No primeiro dia da COP30 o presidente Lula atacou os negacionistas, defendeu o multilateralismo e tornou a afirmar que esta é a COP da verdade


A COP30 começou ontem (10) em Belém do Pará, com autoridades brasileiras reiterando a promessa de que essa deverá ser a cúpula climática “da verdade” e “da implementação”. O presidente Lula participou da cerimônia de abertura e disse que é hora de “impor uma nova derrota aos negacionistas” e reconhecer, de uma vez por todas, a gravidade e a urgência da crise climática.
Lula lembrou de eventos extremos recentes, como o tornado que devastou uma cidade do Paraná na semana passada, para dizer que a mudança climática — abre aspas — “não é uma ameaça do futuro, mas um tragédia do presente”.
“A COP30 será a COP da verdade. Na era da desinformação, os obscurantistas rejeitam não só as evidências da ciência, mas também os progressos do multilateralismo. Eles controlam algoritmos, semeiam o ódio e espalham o medo. Atacam as instituições, a ciência e as universidades. É momento de impor uma nova derrota aos negacionistas. Sem o Acordo de Paris, o mundo estaria fadado a um aquecimento catastrófico de quase 5° até o fim do século. Estamos andando na direção certa, mas na velocidade errada. No ritmo atual, ainda avançamos rumo a um aumento superior a 1,5° na temperatura global. Romper essa barreira é um risco que não podemos correr.”
O embaixador Andre Correa do Lago, que preside a conferência, disse que a cúpula precisa apresentar “soluções” concretas para o problema do clima, capazes de transformar “aspirações em ações”. Ele e Lula ressaltaram a importância da ciência como uma bússola nesse processo.
“Queremos — e já dissemos tantas vezes, mas é preciso repetir — que esta seja uma COP que apresente soluções. E a agenda de ação que estruturamos para esta COP — da qual vão participar tantos ministros de Estado brasileiros e outras autoridades — ocorrerá em múltiplos eventos de dimensão absolutamente essencial para os próximos passos. A agenda de ação vai mostrar muitos caminhos. Esta, portanto, é uma COP de implementação. Espero que também seja lembrada como uma COP de adaptação, uma COP que vai avançar na integração do clima com a economia, com as atividades, com a criação de emprego. E, mais do que tudo, uma COP que vai ouvir — e acreditar — na ciência. Nesse sentido, presidente, obrigado por ter encontrado a fórmula ideal para definir esta COP: a COP da verdade.”
Desafios a enfrentar
Uma das verdades mais inconvenientes que essa conferência precisará enfrentar é o fato que as metas ou compromissos assumidos pelos países até agora estão muito abaixo do que a ciência diz ser necessário para evitar um colapso climático do planeta. Segundo um novo balanço divulgado ontem pelo secretariado da Convenção do Clima da ONU, apenas 113 dos 197 países signatários da convenção já apresentaram seus novos compromissos de corte de emissões para o Acordo de Paris, que juntos resultariam numa redução de apenas 12% nas emissões globais de gás carbônico até 2035, muito abaixo dos 60% necessários para conter o aumento da temperatura em 1,5° — que é o limite de segurança estipulado pela ciência e previsto como objetivo máximo do Acordo de Paris.
Outra “verdade” reconhecida pela conferência deste ano é que essa meta de 1,5° não será alcançada, e que, portanto, é preciso dar muito mais ênfase à questão da adaptação às mudanças do clima, que já são inevitáveis, ao mesmo tempo em que se busca soluções para reduzir as emissões e evitar que a temperatura do planeta suba ainda mais. Um dos principais temas na agenda da conferência é justamente a questão do financiamento necessário para apoiar a adaptação de países pobres e em desenvolvimento aos efeitos mais nefastos da crise climática, como secas, enchentes, ondas de calor e escassez de alimentos.
Cerca de 50 mil pessoas estão registradas para participar da COP30, incluindo vários professores e professoras da Universidade de São Paulo, entre eles, o professor Paulo Artaxo, diretor do Centro de Estudos da Amazônia Sustentável, que fez um balanço positivo do primeiro dia da COP em Belém.
“A avaliação que temos do início da COP30, na verdade, é bastante positiva. O que observamos foram avanços importantes na área do financiamento climático, tanto para a parte de preservação de florestas, quanto na questão, por exemplo, da estruturação do novo mercado de carbono, agora integrado com o Brasil, com a União Europeia, com a China. Nós tivemos 110 países no primeiro dia da COP, colocando as suas novas NDCs, o que é também muito positivo. Eles correspondem a cerca de 60% das emissões de gás de efeito estufa. Avanços importantes estão sendo feitos e vamos trabalhar muito para que essa COP tenha muito sucesso, para que a gente possa efetivamente tirar o planeta de uma rota, de um clima muito mais desfavorável para as atividades humanas como um todo.”
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