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Teatro da USP celebra os textos iniciais de Beckett em leitura encenada 60+ e montagem inédita na capital – Jornal da USP


Em 2025, o Núcleo Tusp trabalha as duas primeiras peças de Beckett, “Esperando Godot” e a quase esquecida “Eleutheria”

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Esperando Godot – Foto: Aline Baba

 

Completando uma década de existência em 2025, o Núcleo Tusp da capital mergulhou na obra do dramaturgo irlandês Samuel Beckett. O resultado desse esforço são dois trabalhos baseados nos dois primeiros textos do autor: Esperando Godot: Uma Leitura Encenada 60+ e Não me Venha Falar da Morte, ou Eleutheria, que serão apresentados ao público no mesmo local em que todas as ações do núcleo vêm se desenvolvendo ao longo dos anos – a Sala Experimental do Teatro da USP (Tusp) na Rua Maria Antônia. As apresentações gratuitas são realizadas aos sábados e domingos a partir de 15 de novembro, sempre às 16h, com ingressos distribuídos uma hora antes de cada sessão.

Com somente duas apresentações nos dias 15 e 16 de novembro, o ponto de partida é a leitura encenada de Esperando Godot, realizada por um elenco composto de pessoas com mais de 60 anos, numa ação que acompanha outras iniciativas da Universidade junto a este perfil de público. Com processo seletivo realizado no meio de 2025, foram selecionadas pessoas com ou sem formação na área teatral, mas interessadas em explorar as possibilidades da cena e do texto beckettiano, em encontros realizados duas vezes por semana, no período matutino.

A partir da outra semana é a vez da estreia do mais novo experimento cênico do Núcleo Tusp da capital, baseado desta vez em Eleutheria, peça renegada por Beckett e nunca oficialmente encenada. Formada por um elenco definido em um processo seletivo iniciado no final de 2024 e envolvendo atores e atrizes de diversas idades e formações, profissionais ou não, a peça fica em cartaz em curta temporada, de 22 de novembro a 14 de dezembro.

Esperando Godot: Uma Leitura Encenada 60+

Definitivamente a peça mais conhecida de Beckett, Esperando Godot foi publicada pela primeira vez em 1952. De lá para cá, após sua primeira encenação em 1953, possivelmente nunca deixou de ser representada: “Podemos dizer que há 72 anos pelo menos um elenco espera por Godot em algum lugar do planeta”, brinca René Piazentin, diretor das duas montagens e orientador de arte dramática do Tusp na capital. Na peça, a única indicação espacial que temos é de um lugar deserto onde não há nada, exceto uma árvore. Sobre as duas personagens centrais, Vladimir e Estragon, nada há de concreto: apenas esperam Godot.

A montagem brasileira mais famosa, por um incidente trágico, foi a encenada por Flávio Rangel, com Cacilda Becker e Walmor Chagas nos papéis de Estragon e Vladimir. Durante uma apresentação para estudantes em 6 de maio de 1969, Cacilda teve um derrame cerebral no intervalo entre atos. Após um coma de 38 dias, a atriz morre em 14 de junho de 1969.

Núcleo Tusp 60+ – Foto: Aline Baba

A tradução utilizada foi justamente a que Flávio Rangel preparou para sua direção com Cacilda. “Apesar de reconhecermos os méritos e a beleza da tradução mais atual, de Fábio de Souza Andrade, achamos que a opção pela de Flávio seria também uma forma de homenagear Cacilda, Flávio, Walmor e outras grandes figuras do teatro que já partiram, e que nosso elenco pode assistir em cena no passado”, diz Piazentin.

Nesta leitura encenada, a peça foi dividida em trechos, cada um feito por uma diferente dupla ou quarteto de participantes, de forma a explorar assim as possibilidades e diferenças que cada pessoa pode trazer ao processo. “Se trabalhar com pessoas acima dos 60 anos nem sempre significa contar com mais experiência de palco, com certeza significou contar com mais experiência de vida – aspecto ainda mais pujante em se tratando de Beckett”, comenta o diretor do trabalho.

