Sexto volume da publicação de alunos do Instituto de Relações Internacionais da USP é dividido em dois números e apresenta um dossiê que explora, a partir do contexto da COP30, as relações entre política e meio ambiente
Por Claudia Costa

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Criada para dar visibilidade a trabalhos acadêmicos que contribuam para os debates contemporâneos da área de Relações Internacionais, a revista A Internacionalista lançou seu sexto volume, dividido em dois números, o dossiê temático Mudanças climáticas e relações internacionais: impactos da crise ambiental no cenário mundial. Publicação vinculada ao Laboratório de Análise Internacional (LAI) do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, trata-se de uma iniciativa dos estudantes de graduação do curso, publicada anualmente e comprometida com a democratização do acesso ao conhecimento e a valorização da produção científica discente. São artigos de jovens pesquisadores do Brasil e do mundo que exploram os desafios contemporâneos das mudanças climáticas e seus impactos sobre as dinâmicas políticas e econômicas internacionais. Leia o primeiro número neste link e o segundo clicando aqui.
O evento de lançamento da nova edição ocorreu no último dia 6 de novembro, e segundo os editores foi um espaço de reflexão sobre a urgência da agenda ambiental global e o papel da academia na promoção de debates críticos e plurais sobre o tema. “Em um contexto da COP30, realizada em Belém, consideramos fundamental destacar o papel da Amazônia e outras questões ambientais urgentes no cenário internacional. Por isso, escolhemos o tema das relações entre política e meio ambiente como eixo central desta edição”, afirma o editor Alan Mota, estudante do primeiro ano de Relações Internacionais no IRI.
Para a editora-chefe, Jordana Godinho, não haveria nada mais atual e pulsante nas relações internacionais do que a questão climática, o que foi comprovado com a submissão dos trabalhos na seção dedicada ao dossiê, e não a de temas gerais. “Isso nos mostrou mais uma vez a relevância da questão climática nas relações internacionais, e mais ainda: a demanda dos pesquisadores e pesquisadoras por plataformas direcionadas à divulgação dos trabalhos desta temática.”
A publicação
O sexto volume está dividido em dois números, sendo que o primeiro reúne dez artigos. Entre eles, Inteligência Artificial, Governança e Crise Climática: Uma Perspectiva de Justiça Climática, de Marianne Winkler Moreira (USP) apresenta uma avaliação crítica dos impactos estruturais da IA, especialmente em relação à crise climática. “Embora a tecnologia seja frequentemente celebrada por seu potencial de mitigar mudanças climáticas – por meio do monitoramento ambiental, previsão de desastres e apoio a políticas públicas –, seus próprios custos ecológicos e sociais permanecem amplamente negligenciados”, escreve a autora.

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Segundo ela, o trabalho parte da premissa de que a reflexão sobre o papel da IA na crise climática deve incluir não apenas seus benefícios, mas também seus impactos socioambientais e a forma como reproduz desigualdades históricas. A partir de uma perspectiva crítica e interseccional de justiça climática, o artigo analisa como os custos ambientais da IA – como o consumo energético, a dependência de minerais críticos e os efeitos da cadeia de produção – são distribuídos globalmente, aprofundando assimetrias entre o Norte e o Sul Global. A pesquisa tem como objetivo evidenciar a necessidade de uma governança ambiental da IA que integre princípios de equidade, responsabilidade histórica e sustentabilidade.
Outro artigo, Política Externa Ambiental e o Fundo Amazônia: O impacto de cada governo nas doações (2008-2024), pesquisadores da USP e da Universidade Estadual Paulista (Unesp) abordam o Fundo Amazônia, que se consolidou como um dos principais mecanismos de política externa de combate ao desmatamento e de promoção ao uso sustentável da floresta amazônica. Esse artigo examina, entre 2008 e 2024, a influência dos respectivos mandatos presidenciais no fluxo de doações internacionais ao fundo, e, de forma incidente, o posicionamento da Presidência da República em relação à agenda ambiental.
Por meio de revisão bibliográfica e análise documental, os autores investigaram em que medida a adesão do chefe do Executivo a pautas ambientais — por meio das diretrizes de seu governo — impactaram a confiança dos doadores estrangeiros e, consequentemente, o volume de recursos destinados ao financiamento ambiental e climático. Segundo eles, os resultados indicam que períodos de maior estabilidade política, engajamento multilateral e compromisso simbólico e prático com a pauta ambiental coincidem com a continuidade e ampliação das doações. Em contrapartida, informam que em momentos de discurso antiambientalista, de desmonte institucional e resultados negativos acarretaram o congelamento dos repasses internacionais.
Já o segundo número traz alguns problemas urgentes, como a fome no artigo Conflitos da Fome: Escassez de alimentos, escassez de direitos, de Pietra Domingues Ferreira (Unesp), que busca colocar em debate, à luz do Direito Internacional, as intersecções entre direitos humanos, direito à alimentação e crimes de guerra, com ênfase na utilização da fome como tática em contextos de conflito armado. Ou a questão dos microplásticos nos oceanos no texto A Política Internacional no Âmbito da Poluição Oceânica: O caso dos microplásticos, de Maria Eloá Ronchi Testoni (Universidade Federal de Santa Catarina), que tem como objetivo analisar a extensão e a eficácia das respostas políticas internacionais à problemática da poluição oceânica por microplásticos.
Há ainda a questão da dependência geoeconômica da China em relação ao uso e desenvolvimento de tecnologias de veículos elétricos no artigo de Daniel Graubart Agoston, Eugênio Tavares e Jorge Rezende, pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas e da Universidade Federal de São Paulo. A hipótese elaborada é que a forte dependência da cadeia de valor de veículos elétricos em relação a minerais críticos torna o setor vulnerável a estratégias geoeconômicas e de economic statecraft. A conclusão dos autores é que o domínio chinês sobre etapas críticas da cadeia de valor dos VE reforça sua capacidade de exercer poder geoeconômico, levando outras nações à dependência em relação à potência asiática.
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. A revista A Internacionalista é publicada anualmente. Cada edição possui um tema principal, o qual é debatido no dossiê temático, mas também acolhe artigos, ensaios e entrevistas sobre diversos temas relacionados às relações internacionais. Além disso, permite a publicação de edições extras que possam contribuir para o debate e a produção científica na área. Atualmente a revista aceita submissões escritas de graduandos e recém-graduandos (até um ano de formação) de qualquer curso, em português, inglês e espanhol, com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento de uma perspectiva mais global e diversificada dos temas abordados na revista. ![]() . |
O sexto volume da revista A Internacionalista – Mudanças climáticas e relações internacionais: impactos da crise ambiental no cenário mundial pode ser acessada nos respectivos links do primeiro número e do segundo número.
Mais informações sobre a publicação e edições anteriores no site do LAI




