Os estudantes do projeto tinham cerca de 10 a 12 anos. Deles, 12 vinham de famílias bolivianas. Destes, apenas cinco nasceram na Bolívia. Quando perguntados sobre quais idiomas conheciam, os participantes trouxeram diversas respostas. Além do português e do espanhol, apareceram também falantes de línguas indígenas, como o quéchua, e do inglês, aprendido através da cultura musical e on-line.
Uma das violências presenciadas pela educadora partiu de um dos participantes do projeto Cultura, Histórias e Ação, o Yago*. “Não gosto do Juan*, ele é boliviano. Eu odeio todos os bolivianos, eles invadiram nosso país. Se eu fosse presidente, eu fazia ir embora todo mundo. Eu mataria todos os bolivianos, atiraria na cara deles”, disse o estudante sobre um dos migrantes, Juan. Yago foi expulso do projeto.
Juan nasceu no Brasil e tem pais nascidos na Bolívia. Sua autodeclaração racial é pardo. Durante as atividades, ele foi um dos estudantes que usaram a translinguagem, que define que pessoas que sabem mais de uma língua, os multilíngues, mesclam os idiomas. Essa definição considera que não existe uso certo ou errado da linguagem, mas sim diferentes formas de se adaptar ao espaço e ao contexto em que o falante está. Um exemplo é a receita que o jovem escreveu durante uma atividade culinária sobre as origens de cada um.
Talita explica que esse texto é um dos indicadores de que o estudante sabe as duas línguas. Isso porque ele usa, por exemplo, tanto papas quanto batatas para se referir ao ingrediente. Antes da atividade, a professora achava que Juan era quieto durante as aulas por não saber português. Depois, percebeu que essa ideia vinha de um estereótipo da própria pesquisadora.