Não Me Venha Falar da Morte, ou Eleutheria

Beckett entregou a Roger Blin seus dois primeiros textos teatrais, inéditos até ali, para saber sobre seu interesse na montagem de alguma das obras. A escolha recaiu sobre Esperando Godot. O outro, Eleutheria, permaneceria inédito e renegado até anos depois da morte do autor. Somente em 1996 Eleutheria viu sua primeira publicação, depois de anos de negociação com os detentores dos direitos de Beckett, sem que, no entanto, até o momento tivesse havido autorização para que a peça fosse produzida profissionalmente.

Vivendo há dois anos isolado em um quarto de pensão, Victor Krap inaugura o rol de figuras memoráveis criadas pelo irlandês Beckett para dar vida a uma cena totalmente nova. Entretanto, nesta peça, que ainda é tributária do drama tradicional, o que vemos não é ainda o autor que se desenvolveria com criações posteriores. Eleutheria já nos dá algumas pistas, alguns esboços, do dramaturgo que virá a ser anos depois.

Eleutheria – Foto: Caroline Loureiro

Sua família é obviamente uma sátira aos personagens típicos do teatro até então: as formais e afetadas senhoras da sociedade, o velho patriarca decadente, o empregado submisso, a jovem a um só tempo assediada e sedutora, o médico charlatão, entre outros tipos. Como elemento de metalinguagem, Beckett insere a partir do segundo ato a personagem do Vidraceiro, auxiliado por seu filho, cuja tarefa seria consertar uma janela quebrada por Victor, mas cuja real função não é um conserto de janela, mas a quebra da quarta parede, tornando-se comentador do que acontece em cena.

Para o núcleo, a primeira dificuldade em trabalhar este texto deu-se justamente por ser um Beckett “pré-Beckett”. Outra questão que surgia era o nível de liberdade possível na adaptação, pensando que se trata de um texto pouquíssimo conhecido e que, nesse sentido, grande parte do público estaria conhecendo a peça através desta montagem.

No entanto, vale lembrar que “eleutheria é a palavra grega para ‘liberdade’”, explica Piazentin. “Já que montaríamos uma peça renegada pelo próprio autor, restou-nos a liberdade em fazer dela um espetáculo mais próximo do Beckett que conhecemos.” Assim, o grupo optou por manter a estrutura e a narrativa do texto de Eleutheria, com inserções de figuras e fragmentos de outros textos beckettianos, além de sintetizar diversas passagens da dramaturgia original.

“É enorme pretensão dizer que seria um Eleutheria revisitado por seu autor, mas, dentro do possível, temos um​ Eleutheria que dialoga com sua obra posterior”, completa o diretor, que menciona em especial Não Eu, Fim de Partida O Inominável, dentre outros fragmentos.

Serviço

Esperando Godot: Leitura Encenada 60+ | 15 e 16.11.2025 | sábado e domingo, 16h

Elenco: Bernadete Fridman, Henrique Lanfranchi, JJ Kusnett, José Luiz Gaeta, Jussara Amâncio, Margarete Lira, Rogério Marcondes, Sandra Cutar, Tereza Pitter, Tony Mathias, Vera D’Agostino, Zazá Rocha / Direção: René Piazentin / Assistência de Direção e Figurinos: Aline Baba / Fotografias: Aline Baba

Não Me Venha Falar da Morte, ou Eleutheria | 22.11 a 14.12.2025 | sábados e domingos, 16h

Elenco: Carla Furtado, Chiara Lazzaratto, Fábio Pazitto, Gabriela Gomes, Gabriela Moreno, Hayla Cavalcanti, Ingrid Andrade, Lara Paulauskas, Mahê Machado, Maria Talita, Rafa Piccoli e William Prado / Assistência de Direção e Figurinos: Aline Baba / Direção e Adaptação do Texto: René Piazentin / Tradução de Eleutheria: Isabel Teixeira / Tradução das demais obras de Beckett (utilizadas como fragmentos): Fábio de Souza Andrade / Fotografias: Carolina Loureiro

Todas as apresentações são gratuitas e acontecem na Sala Experimental do Tusp, na Rua Maria Antônia, 294 – Vila Buarque. Ingressos na bilheteria, 1h antes de cada sessão (40 lugares – livre).



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