Juntamente com Rogério Duprat, Régis Duprat, Sandino Hohagen, Júlio Medaglia, Gilberto Mendes, Willy Correia de Oliveira e Alexandre Pascoal, Cozzella formou, no início dos anos 1960, o Grupo Música Nova, com o objetivo de refletir sobre o estágio da música naquele momento e reavaliar os valores da estética musical à luz da realidade social que então se configurava: a cultura de massas, a crítica ao conservadorismo e ao elitismo, as inovações da Neue Musik europeia e os movimentos de contracultura. (Cozzella era muito bem-informado sobre essas inovações, tendo participado dos cursos da vanguarda musical realizados na cidade alemã de Darmstadt.) O grupo publicou seu manifesto em 1963, no número 3 de Invenção, um periódico dedicado à arte de vanguarda.
Posteriormente, Cozzella e Rogério Duprat deixaram o Grupo Música Nova e declararam o fim da música erudita, propondo a produção de “qualquer coisa que dependa de som” e dando a mesma importância a Pierre Boulez e a Tonico e Tinoco. Essa atitude anticonvencional, irreverente, é muito característica da personalidade do Cozzella. A título de ilustração, cito um comentário que ele fez em uma entrevista dada em 1992:
“Você já imaginou, por exemplo, uma versão da ópera O Guarani com guitarra, baixo e bateria? Que bacana […]. Sim, causaria grande escândalo. Mas os acadêmicos estão aí para serem escandalizados. Eles são muito quadrados, barulhentos […] são a quadratura esperneante.”
Dentro dessa ideologia, uma obra bastante significativa de Cozzella é a que ficou conhecida como Ruidismo dos Pobres, mas que na realidade tem quatro títulos: o já mencionado e Homenagem ao Jornal, Homenagem ao Gravador e Inácio, Toma um Analgésico!. Quem for executar a peça escolhe o título que quiser. A partitura é absolutamente anticonvencional, preparada com recortes de jornal destacando letras de diferentes fontes e tamanhos, formando blocos de “eventos sonoros” medidos em segundos. Durante alguns desses blocos acontecem happenings paralelos: “1 solo tira umas fotos”; “1 solo escova os dentes”.
Mas Cozzella também atuou brilhantemente na área da música popular, principalmente como arranjador. Fez arranjos para artistas populares na década de 1960, como, por exemplo, o álbum A misteriosa luta do Reino de Parassempre contra o Império de Nuncamais, gravado por Ronnie Von. Sua atuação mais intensa, porém, foi como arranjador de músicas populares para coro. Essa atividade teve início ainda na década de 1950, atendendo a solicitações dos maestros Klaus-Dieter Wolf e Diogo Pacheco.
No Coralusp, Cozzella foi fundamental para a elaboração do repertório de música popular do coro, criando mais de trezentos arranjos, alguns deles tornando-se clássicos do repertório coral e modelos para toda uma geração de arranjadores posteriores. O exemplo mais famoso é a Suíte dos Pescadores, de Dorival Caymmi, um dos arranjos mais executados na história do canto coral brasileiro.
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