Músicos, produtores, cineastas e jornalistas participaram de missão em solidariedade ao povo angolano cinco anos após a independência do país; registros da viagem compõem a exposição “Projeto Kalunga: Cruzamentos entre Brasil e Angola”
Por Silvana Salles

No último dia 11 de novembro, Angola completou 50 anos de independência do domínio colonial português. Para marcar a efeméride, o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP inaugura nesta quarta-feira (19) a exposição Projeto Kalunga: Cruzamentos entre Brasil e Angola. A mostra resgata uma história que foi propositalmente esquecida no Brasil: a de um grupo de 65 artistas, produtores, cineastas e jornalistas brasileiros que, em 1980, viajou em missão a Angola para declarar solidariedade ao povo angolano em um momento em que o país sofria com uma violenta guerra civil. A missão ficou conhecida como Projeto Kalunga e nela embarcaram nomes da MPB como Dorival Caymmi, Chico Buarque, Clara Nunes e Martinho da Vila.
A convite do governo angolano, a caravana brasileira excursionou durante 12 dias por três cidades: Luanda, Benguela e Lobito. Nesses locais, os brasileiros fizeram shows e tiveram momentos de encontro e partilha com artistas angolanos. Alguns músicos brasileiros voltaram com novas canções na bagagem. Chico Buarque compôs Morena de Angola em referência à viagem. Martinho da Vila gravou Velha Chica, do compositor angolano Waldemar Bastos. Djavan voltou com a tradicional Nvula Ieza Kia e com Humbiumbi, do também angolano Filipe Mukenga.
A exposição Projeto Kalunga: Cruzamentos entre Brasil e Angola reúne registros fotográficos da turnê feitos pela fotojornalista Iolanda Huzak e imagens de obras do acervo do IEB. Falecida em 2013, Iolanda trabalhou como fotojornalista por mais de 40 anos e ficou mais conhecida por seu trabalho fotográfico denunciando a exploração do trabalho infantil no Brasil, nos anos 1990. Na missão a Angola, Iolanda documentou momentos de convivência e partilha entre artistas brasileiros e angolanos. As fotos da exposição fazem parte do acervo do Instituto Elifas Andreato.
Com curadoria dos professores Tiganá Santana, do IEB, e Maurício Barros de Castro, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), a mostra busca construir uma ponte entre Brasil e Angola. “Eu acho que recordar a história do Projeto Kalunga é fundamental para pensarmos em laços contemporâneos entre Brasil e Angola. Laços que se estabeleceram inicialmente por conta de uma tragédia que gerou um grande trauma, que foi o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas em África, mas que por outro lado também foi fundamental para a constituição da história e da cultura brasileira”, diz Castro, ressaltando o protagonismo negro na constituição da sociedade brasileira e na luta pelo fim da escravidão.
Ele também destaca a contribuição cultural que a África Central legou ao Brasil. “Dessa região onde hoje é Angola, dos portos de Luanda, Benguela e Cabinda, veio a maior parte dos africanos escravizados que chegaram ao Brasil. Então, a cultura do samba, da capoeira, o vocabulário, as festas populares, como o maracatu e também reisados, congados, são todas heranças africanas que vieram da África Central e dos povos que nós conhecemos como povos Bantu”, explica o professor da Uerj, que pesquisa o Projeto Kalunga há mais de dez anos e atualmente prepara um livro sobre o tema.
Alguns dados históricos ajudam a dimensionar essas contribuições. A região de Angola passou cinco séculos sob o jugo colonial de Portugal. A partir do século 16, os portugueses fizeram de Luanda, hoje a capital angolana, um de seus principais portos escravistas. De acordo com a base de dados Slave Voyages, estima-se que mais de 1,4 milhão de pessoas escravizadas foram embarcadas em Luanda entre 1514 e 1887. A enorme maioria dessas pessoas foi enviada para o Brasil. Outros destinos incluíram Cuba, Colômbia, as Guianas holandesas, a região do Rio da Prata e os Estados Unidos.
Guerra Fria e esquecimento seletivo
Após a independência em 1975, Angola entrou em uma violenta guerra civil que opôs os antigos grupos guerrilheiros que lutaram contra o domínio colonial: o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA). Os três movimentos divergiam em termos de projetos, ideologias e alianças internacionais. O MPLA era uma organização de orientação marxista-leninista. A FNLA era um movimento nacionalista de centro-direita. A UNITA, por sua vez, chegou a ter uma aproximação com a China e núcleos de esquerda, mas consolidou-se como uma organização de orientação conservadora e anticomunista. Os movimentos eram também marcados por clivagens étnicas e territoriais.
A proclamação da independência foi feita pelo líder do MPLA, Agostinho Neto, que foi também nomeado o primeiro presidente do país e deu início a um governo de inspiração socialista. Contudo, os outros movimentos não aceitaram a legitimidade do governo. Foi o estopim para a Guerra Civil Angolana, que se arrastou por décadas e é considerada um dos conflitos “por procuração” da Guerra Fria, na medida em que as forças locais e suas alianças internacionais reproduziram a disputa entre o bloco capitalista liderado pelos Estados Unidos e o bloco socialista liderado pela União Soviética.
Esse era o contexto quando o Projeto Kalunga desembarcou em Luanda em 1980. “Ainda que tenha acontecido cinco anos depois, é o evento que nos remete diretamente a uma solidariedade de artistas brasileiros em relação à independência de Angola e em relação ao momento difícil que Angola estava vivendo, que era a guerra civil. O Brasil tem uma importância para a independência de Angola porque foi o primeiro país a reconhecer a soberania de Angola”, afirma Maurício Barros de Castro.
A comitiva brasileira foi organizada pelo jornalista e produtor cultural Fernando Faro. Maurício chama a atenção para a preocupação do produtor em ter como participantes da missão pessoas que pudessem registrar os eventos, como coube a Iolanda Huzak e aos demais jornalistas e cineastas que estiveram na viagem. Em solo angolano, os artistas brasileiros deram declarações à imprensa e a caravana entrou para a história oficial. Muito se falou sobre as relações entre o samba brasileiro e o semba angolano, apesar de os dois estilos musicais serem manifestações culturais distintas.

Deste lado do Atlântico, a situação foi diferente. A Lei de Anistia já estava em vigor, mas o Brasil continuava sob a ditadura militar. Embora o governo ditatorial tivesse prontamente reconhecido a independência de Angola, os militares não viam com bons olhos a viagem de artistas ligados à esquerda brasileira, ainda mais a convite do governo do MPLA, que tinha relações com a União Soviética. As notícias sobre o Projeto Kalunga foram bloqueadas pela censura e o pouco que foi publicado reproduziu conteúdo da agência de notícias oficial de Portugal.
O Projeto Kalunga permaneceu, em grande medida, um desconhecido do público brasileiro. Agora, as pessoas que queiram conhecer essa história poderão entrar em contato com ela no IEB. A abertura da exposição Projeto Kalunga: Cruzamentos entre Brasil e Angola acontece nesta quarta-feira (19), às 14h, em uma atividade com a presença dos curadores. O evento também contará com um sarau dos estudantes angolanos que participam do projeto De Braços Abertos, da Escola de Enfermagem (EE) da USP.
Exposição – Projeto Kalunga: Cruzamentos entre Brasil e Angola
Quando: de segunda a sexta, exceto feriados, das 8h30 às 19h30. Até março de 2026
Onde: Instituto de Estudos Brasileiros da USP (Av. Prof. Luciano Gualberto, 78, Cidade Universitária, Butantã – São Paulo – SP)
Atividade gratuita





