Para ensinar ciência, é preciso humanizar, pois a ciência nasce da curiosidade, do propósito e do encantamento, todos relacionados à emoção. Lembro-me de uma aula inspiradora da professora Carlota Boto, diretora da Faculdade de Educação, em que ela, para falar do professor, trouxe a perspectiva dos autores Masschelein e Simons: “Ao lado do amor pelo assunto, e talvez por causa disso, também ensina por amor ao aluno”.
Humanizar a ciência e o seu ensino é também reconhecer sua dimensão ética. Todo conhecimento carrega uma responsabilidade perante o outro, a sociedade e o planeta. Afinal, quantas vezes a ciência já foi usada para justificar ou produzir atrocidades — da eugenia à bomba atômica? Vivemos hoje um momento melhor, mas sempre há espaço para avançar. Humanizar a ciência e o seu ensino é uma escolha cotidiana que requer atenção, esforço e comprometimento. Isso envolve, por exemplo: promover equidade no ambiente acadêmico; diversificar estratégias educacionais para alcançar um público mais diverso; fomentar a interdisciplinaridade, conectando ciência e arte para ampliar a criatividade e sensibilidade; garantir transparência e retorno social nas pesquisas, compartilhando descobertas de forma acessível aos grupos envolvidos etc.
A ciência que defendemos busca desvendar os mistérios do Universo e melhorar a condição humana. Isso envolve compreender os fenômenos da natureza, elucidar os mecanismos que sustentam a vida e causam doenças, criar alternativas terapêuticas, contribuir para sociedades mais equitativas e desenvolver modos de preservar o meio ambiente, de forma que nossas ações sustentem as condições necessárias à existência das próximas gerações. Para abordar esses temas complexos e multidisciplinares, o filósofo Edgar Morin propõe o “dízimo epistemológico ou transdisciplinar”, que consiste em dedicar 10% da carga horária dos cursos à reflexão sobre os pressupostos de diferentes saberes e às suas interconexões. Essa ideia deriva de sua concepção de “pensamento ecologizante”, que entende o conhecimento como situado em um ambiente, seja ele natural, social, cultural ou histórico. Para entender os conteúdos científicos como parte de um todo interligado, acredito ser preciso humanizar.
Recorro novamente a uma extrapolação de Simone de Beauvoir: não se nasce humano, torna-se. Ter que humanizar o ser humano pode parecer redundante, mas não é óbvio. Humanizar, nesse sentido, é construir historicamente práticas associadas à humanidade que desejamos — como a empatia, a ética e o respeito à alteridade e aos valores democráticos — e trazer essa humanidade a todas as esferas da vida, inclusive à ciência e ao ensino. Ao entrar no Instituto de Química, onde fui recentemente contratada, logo vemos uma escultura em forma de rosa: uma homenagem à professora Ana Rosa Kucinski, assassinada pela ditadura militar aos 32 anos. Passar por ali me faz pensar que a ciência também carrega memória — de vidas, de escolhas, de valores.
Humanizar a ciência também é compreender que a vida acontece enquanto e onde trabalhamos. Durante o pós-doutorado, tornei-me mãe. Vi colegas de trabalho se transformarem em grandes amigos. No Departamento de Bioquímica, uma ausência é presença constante: a da professora Aline Maria da Silva, que partiu há um ano. Infelizmente, não a conheci. Desde que comecei a ser apresentada às pessoas da minha nova casa acadêmica, quase todos a mencionam em algum momento. Mesmo quando seu nome não é dito, sinto um luto que paira no ar. A vida e a ciência acontecem juntas. O cientista e o humano são o mesmo.
Em tempos de tantas incertezas sobre a ciência e o ensino, diante da rápida transformação trazida pela inteligência artificial, o que, porém, permanece é aquilo que nos define: nossa humanidade. A evolução moldou a rosa e também nossa capacidade de enxergar poesia nela. Ser humano é poder desvendar e ensinar a ciência da rosa e, ao mesmo tempo, deixar-se tocar por sua existência.
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