Aplicativos de animação e colorização reconstroem fotos antigas com uniformidade artificial, levantando questões sobre autenticidade, memória e o futuro da fotografia na era da inteligência artificial
Por Marcia Avanza
Há uma febre de aplicativos para tridimensionalizar, colorizar, animar fotos antigas e dar “vida” ao passado. Os resultados obtidos usando cada um desses aplicativos são sempre muito parecidos. Em consequência, nos vemos diante de um emergente conjunto de passados fictícios e muito semelhantes: felizes e “liberados” dos supostos defeitos do tempo. Melhorias na qualidade das imagens apagam dobras e manchas causadas pela idade, enquanto colorizações retrospectivas deixam tudo com tons muito parecidos, independentemente da época e do lugar.
No caso do tipo de aplicativo viral do momento, fotos antigas, de antepassados a personalidades históricas, ganham expressões que vão de piscadas a sorrisos e olhos arregalados, com direito a muitos abraços e dancinhas padronizadas. No passado ninguém chorava? Ninguém ficava triste? Qual 0 futuro da fotografia e do olhar, quando confrontados com o emergente mundo da inteligência artificial? Ao alcance da mão de qualquer um as tecnologias de IA mostram que o futuro da imagem não passa pelos olhos e sim pelas técnicas de aprendizado de máquinas (machine learning). Mas mostram também que precisamos começar a nos preocupar com o futuro do nosso passado. Que histórias essas imagens vão contar?
Ouvir Imagens
A coluna Ouvir Imagens, com a professora Gisele Beiguelman, vai ao ar quinzenalmente, segunda-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
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