O plano, cujo objetivo é adaptar os sistemas de saúde do mundo aos impactos das mudanças climáticas na saúde, teve sua versão brasileira lançada ontem, o AdaptaSUS, e contém 27 metas a serem cumpridas

Por Herton Escobar, enviado especial do Jornal da USP a Belém (PA)
A mudança climática não é só uma crise ambiental, é uma crise de saúde pública. O mesmo calor que derrete geleiras no Ártico e no topo das montanhas mata pessoas de stress térmico nos campos e nas cidades. O fogo que consome florestas na Amazônia também chega ao pulmão das pessoas na forma de fumaça, aumentando a incidência de doenças respiratórias. A chuva que alaga cidades favorece a proliferação de mosquitos e doenças infecciosas, como dengue e leptospirose.
Essa foi uma das principais mensagens que ecoou pelos corredores da COP30 ontem (13), no quarto dia da Conferência sobre Mudanças Climáticas da ONU, em Belém do Pará. O dia foi marcado pelo lançamento de um grande Plano de Ação voltado para a adaptação dos sistemas de saúde do mundo aos impactos das mudanças climáticas na saúde das pessoas.
O documento é fruto de um esforço capitaneado pelo governo brasileiro, em parceria com dezenas de outros países que se juntaram na COP do ano passado, no Azerbaijão, para tratar do tema da saúde. O plano foi apresentado em Belém pelo ministro da Saúde do Brasil, Alexandre Padilha — que é médico infectologista, formado pela Universidade de São Paulo, e que já trabalhou diversos anos na Amazônia.
Segundo ele, a ideia é que o documento sirva como um “roteiro operacional” de adaptação aos efeitos das mudanças climáticas, com orientações gerais que podem ser adaptadas à realidade e às necessidades de cada país. “Como afirmou o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, a era dos alertas acabou. Vivemos agora a era das consequências. Diante de um clima já alterado, não nos resta alternativa senão movermos políticas públicas para nos adaptarmos e enfrentarmos as mudanças climáticas.”
Ele ressaltou que a adaptação hoje é um tema tão importante e tão urgente quanto a mitigação — ou seja, a redução das emissões de gases do efeito estufa — que, por muito tempo, monopolizou as atenções da convenção do clima. “Para muitos países, adaptar-se é uma questão de sobrevivência imediata. O mais recente relatório da Lancet Countdown sobre clima e saúde é contundente. De 3,3 bilhões a 3,6 bilhões de pessoas vivem em áreas de alta vulnerabilidade climática e os hospitais enfrentam risco 41% maior de sofrer danos decorrentes de eventos climáticos extremos. Não se adaptar é ameaçar a cobertura e a continuidade dos serviços de saúde. De pacientes e profissionais que já enfrentam condições adversas, não se adaptar é aumentar a desigualdade. Resumindo, não se adaptar é ceifar vidas.”
O plano está organizado em três eixos temáticos, abrangendo, por exemplo, o reforço da vigilância epidemiológica; o aumento da resiliência da infraestrutura e dos serviços de saúde; e o apoio financeiro e tecnológico ao atendimento e à proteção de populações que vivem em áreas de risco. A versão brasileira do plano também foi lançada ontem: o AdaptaSUS, com 27 metas que deverão ser cumpridas até 2025.
A importância do plano, considerado um grande avanço
O professor Paulo Lotufo, da Faculdade de Medicina da USP, comemorou o lançamento do plano: “Eu considero que é um avanço muito grande, e que todos nós, na Universidade de São Paulo, nas demais instituições de ensino superior, devemos nos esforçar para que essa seja uma diretriz que a gente possa utilizar na pesquisa, no ensino e nas nossas práticas relacionadas a essa questão tão importante que são os aspectos da saúde motivada pelas mudanças climáticas”.
Lotufo está na COP30 para apresentar o Iara Saúde, um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia recém-criado, com foco na saúde de povos tradicionais da Amazônia, como indígenas, ribeirinhos e quilombolas. O projeto é financiado pela Fapesp e CNPq, e coordenado pela USP, em parceria com todas as universidades da região amazônica. Quem também celebrou o lançamento do plano foi o coordenador do Projeto Saúde e Alegria, Caetano Scannavino, que há quase quatro décadas trabalha com o atendimento à saúde de comunidades tradicionais da floresta amazônica.
“Foram 28 COPs para finalmente poder ter um dia oficial da saúde para a agenda climática. O primeiro dia oficial da saúde foi na COP28, em Dubai. Agora a gente está na terceira COP apenas com a agenda de saúde dentro das questões climáticas. Então demorou muito para uma coisa que, na verdade, é essencial. Quando a gente fala de extremos climáticos, quando a gente fala de grandes cheias, grandes secas, estresse hídrico, o quanto que isso reflete na saúde humana, a questão da sede, a questão de águas contaminadas, a mortalidade decorrente de diarreias e desidratação, o quanto que isso impacta principalmente aquelas populações que estão às margens dos rios, a Amazônia, por exemplo, povos indígenas, povos tradicionais, quilombolas, extrativistas, ribeirinhos, é aquele povo que está lá, debaixo da floresta, lutando para manter ela em pé e ao mesmo tempo manter a todos nós em pé.”
Os impactos, segundo ele, vão desde uma maior incidência de doenças até questões logísticas, causadas por secas e enchentes, que dificultam ainda mais o já precário acesso a serviços de saúde que essas populações enfrentam no dia a dia. Quem melhor resumiu esse vínculo entre mudanças climáticas e saúde foi o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom. Em um depoimento enviado por vídeo à conferência, ele afirmou: “Não há como manter pessoas saudáveis, num planeta doente”.
Vários estudos publicados nos últimos anos sugerem que milhões de pessoas morrem todos anos em função da poluição do ar que é gerada pela queima de combustíveis fósseis, como gasolina e diesel. A redução do uso desses combustíveis é a medida mais importante que precisa ser tomada para conter o aquecimento global. O tema não está na agenda oficial de negociações da COP30, em função da oposição feita pelos países produtores de petróleo, mas há uma pressão crescente, do Brasil e de outros países, para que a conferência de Belém avance em conversas informais nesse sentido.
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