Em cartaz até dia 30, “Opulência e Decadência” traz filmes sobre o conflito entre o luxo e o declínio, seja monetário, seja moral
Por Manuela Trafane*

Tudo que sobe… desce. Isso é revelado em filmes que retratam a dualidade entre riqueza e moralidade, entre luxo e miséria, desde a época do cinema mudo. Na nova mostra do Cinema da USP Paulo Emilio (Cinusp), Opulência e Decadência, essa dualidade é exibida em filmes de diferentes décadas e perspectivas. Os filmes ficam em cartaz o dia 30 deste mês nas salas do Cinusp no Centro Cultural Camargo Guarnieri, na Cidade Universitária, e no Centro MariAntonia, em São Paulo. A programação completa está disponível no site do Cinusp. A entrada é grátis.
“Se você fizer uma rápida pesquisa entre os filmes das décadas de 1910 e 1920, pode ver muito interesse no tema. Sobretudo no que diz respeito à nobreza europeia, porque era um momento de muito fervor politico e o poder era colocado em questão”, conta Paulo Cipis, um dos curadores da mostra.
O poder, político ou monetário, passou a ser colocado em pauta mundo afora. Com a queda do Império Otomano — poderoso Estado multicultural que existiu entre 1299 e 1922 e se estendia pela Europa, África e Ásia —, a sociedade havia percebido que a ascensão poderia ser acompanhada da queda. “É interessante como o cinema se debruça sobre a riqueza, tendo quase como uma contraparte necessária a ela a sua decadência”, diz o curador.
Um exemplo é o curta A Princesa das Ostras (1919), do diretor Ernst Lubitsch. O filme mudo inverte os papéis da burguesia e da aristocracia da época. “A princesa referida no título é a filha de um rei do comércio, o Rei das Ostras, que é uma posição completamente absurda e meio ridícula. Nesse caso, Lubitsch está fazendo uma espécie de crítica irônica a respeito do estatuto dessa burguesia comercial”, afirma Cipis.
O pai da princesa decide que precisa arranjar um príncipe para ela, pois seu competidor, Rei das Graxas de Sapato, havia feito o mesmo para sua filha. O escolhido, no entanto, é um rapaz empobrecido da aristocracia europeia. “A aristocracia aparece nesse lugar de decadência e a opulência aparece como essa nova riqueza dos comércios e da burguesia, que futuramente acaba por tomar o poder mesmo.”

A união entre narrativas de decadência e o cinema continuou ao longo das décadas, como em Cidadão Kane (1941), dirigido por Orson Welles. O filme, considerado quatro vezes o melhor da história pela revista britânica Sight and Sound, conta a história de um repórter, escolhido para descobrir o significado da última palavra proferida pelo magnata da imprensa americana Charles Foster Kane. Em seu leito de morte, o homem disse “rosebud”, mas ninguém sabia o que isso significa. A investigação passa a destrinchar a vida de Kane, que subiu da obscuridade a altos cargos na mídia — segundo Cipis, a decadência que acompanha a ascensão monetária muitas vezes é moral, o que pode ser visto no filme.
Também na mostra está o hollywoodiano Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder. Nele, a atriz Gloria Swanson interpreta uma falida atriz que contrata um roteirista para revisar o roteiro do filme que, supostamente, marcará seu retorno às telas. “A vida de Swanson um pouco se confunde com a de sua personagem. De novo, traz a ideia de uma riqueza que não faz mais sentido, talvez até uma vida que não faz mais sentido. Ela é uma atriz ultrapassada, perdeu seu tempo”, conta o curador. Com a exibição da obra, o Cinusp promove um debate com o professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Eduardo Morettin, que é o atual diretor do Cinusp. O evento ocorre no dia 17, segunda-feira, às 19 horas, na sala do Cinusp no Centro Cultural Camargo Guarnieri.

Outro filme incluído na programação é Salò (1975), de Pier Pasolini, inspirado no romance 120 Dias de Sodoma, do escritor francês Marquês de Sade, e adaptado para o período do nazifascismo italiano. No longa, quatro personagens que representam a nobreza, a igreja, o judiciário e o poder econômico da sociedade italiana durante República de Salò (1943-1945) raptam um grupo de jovens e os tortura por 120 dias. “De certa forma, essa era a imagem do fascismo para Pasolini. Ele era um polemizador, não deixava barato e queria chocar as pessoas, sobretudo com essa obra, que foi sua última”, destaca Cipis.

O Brasil não é exceção na produção de narrativas sobre opulência e decadência, como pode ser visto em Rio Babilônia (1982), do mineiro Neville D’Almeida. Nele, um grupo de gringos visita o Rio de Janeiro com um guia. “Você pode imaginar que o Rio apresentado a eles é um lugar rico, mas existe a todo momento a contraposição do morro e da favela aos grandes edifícios”, conta Cipis.

Também brasileiro é o filme Cleópatra (2007), de Júlio Bressane. Gravado em praias cariocas, o longa-metragem aborda a relação entre aspectos íntimos da vida da rainha egípcia Cleópatra e certas angústias universais. “Bressane está lidando com essa história, não como um passado estanque e enrijecido. Ele trata Cleópatra como uma figura viva, que acende os imaginários. Todo mundo já pensou sobre Cleópatra em algum momento”, diz o curador. “É um filme que tem uma opulência, uma riqueza nos cenários e na interpretação.”
A mostra conta ainda com obras como Megalopolis (2024), de Francis Ford Coppola, Maria Antonieta (2006), da filha de Francis Coppola, a diretora Sofia Coppola, e O Leopardo, de Luchino Visconti.

A mostra Opulência e Decadência, do Cinema da USP Paulo Emilio (Cinusp), está em cartaz até o dia 30 deste mês nas salas do Cinusp instaladas no Centro Cultural Camargo Guarnieri (Rua do Anfiteatro, 109, Cidade Universitária, em São Paulo) e no Centro MariAntonia (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, em São Paulo, próximo às estações Santa Cecília e Higienópolis-Mackenzie do metrô). Entrada grátis. A programação completa da mostra e mais informações estão disponíveis no site do Cinusp.



