Pesquisadores da Universidade de Wuhan, na China, identificam depósitos da proteína alfa-sinucleína nos rins e levantam hipótese sobre o papel do órgão no avanço da doença
Por Vitória Gomes*

Cerca de 1% da população mundial acima de 65 anos, o que equivale a cerca de 4 milhões de pessoas no mundo, vive com a doença de Parkinson, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Mas esses pacientes podem ter, finalmente, uma luz acesa no final do túnel. Tradicionalmente conhecida por afetar o sistema nervoso central e causar comprometimento dos movimentos, a doença ganhou, recentemente, uma nova hipótese onde o processo pode começar.

Os pesquisadores chineses acreditam que o processo pode começar fora do cérebro e se espalhar até o sistema nervoso central. Essa teoria se conecta ao papel de uma proteína já bem conhecida pelos estudiosos da doença: a alfa-sinucleína. Ela é considerada a principal substância responsável por provocar o adoecimento dos neurônios, levando ao desenvolvimento progressivo de doenças neurodegenerativas, como o Parkinson. O neurologista Vitor Tumas, professor do Departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, explica que “a proteína se acumula dentro das células nervosas, chamadas corpúsculos de Lewy, e pode desencadear o processo degenerativo que leva à morte dos neurônios, e ao aparecimento dos sintomas da doença”.
Estudos em fases iniciais
Durante a investigação, os cientistas chineses identificaram uma quantidade anormal da proteína alfa-sinucleína nos rins de pacientes com doença de Parkinson e outros transtornos neurodegenerativos. O acúmulo era ainda mais evidente em pessoas com insuficiência renal crônica, mesmo entre aquelas que não apresentavam sintomas neurológicos aparentes. A partir dessas observações, os pesquisadores levantaram a hipótese de que os rins poderiam funcionar como ponto de partida para a propagação da proteína, que, em seguida, alcançaria o cérebro por meio das vias nervosas.
De acordo com Tumas, a alfa-sinucleína é uma proteína normalmente presente nos neurônios, especialmente nos terminais sinápticos, onde atua na comunicação entre as células nervosas. No entanto, quando sofre alterações estruturais, torna-se uma proteína “mal dobrada”, com tendência a se agregar e formar depósitos anormais. “Quando a alfa-sinucleína está alterada, ela se torna uma proteína danificada, que chamamos de ‘mal dobrada’ e, devido a isso, ela poderia ser transmitida por vários mecanismos a outros neurônios, inclusive através dos nervos”, explica.

A ideia de que a alfa-sinucleína “se espalha” entre células nervosas não é nova. “Há muitos anos, foi formulada uma hipótese por patologistas alemães, conhecida como hipótese de Braak, segundo a qual a difusão da alfa-sinucleína poderia ocorrer por duas vias: a olfativa, na qual a substância se depositaria nos receptores do olfato e, por meio do nervo olfatório, chegaria ao sistema nervoso central; e a intestinal, na qual a proteína se acumularia no sistema digestivo e alcançaria o cérebro pelo nervo vago”, explica Tumas.
O novo estudo chinês acrescenta uma terceira possibilidade: a via renal. “Os pesquisadores mostraram que a alfa-sinucleína se acumula nos rins, especialmente em pacientes com insuficiência renal, e sugerem que, a partir daí, a proteína poderia se propagar retrogradamente através dos nervos que inervam o rim, inclusive o nervo vago, até o sistema nervoso central”, completa o neurologista. Essa hipótese amplia a compreensão das possíveis rotas de propagação da doença, embora ainda precise de validação clínica.
Papel dos rins
Os rins operam como filtros vitais do corpo humano, responsáveis por manter o equilíbrio interno e eliminar substâncias tóxicas do metabolismo. O nefrologista José Abrão Cardeal da Costa, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, explica que os rins exercem três funções principais: excretora, regulatória e endócrina. “A função excretora elimina substâncias tóxicas, como ureia, creatinina e resíduos de medicamentos. A regulatória controla o volume e a composição do sangue, água, eletrólitos e pH. Já a função endócrina produz hormônios, como a eritropoietina (que estimula a produção de hemácias), a renina (que regula a pressão arterial) e ativa a vitamina D, essencial para o metabolismo do cálcio”, detalha.

O médico ressalta que o rim saudável depura o sangue, removendo pequenas moléculas potencialmente tóxicas, mas não filtra proteínas estruturais como a alfa-sinucleína. “Quando há doença renal, a depuração do sangue é prejudicada, o que pode favorecer o acúmulo de substâncias anormais, inclusive aquelas que deveriam ser eliminadas”, completa.
A falta de cuidado com os rins compromete a limpeza do organismo, facilitando a propagação de substâncias tóxicas, alerta o especialista. “Qualquer condição que reduza a capacidade do rim de filtrar, reabsorver ou secretar substâncias pode comprometer a depuração da alfa-sinucleína do sangue, como doença renal crônica, injúria renal ou outros fatores que agravam a perda da função depurativa”, destaca Costa.
Possibilidades de prevenção e diagnóstico
Apesar de a hipótese renal ainda estar em fase pré-clínica, já existem métodos capazes de identificar depósitos de alfa-sinucleína em diferentes tecidos. “Hoje se sabe que é possível detectar a deposição de alfa-sinucleína em biópsias de pele, antes mesmo do aparecimento dos sintomas motores da doença de Parkinson”, explica Tumas.
Segundo o neurologista, isso abre a perspectiva de desenvolver, no futuro, testes específicos que identifiquem a presença da proteína nos rins ou até mesmo em amostras de urina, funcionando como um exame precoce de risco.
Uma forma viável de prevenção é o cuidado contínuo com a saúde renal e o controle de doenças associadas, destaca o professor Costa. “Essa é exatamente a virada conceitual que essa linha de pesquisa provoca. Se os rins participam não só da excreção de toxinas, mas também da limpeza de proteínas neurotóxicas como a alfa-sinucleína, então cuidar dos rins deixa de ser apenas uma questão de evitar a diálise e passa a ser uma estratégia de proteção do cérebro.”
Costa ainda conclui com uma reflexão: “Em outras palavras, um rim saudável ajuda a manter um cérebro saudável. Portanto, beba água com regularidade, mantenha a pressão arterial sob controle, tenha uma alimentação equilibrada rica em frutas e verduras, durma bem para reduzir o estresse, cuide da saúde mental e pratique atividades físicas.”
*Estagiária sob supervisão de Rose Talamone e Ferraz Junior


