Para especialista, a medida regulatória adotada pela Aneel é uma das mais importantes e lógicas para o momento e ataca a inércia do consumidor


A proposta da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) de inverter a lógica da Tarifa Branca, tornando-a o padrão (opt-out), em vez de uma opção (opt-in), é uma das medidas regulatórias mais importantes e lógicas para o momento que vivemos. Ela ataca diretamente a “inércia” do consumidor, que foi o principal motivo para a adesão de apenas 0,1% ser um fracasso retumbante. A Tarifa Branca é a modalidade opcional de conta de luz em que o valor da energia varia conforme o horário de consumo, sendo mais cara nos horários de pico e mais barata fora desses períodos. Mas ninguém acorda de manhã pensando em ligar para a distribuidora para trocar seu modelo de tarifa. E se o novo modelo se torna o padrão, o consumidor é forçado a, pelo menos, analisar sua conta. Este é o assunto do episódio desta semana da Série Energia.

O ponto-chave aqui é a sinalização econômica. Segundo o professor Fernando de Lima Caneppele, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) de Pirassununga da USP, a tarifa convencional atual é “cega e injusta”. Segundo o professor, ela é cega porque trata toda energia como igual, seja ela a solar abundante e barata ao meio-dia, ou a termelétrica cara e poluente das 19h. E é injusta porque socializa o custo da energia de ponta: todos nós pagamos, na tarifa média, pelo acionamento das termelétricas, mesmo quem consome muito pouco no horário de pico. A Tarifa Branca corrige isso; ela dá o sinal de preço correto. Ela diz claramente: “A energia é barata quando o sol está brilhando; use-a agora. À noite, ela é cara; economize ou pague o preço real”.
Essa mudança é o que chamamos de gestão pelo lado da demanda. Hoje, o sistema não é eficaz: a demanda sobe, e o operador corre para ligar mais usinas. Caneppele ressalta que o novo modelo permite o oposto. “O preço sobe e o consumidor (ou sua tecnologia) reage, reduzindo a demanda. A Aneel mira em 2,5 milhões de unidades de alto consumo (acima de 1.000 kWh/mês) justamente por isso. Esse é o consumidor que tem cargas “deslocáveis”: bombas de piscina, grandes sistemas de ar-condicionado e, crucialmente, os futuros carregadores de veículos elétricos, entre outras cargas. Ninguém vai deixar de tomar banho, mas a bomba da piscina pode perfeitamente funcionar ao meio-dia e o carro elétrico pode ser carregado de dia.”
A Série Energia tem apresentação do professor Fernando de Lima Caneppele que coproduziu com o jornalista Ferraz Junior, da Rádio USP de Ribeirão Preto. Você pode sintonizar a emissora em FM 107,9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo no celular para Android e iOS.



