quinta-feira, maio 14, 2026
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o aprendizado que se sente nas mãos – Jornal da USP


Projeto com uso do Lego Braille Bricks em Ribeirão Preto mostra como a criatividade e o tato podem transformar a alfabetização de crianças com deficiência visual, tornando a educação mais inclusiva, sensível e humana

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A imagem mostra uma base cinza de blocos de montar (como LEGO Braille Bricks) sobre uma superfície amarela. Em cima dela, há duas pequenas construções coloridas feitas com blocos.Na parte da frente, há uma fileira de peças vermelhas, azuis e amarelas com letras e números impressos: “A1”, “V”, “19”, “Ô e “O”, formando a palavra “AV1ÃO”, que lembra “AVIÃO”. Mais ao fundo, há outra pequena estrutura que parece representar um avião feito de blocos — com asas amarelas, corpo azul e cauda verde.
Peças do Lego Braille Bricks utilizadas no processo de alfabetização de crianças com deficiência visual – Foto: Camila Celestino / Arquivo pessoal
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Transformar a educação para que ela seja realmente inclusiva é um desafio que exige criatividade, sensibilidade e dedicação. Em Ribeirão Preto, projetos inovadores estão mostrando que isso é possível, e que aprender pode ir muito além do papel e da visão: pode ser uma experiência tátil, lúdica e transformadora. Um dos destaques nessa área é o trabalho da pedagoga Camila Fernanda da Silva Celestino, da Fundação Educandário, premiada nacionalmente pelo Projeto Lego Braille Bricks, que utiliza blocos de Lego adaptados para alfabetizar crianças com deficiência visual.

A imagem mostra uma mulher sorridente posando em um ambiente interno, em frente a um banner colorido. Ela tem pele morena, cabelos longos e lisos, e veste um vestido amarelo-claro com estampas de folhas em tom verde claro. Usa sandálias brancas com detalhes florais e segura um troféu nas mãos.O troféu tem o formato de uma peça do LEGO, com um desenho de um emoji sorridente de óculos escuros. No banner atrás dela, há os logotipos da Fundação Dorina Nowill para Cegos e do projeto “LEGO Braille Bricks”. No canto superior esquerdo, aparecem marcas de patrocínio, e na parte inferior, o banner tem formas geométricas coloridas e desenhos estilizados. A mulher transmite alegria e orgulho, como alguém que acabou de receber um prêmio ou reconhecimento importante.
Camila Fernanda da Silva Celestino – Foto: Arquivo pessoal

“A ideia surgiu quando eu comecei a trabalhar na Associação dos Deficientes Visuais de Ribeirão Preto e Região, a Adevirp, que é uma instituição que atende a crianças e adultos com deficiência visual aqui na cidade de Ribeirão Preto. Logo no meu primeiro ano, participei de uma formação oferecida pela Fundação Dorina de São Paulo sobre o uso do Lego Braille Bricks”, conta Camila. “Ao final do curso, recebemos alguns kits para utilizar na instituição. Desde o primeiro contato, percebi o potencial transformador daquele material. O Lego já é um brinquedo naturalmente atrativo para as crianças, e eu vi que poderia unir ludicidade, alfabetização e inclusão em um só recurso.”

A adoção do método exigiu sensibilidade e experimentação. Camila explica que, no início, a maior dificuldade foi encontrar a melhor forma de integrar o Lego Braille Bricks na rotina de alfabetização. “Foi um processo de experimentar, observar as reações das crianças e ajustar o trabalho conforme a necessidade de cada uma. Aos poucos percebi quais atividades funcionavam melhor, e o resultado foi surpreendente. A cada nova descoberta o aprendizado se tornava mais divertido e efetivo.”

O impacto na sala de aula, segundo a pedagoga, foi imediato. “O primeiro impacto foi o entusiasmo. As crianças ficaram muito mais engajadas, se envolveram de forma espontânea e passaram a esperar pelo momento de usar o Lego. Ele possibilita que reconheçam as letras não apenas como símbolos, mas como algo palpável, parte da vivência delas. Além disso, o recurso ajuda a desenvolver coordenação motora, atenção, raciocínio lógico e fortalece a autoconfiança. Com o tempo, percebi avanços reais na alfabetização.”

Lázaro e Manuela brincando com diferentes tipos de macarrão – Foto: Camila Celestino / Arquivo pessoal

Para reforçar a importância desse tipo de iniciativa, o professor Sérgio Kodato, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP-USP) da USP, destaca: “Iniciativas como essa são fundamentais para tornar a educação realmente inclusiva. Elas valorizam o potencial de cada aluno e mostram que o aprendizado pode acontecer de forma lúdica, tátil e significativa, respeitando as diferenças e estimulando a curiosidade e autonomia. Além disso, projetos assim inspiram professores e escolas a repensarem suas práticas”.

A imagem mostra um homem de idade avançada, com cabelos grisalhos e ralos, principalmente nas laterais da cabeça. Ele tem a pele de tom claro e o rosto apresenta algumas rugas e marcas naturais da idade. Suas sobrancelhas são grossas e escuras, e ele olha diretamente para a câmera, com uma expressão neutra, talvez levemente sorridente. O fundo é simples e claro, sem muitos detalhes visíveis.
Sergio Kodato – Foto: Arquivo pessoal

O professor ainda enfatiza que estratégias lúdicas e táteis não beneficiam apenas os alunos com deficiência visual: “Ao explorar o toque, a montagem e a experimentação, o aluno participa ativamente do seu processo de construção do conhecimento, tornando-o mais concreto e significativo. Essas estratégias também favorecem a socialização, o trabalho em grupo e a criatividade, aproximando alunos com e sem deficiência visual, e assim a escola se torna um espaço mais democrático, sensível e humano”.

A pedagoga destaca ainda que criatividade e ludicidade são essenciais para a inclusão. “A criança aprende melhor quando está envolvida afetivamente com a atividade. No caso das crianças com deficiência visual, o aprendizado precisa vir acompanhado de experiências sensoriais: toque, som, cheiro e movimento. Materiais como Lego, caixas, músicas, histórias e texturas despertam curiosidade e prazer em aprender. Ensinar com afeto, propósito e criatividade é o que realmente transforma vidas.”

O projeto também trouxe avanços concretos na aprendizagem de crianças específicas. Camila cita os casos de Eloá, de 5 anos, e Lázaro, de 4 anos, ambos cegos. “Eles conseguiram compreender que os pontos formam letras e que as letras viram sons. Foram conquistas incríveis que mostram que o aprendizado pode ser prazeroso e significativo, quando o ensino é adaptado com sensibilidade.”

O professor Sérgio Kodato reforça a importância de transformar a educação inclusiva em prática cotidiana. “Projetos como esses apontam novos caminhos para uma educação mais expressiva, criativa e efetiva nas escolas públicas. Eles mostram que é possível integrar inovação, sensibilidade e baixo custo em práticas pedagógicas que valorizam cada aluno e suas próprias formas de aprender. O importante é não excluir quem é diferente, mas sim aprender e trocar com ele.”

Por fim, Camila alerta para a necessidade de investimento em formação docente e políticas públicas. “Ainda é preciso preparar efetivamente os professores para lidarem com diferentes formas de aprendizagem e uso de recursos acessíveis. Quando o Estado investe em inclusão com recursos, formação e valorização dos educadores, práticas como o uso do Lego Braille Bricks deixam de ser exceções e se tornam parte natural do cotidiano escolar.”

*Estagiária sob supervisão de Ferraz Junior e Gabriel Soares



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