quinta-feira, maio 14, 2026
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Textos raros contam histórias da Faculdade de Direito da USP – Jornal da USP


“Era alto, magro e pernilongo”, escreve o autor. “Tez morena, rosto pálido, com escassíssima barba; pele rugosa, que lhe dava a fisionomia de um velho. Ele o sabia e tinha com isto desgosto. Um dia raspou cuidadosamente os raros fios, que levemente (oh, mui levemente!) lhe sombreavam o rosto, e perguntou curioso a um colega: – Então agora pareço velho? – Não – respondeu-lhe este, mas acrescentou de mau – agora você parece velha…”

Da sua pena também não ficam de fora o sarcasmo e a ironia. Se Almeida Nogueira escolhe os melhores adjetivos e não evita os elogios de quem considera merecedor, sabe também manejar a língua portuguesa para tornar o leitor cúmplice de sua acidez. Como faz ao falar de Benedito Cordeiro dos Campos Valadares:

“Mineiro, de Pitangui, sobrinho do grande Martinho Campos”, escreve. “Louro, quase ruivo. Estatura regular, bem apessoado. Vigorosa inteligência, muito amor ao estudo, nobre ambição de aparecer. Entrou com o pé direito na Academia, pois tinha sido medíocre estudante de preparatórios e veio a ser grande estudante de direito. Eis como se deu essa evolução, que por ele mesmo nos foi referida. Matriculado no 1º ano, aconteceu que um dia, nada tendo que fazer, lembrou-se ele de estudar a lição. Que ideia singular!”

Entre um perfil e outro, as crônicas de Almeida Nogueira dizem também sobre a moda, os costumes, a política e as transformações que tomavam conta da provinciana São Paulo – no século 19, uma cidade ainda longe de se tornar o que se conhece hoje. Assim, desconhecidos e personalidades que entrariam para os livros de história acabam revelando práticas cotidianas que permitem visões mais vivas do período.

Exemplo disso é o relato das reuniões semanais que Manuel José Chaves, diretor e professor da primeira Escola Normal de São Paulo, mantinha com dois colegas da faculdade, os conselheiros Barão de Ramalho e Crispiniano Soares. “Refere crônica bisbilhoteira que, mesmo nos seus velhos dias, os três amigos se reuniam a portas fechadas, uma vez por semana, na casa do Dr. Chaves, à rua do Carmo, e aí passavam mais de uma hora”, escreve Almeida Nogueira. “Para que seria?! Verificou-se depois que tão respeitável conciliábulo não aplicava esse tempo em altas cogitações filosóficas sobre o futuro da humanidade, mas… em jogar peteca. Não se achavam ali os conselheiros Crispiniano, Ramalho e o Dr. Chaves; mas o ‘João’, o ‘Joaquim’ e o ‘Manuel’, que celebravam doce recordação da adolescência.”

Nesse equilíbrio entre o particular das situações e o público das personalidades, os relatos de Almeida Nogueira ganham tempero. E acabam deixando, várias vezes, a esfera do pitoresco para registrar as dinâmicas sociais que ganhavam palco no microcosmo da Faculdade de Direito. No capítulo que fecha a obra, o autor narra – com pleno domínio do suspense – uma disputa eleitoral pelo cargo de redator-chefe do periódico estudantil Imprensa Academica, em 1870.

A disputa opunha liberais e conservadores na figura de dois estudantes de destaque, o paulista Rodrigues Alves e o mineiro Afonso Pena – que se tornariam, ambos, presidentes da Primeira República. Pena se destacava nas disciplinas jurídicas, comenta Almeida Nogueira, enquanto Alves tinha maior cultura literária e um “talento mais brilhante”. Alunos de todos os anos votavam democraticamente para o cargo, e o resultado foi que os dois terminaram com 110 votos cada.

A solução de compromisso foi colocar ambos no cargo, o que levou a Imprensa Academica a deixar de lado os assuntos de política partidária. “Foi isto de grande proveito para o programa e êxito brilhante da folha. Trouxe exclusivamente artigos de doutrina jurídica e sociológica, estudos literários, crítica e primorosas poesias. É escusado acrescentar que reinou sempre a mais cordial harmonia entre os dois redatores principais da Imprensa”, escreve Almeida Nogueira.



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