Território que já foi o maior do continente africano enfrenta uma das piores crises de deslocamento forçado do planeta

A crise humanitária no Sudão é um dos temas mais urgentes e, infelizmente, mais “esquecidos” do mundo atual. O desastre já atingiu proporções enormes e o Sudão se tornou um dos piores cenários de deslocamento forçado do mundo, com milhões de pessoas fugindo do conflito que envolve facções militares rivais. Os conflitos e instabilidades que desestabilizaram o país tem origens históricas que remontam desde a colonização inglesa até a separação do território em 2011 e as lutas mais recentes em 2023.
Domínio anglo-egípcio, guerras civis e separação do país
A pesquisadora Carla Brito Sousa Ribeiro, doutoranda em Antropologia Social pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, comenta os fatores históricos da formação do Sudão. “Existiu uma administração colonial muito peculiar na formação do Sudão. A continuidade entre o Sudão e o Egito em termos geográficos, territoriais, culturais é imensa, como, por exemplo, o compartilhamento do Nilo entre os dois países e a fé islâmica. Mas existe também um certo domínio político e geográfico histórico do Egito com relação ao Sudão, que se dá nesse sistema de administração conjunta que foi feito no final do século 19 até metade da década de 1950.”
Após o fim da dominação anglo-egípcia e a independência do país em 1956, o Sudão passou por duas longas guerras civis, instabilidades políticas e a divisão do território em 2011, dando origem ao Sudão do Sul. “Antes da divisão que originou o Sudão do Sul, o Sudão era o maior país da África. A partilha ocorre em 2011 após décadas de uma série de conflitos muito violentos entre o norte e o antigo sul do país, muito pautados nas divisões entre um norte muçulmano com crença na fé islâmica e que tinha um reconhecimento entre os sistemas culturais árabes e um sul cristianizado, com populações consideradas africanas e fé de matriz africana também.”
O novo conflito
Em 1989, em meio à Segunda Guerra Civil Sudanesa, o general Omar al-Bashir tomou o poder num golpe militar apoiado por islamitas e, após 30 anos de regime, foi deposto pelos seus próprios militares em 2019. Durante um período houve esperança que o Sudão pudesse se restabelecer, formando um governo de transição entre grupos civis e militares, entretanto, outro golpe militar ocorrido no final de 2021 desestabilizou novamente o país.
Em abril de 2023, uma amarga luta pelo poder eclodiu entre os dois principais generais do país, Abdel Fattah al-Burhan, líder das Forças Armadas Sudanesas (SAF, o exército regular) e Mohamed Hamdan Dagalo, líder das Forças de Apoio Rápido (RSF), uma poderosa força paramilitar. “Essa divisão entre a Forças de Apoio Rápido e o exército sudanês, que são os dois lados desse conflito, estão na essência dessa divisão entre norte e sul. A RSF é um grupo que acumulou riqueza e acumulou poder a partir do controle de minas de ouro.”
Situação atual
Atualmente o Sudão, abalado por esses novos conflitos, enfrenta uma das piores crises humanitárias do mundo, com aproximadamente 150 mil mortos e 13 milhões de deslocamentos forçados, e procura maneiras de reconstruir e encontrar a paz. “O futuro é muito incerto. E pensar que houve anos, quase uma década, de certa estabilidade após 2011, onde o país foi seccionado a partir de uma ideia de cessar-fogo, uma trégua. Mas lá existe um sistema político de poder muito baseado na corrupção, gerando um atraso institucional para os sucessores, um projeto de país, um programa de eleições e uma Constituição.”
“A visibilidade internacional também não tem dado uma resposta ou colaborado para que a resposta seja à altura do tamanho da crise. A população necessita de uma estabilização da estrutura de atendimento social, para o suprimento de alimentos e de água e tratamentos de saúde, pois atualmente qualquer tipo de ajuda externa está sendo interrompida pelos atores da guerra. Depois, é preciso um cessar-fogo para a reconstrução das cidades e, então, estabelecer uma governabilidade, mínima que seja”, finaliza Carla.
*Sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira
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