E cabe a nós questionarmos o que é, hoje, a biblioteca em sociedade. A biblioteca, hoje, é um símbolo. Um símbolo de memória, conhecimento e transformação social. Ela é a instância da sociedade onde a informação e o conhecimento se encontram da maneira mais elevada. No momento atual, não há mais necessidade de compra de acervos físicos, de deslocamento para ambientes reais de consulta ou da intervenção direta e presencial do profissional para a mediação da informação. Não estamos dizendo que essas relações não existam ou deixem de existir, mas que elas não são mais condição essencial para a existência da instituição biblioteca na sociedade contemporânea. A biblioteca se desmaterializa como um todo, em suas funções, em suas atividades de trabalho, em seu acervo e em sua atuação direta com o público. Ela entra em seu estado sublime.
A palavra sublimação, do latim sublimare, significa elevar, tornar sublime, e designa o ato de conduzir algo a um plano superior. Nesse sentido, a biblioteca se sublima: transcende sua materialidade, transforma suas funções e se eleva a um plano simbólico, espiritual, social e tecnológico. Essa instituição simbólica, que é a biblioteca, precisa ser tratada na sociedade não como um espaço físico delimitado e com recursos materiais distantes, mas como um lugar de registro da memória, das informações e, com isso, do conhecimento da sociedade. Os desafios para pensar essa biblioteca-símbolo são enormes: quais públicos serão atendidos por essa biblioteca sem lugar físico? Quais serão os documentos e seus acervos? Quais as formas de interação com os públicos, as ferramentas, as tecnologias? Estamos criando bases de conhecimento para que as inteligências artificiais realizem o tratamento técnico das informações e atuem no atendimento ao público, em aprendizado de máquina, em uma interação simbiótica entre ser humano e tecnologia. Nessa simbiose, a biblioteca se reinventa, e os desafios são os mais diversos, abrindo um campo vasto de possibilidades para o profissional dos estudos da informação, que atua preservando e organizando o conhecimento da sociedade.
Os novos desafios dessa biblioteca sublimada estão em pensar novas camadas e esferas de fronteiras de atuação. É preciso pensar a biblioteca como a compilação de um conjunto de informações e conhecimentos que operam em sistemas inteligentes, sistemas híbridos que articulam memória humana e memória artificial. Entramos em um estágio no qual o acesso à informação e ao conhecimento se torna instantâneo, como se integrasse corpo e máquina, cérebro e memória, em uma espécie de ser androide informacional. Nesse cenário, poderemos acessar conteúdos que estão fora e, ao mesmo tempo, dentro de nós: uma biblioteca externa, mas injetada em nossos corpos, presente de maneira rápida, acessível e integrada.
E há uma fronteira ainda mais distante: as camadas da atmosfera. Precisamos explorar o armazenamento e a recuperação de informações além das esferas terrestres. As diferentes órbitas tornam-se zonas potenciais de conhecimento, espaços de armazenamento da informação ainda pouco explorados ou explorados apenas por algumas nações. Nessas novas zonas, terrestres, atmosféricas e extraterrenas, a biblioteca se expande e se sublima. Ela se projeta para o extraplano, transcendendo o espaço físico e material e adentrando um campo cósmico da informação.
Esses são os novos e futuros desafios ainda não explorados: as bibliotecas injetadas em nossos corpos e a expansão para o extraplano da informação. Vivemos o momento em que a biblioteca atua e se posiciona de maneira sublime. Do material ao imaterial, a biblioteca é, hoje, uma instituição-símbolo.
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