quinta-feira, maio 14, 2026
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COP30 abre semana decisiva de negociações – Jornal da USP


Imagem de uma embarcação em Belém do Pará, durante a COP30, carregando um cartaz com os seguintes dizeres em escritos em preto: Crise Climática Somos Todos Atingidos
A presidência brasileira da COP anunciou que a conferência vai adotar uma dinâmica diferente de trabalho daqui para frente – Foto: Hermes Caruzo/COP30 – Flickr

Por Herton Escobar, enviado especial do Jornal da USP a Belém (PA)

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A COP30 abriu sua semana decisiva de negociações ontem (17) com um toque de arte. A plenária de abertura do chamado Segmento de Alto Nível da conferência começou com uma apresentação de imagens do fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, projetadas nos telões do centro de conferências ao som da Bachianas Brasileiras Número 5, de Heitor Villa-Lobos. 

O casamento da música e das imagens apoteóticas em branco e preto, retratando povos e paisagens da floresta amazônica, deu o tom para as negociações políticas e para a chamada Agenda de Ação da conferência, que teve a preservação da natureza e das suas populações tradicionais como tema principal do dia. O vice-presidente, Geraldo Alckmin, abriu os trabalhos dizendo que “o tempo de promessas já passou” e que a COP30 precisa transformar ambições em resultados.

Geraldo Alckmin – Foto: Rafa Neddermeyer/COP30 Brasil Amazônia/PR – Flickr

Ele voltou a enfatizar uma declaração do presidente Lula, de que a intenção do governo brasileiro é sair de Belém com um plano de ação para acelerar a transição energética do mundo para longe dos combustíveis fósseis, apesar de esse tema não estar na agenda oficial de negociações da conferência — e de o governo estar apoiando a prospecção de novas reservas de petróleo na foz do Amazonas; o que muitos veem como uma contradição nesse discurso. “O Brasil propõe que a COP30 deixe como legado mapas de ação integrados na aceleração da transição energética para sair da dependência dos combustíveis fósseis.”  

Perguntado sobre isso numa coletiva de imprensa, o negociador-chefe do Brasil na COP30, embaixador Maurício Lyrio, disse que as falas refletem  “uma conclamação” feita pelo presidente Lula, com o objetivo de iniciar uma discussão do tema, mas que não há como prever se a conferência produzirá algum documento oficial sobre isso. “É um tema muito complexo, sabemos, que toca em dificuldades de diversos países, tanto pelo lado da produção quanto pelo lado do consumo. Então isso é um negócio que não dá para antecipar que tipo de resultado você pode ter, mas o que é claro é que a cúpula de Belém e a COP de Belém já estão marcadas pelo debate e pela importância do tema, como, eu diria, indicado pelo presidente Lula, ou seja, pelo mais alto nível do governo brasileiro e, portanto, como uma direção que o Brasil quer seguir, pois é um processo, como eu falei, coletivo, não dá para antecipar o andamento de um processo tão complexo como esse.”

Dinâmica de trabalho

Com relação à agenda oficial de negociações, a presidência brasileira da COP anunciou que a conferência vai adotar uma dinâmica diferente de trabalho daqui para frente. Em vez de negociar cada tema da pauta separadamente, a proposta é combinar várias temáticas em dois grupos de documentos para serem negociados e adotados em conjunto, que eles estão chamando de “Pacotes de Belém”.

 

O presidente da COP30, André Corrêa do Lago (ao centro, recebendo um manifesto dos cientistas Johan Rockstrom (camisa verde) e Carlos Nobre, em que eles alertam para a urgência de combater a mudança climática; ontem (dia 17), na abertura da segunda semana da conferência – Foto: Ueslei Marcelino/COP30 Foto: Ueslei Marcelino/COP30 – Flickr

 

Não ficou claro como isso vai funcionar na prática, mas a ideia, supostamente, seria fazer as negociações avançarem num esquema de mutirão, já que vários temas estão relacionados entre si. Segundo o presidente da conferência, o embaixador André Corrêa do Lago, a ideia dessa nova dinâmica partiu das próprias delegações, inspiradas pelo bom andamento dos trabalhos na semana passada.

A meta, extremamente ambiciosa, é aprovar o primeiro desses pacotes já na noite de amanhã, quarta-feira, dia em que o presidente Lula deverá passar novamente por Belém. O segundo pacote ficaria para a plenária final da COP, na sexta-feira. Arranjos logísticos foram feitos, em comum acordo com as delegações, para que as negociações possam avançar até tarde da noite nos próximos dias. Isso inclui serviços de alimentação, transporte e segurança, que funcionarão por horas estendidas. 

A ciência também deu o seu recado de urgência logo cedo ontem (17), com um manifesto entregue a todos os delegados que chegavam à plenária de abertura da conferência. O documento, preparado por um grupo de pesquisadores responsáveis pelo Pavilhão de Ciências Planetárias da COP30, alertava para a urgência de agir contra o aquecimento global para evitar o colapso da floresta amazônica e dos recifes de coral, que são os ecossistemas de maior biodiversidade do planeta.

O climatologista Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da USP, foi um dos autores do manifesto, que foi lido também para a imprensa no início da manhã. “A pressão combinada das emissões de combustíveis fósseis e do desmatamento empurra a Amazônia na direção de mudanças irreversíveis. Está muito próximo do ponto de não retorno. Quando a floresta se degrada e grandes áreas deixam de absorver o carbono para se tornarem fontes de emissões, todo o planeta sentirá o impacto. Os recifes de corais tropicais, berço de um terço de toda a vida marinha, atingiram, pois estão muito próximos de atingir um ponto de não retorno. O aquecimento dos oceanos e a acidificação impulsionada pelas emissões dos combustíveis fósseis estão destruindo esses ecossistemas.”


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