enfraquecendo a legitimidade dos acordos”, afirma. Ela lembra que a saída dos EUA do Acordo de Paris durante o governo Trump abalou a diplomacia climática e atrasou anos de construção conjunta. A pandemia de covid-19 também teve impacto: “As economias se retraíram, as prioridades se voltaram para o crescimento e os temas ambientais perderam espaço na agenda política.”
Segundo a pesquisadora, o aumento da influência de grandes corporações — especialmente do setor energético e de transportes — dentro das COPs alterou o equilíbrio das negociações. “Os textos dos acordos acabam diluídos, as linguagens mais brandas, e o avanço de temas estruturais é travado por interesses econômicos”, explica. Conflitos como a guerra na Ucrânia e a crise em Gaza reforçaram essa tendência, desviando recursos e atenção de fundos climáticos para gastos militares.
Governança frágil e metas distantes

Para Tatiana, a distância entre os discursos diplomáticos e a prática ambiental revela um problema estrutural: a fragilidade institucional da governança climática. “As metas são voluntárias. Não existe um mecanismo de coerção que obrigue os países a cumprir o que prometem”, avalia.
A falta de confiança entre nações desenvolvidas e em desenvolvimento também dificulta a cooperação financeira. “Os fundos de perdas e danos e o fundo climático foram anunciados, mas os valores são muito inferiores ao prometido e demoram a chegar a quem mais precisa”, afirma.
Ela destaca ainda a desigualdade entre os países mais afetados pelas mudanças climáticas — como os insulares e periféricos — e as potências que concentram os recursos e o poder de decisão. “Há uma assimetria estrutural. Quem mais sofre com o aquecimento global tem menos capacidade de participar efetivamente das negociações”, observa.
Da mitigação à adaptação: novos focos das COPs
Na avaliação do professor Pedro Jacobi, do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental (Procam) do Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da USP, uma mudança relevante das últimas COPs foi a ampliação do debate sobre adaptação, que passou a ocupar espaço ao lado da mitigação. “Durante muito tempo, as conferências se concentraram apenas na redução de emissões. Agora, há uma consciência crescente de que é preciso preparar as populações mais vulneráveis para lidar com os efeitos já em curso das mudanças climáticas”, afirma.
Jacobi aponta que fenômenos como ondas de calor, secas e chuvas extremas estão cada vez mais frequentes e letais. “O calor mata, e as populações vulneráveis são as mais atingidas. A adaptação passa por políticas locais, infraestrutura, transporte público sustentável e soluções baseadas na natureza — e isso depende de vontade política e financiamento”, explica.
O desafio da implementação e da confiança

Segundo o professor, o principal entrave das COPs continua sendo o caráter voluntário das adesões e a falta de mecanismos de controle. “Muito se fala e pouco se aplica. A fase agora deveria ser a da implementação, mas a falta de recursos e de transparência financeira trava o processo”, analisa.
Jacobi também alerta para a fragmentação política global, o enfraquecimento das instituições multilaterais e o impacto dos conflitos armados sobre o financiamento climático. “Vivemos um tempo de belicismo e autoritarismo, que compete com a pauta ambiental. É preciso retomar a confiança na cooperação internacional e fortalecer o papel da sociedade civil e dos jovens, que têm sido fundamentais para pressionar por mudanças concretas”, defende.
Próximos passos: de Belém ao futuro
Com a COP 30 tendo início já na próxima semana, em Belém, os especialistas veem o encontro como uma oportunidade de reequilibrar as negociações e dar protagonismo ao Sul Global. “A escolha do Brasil é simbólica. O país tem legitimidade ambiental e pode aproximar a agenda internacional das realidades locais e amazônicas”, afirma Tatiana.
Para Jacobi, a COP de Belém deve ser marcada por uma maior participação social. “É preciso romper a distância entre governos e sociedade. A emergência climática exige respostas urgentes e coordenação entre todas as escalas — global, nacional e local”, conclui.
*Sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira
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