A prova é boa…
Embora equívocos pontuais possam ser questionados (como fizemos em 2023 e em 2024), é sempre importante lembrar que a prova de linguagens do Exame Nacional do Ensino Médio provocou uma mudança positiva nos currículos escolares na disciplina de língua portuguesa. Gostemos ou não, vestibulares são indutores de currículo, e o Enem, quando passou a fazer parte das vias de acesso ao ensino superior (por meio do Sisu), impulsionou nacionalmente temas como variação linguística e gêneros discursivos – que, sem dúvida, são mais urgentes do que classificar dígrafos, ditongos e afins.
A centralidade do texto nos itens de avaliação, a abordagem contextualizada dos recursos para a produção de sentido, a valorização da leitura sobre a “decoreba” são qualidades dessa prova. Feita a ressalva, voltemos à crítica.
Mas pode melhorar
O item que nos desperta incômodo na edição mais recente versa sobre um assunto de extrema relevância: a progressão temática (em síntese, o uso de recursos linguísticos que fazem o texto ter sequência, apresentando novas informações sobre seu tema). No caso ora analisado, a questão 17 (numeração do item na prova branca) exigia reconhecer o papel da locução “antes de” na progressão. Do texto a ser analisado pelos estudantes, podemos destacar esta passagem:
“Ela tinha olhinhos brilhantes. Os mesmos de antes. Antes da fome. Antes das 17 mudanças de cidade. Dos sete filhos e dos muitos anos de trabalho dentro e fora de casa” (grifos nossos).
Como se observa no excerto, narram-se diferentes momentos da personagem (que, ao final, saberemos ser a avó da narradora): a fase antes de ter passado fome, e o momento posterior a esse sofrimento; sua vida antes de se mudar 17 vezes de cidade, e a época após tais mudanças; um período antes de ser mãe e trabalhadora, e o tempo posterior a isso. Nesse exemplo, o “antes de” estabelece um passado anterior aos demais: em um passado prévio, os olhinhos eram brilhantes; em um momento posterior, mas ainda no passado, o brilho se manteve, mesmo com tudo o que aconteceu depois. O tempo narrado, como se vê, é pretérito.
O marcador de progressão produz um efeito linguístico relevante: estabelece uma relação de anterioridade dentro de um passado já situado no discurso – um “passado do passado”. Todavia a banca elaboradora, infelizmente, parece não ter notado isso.
O tempo linguístico não é o tempo físico
Quando se trata da categoria “tempo” em estudos linguísticos, não há correspondência direta com o tempo físico. Na língua portuguesa, para pensarmos em um exemplo nosso, temos o tempo chamado “futuro do pretérito” – que dificilmente seria visto como algo coerente se pensássemos esse nome na perspectiva da física: o que seria um “futuro do passado”? Na linguagem, porém, é essa a forma verbal que usamos para dizer algo assim: “Antes mesmo de a prova ser aplicada, já pensávamos que escreveríamos sobre o Enem”. Nessa frase, “escreveríamos” demarca um momento posterior, um futuro, mas não em relação ao momento em que escrevemos este texto: é um futuro em relação a “pensávamos”, evento que ocorreu no passado. Assim, “escreveríamos” expressa um “futuro do pretérito”.
A demarcação do tempo nos textos depende, portanto, de um ponto de referência. O presente, nesse sentido linguístico, é simplesmente o momento da enunciação, ou seja, o momento em que o enunciador produz seu enunciado. Por exemplo: o famoso “Dia do Fico”, que tem cristalizado em seu nome o presente do indicativo, aconteceu em 9 de janeiro de 1822. Para o enunciador, o então príncipe Dom Pedro, essa data era o presente, é a ela que se refere o momento da enunciação. O presente imortalizado em “Digam ao povo que fico” está bem distante do que, para nós, neste instante, é o presente como categoria do mundo físico.
“Antes de” como marcador linguístico da progressão
Em outra das passagens que os jovens estudantes tinham de analisar no Enem, lemos o seguinte:
“Ela tinha histórias. Compridas, curtas, divertidas e verdadeiras. Mas isso foi antes. Antes das lembranças se bagunçarem feito bolas coloridas de Natal esperando para serem montadas na árvore.”
Logo em seguida, o “antes de” ocorre neste outro trecho:
“Eu era sua neta. Antes do Alzheimer chegar, eu era sua neta.”
De fato, a repetição do termo no fragmento (são dez ocorrências) não é um acaso, mas sim um recurso. A narradora confronta insistentemente momentos da vida de sua avó, criando um jogo entre “antes de” e “depois de”, até culminar na transformação mais sensível: as lembranças da senhora começam a se perder, dado o avanço da doença de Alzheimer.
O que faz, desse modo, a locução “antes de”? Contrasta diferentes momentos do passado. Há um “antes”, quando a avó tinha lembranças bonitas, e um “depois”, quando elas se embaralham pela doença; há um “antes”, quando a avó reconhecia sua neta, e um “depois”, quando o Alzheimer chega. Assim, tal como pode haver um “futuro do passado”, também pode haver um “passado do passado”. É assim que o “antes de” contribui para a progressão, explicitando que certo acontecimento é anterior a outro – e, no caso, esses outros também estão no passado.
Etarismo incidental?
O frustrante gabarito afirma que o “antes de”, no resgate da história de vida da avó, “colabora para a progressão temática” porque “ressalta fatos que ressignificam o momento presente” (grifo nosso). Insistimos: em termos linguísticos, o presente é o momento da enunciação. No fragmento, há uma única referência ao presente (“Mas ela é e sempre será minha avó”), a qual não se relaciona com o marcador de progressão “antes de”.
O item, considerando seu gabarito, aparentemente tinha a intenção de avaliar a leitura global do fragmento. Buscava-se verificar quais estudantes seriam capazes de perceber que, para a neta, a avó não se limitava à doença, sobretudo porque a narradora conhecia, respeitava e valorizava a história de vida de sua ascendente. No entanto, além de a pergunta não deixar essa expectativa explícita, a forma como isso é afirmado no gabarito traz graves problemas.
Um deles é afirmar que os fatos relembrados “ressignificam o presente”: com isso, assume-se que o significado “original” do presente (sem a “ressignificação”) seria outro. Estaria então implícito que, no limite, sem esse esforço de memória da neta, sua avó seria apenas uma “velha desmemoriada”, nada mais? Seria esse o “verdadeiro significado” do presente, sem ser “ressignificado” por alguém que tivesse relação afetiva com a idosa?
Em uma edição na qual o tema de redação eram “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, a inferência requerida dos estudantes é, no mínimo, preocupante.
O que a gramática quer da gente é coragem
Outra questão incômoda é mais simples: a pergunta não era sobre o sentido global, mas sobre o papel do marcador “antes de” na progressão. Em cada uma das dez ocorrências, a expressão contrasta um passado anterior a outro momento passado (conforme mostramos acima), sem remeter ao momento da enunciação.
De onde vem o equívoco dos examinadores? É difícil precisar, mas, a nosso ver, pode ser resultado de uma visão simplificada sobre a relação entre recursos gramaticais e produção de sentido. Como dissemos, um dos importantes méritos do Enem é colocar o ensino-aprendizagem de língua portuguesa no lugar adequado, valorizando sobremaneira a competência leitora e, em alguns itens, relacionando o conhecimento gramatical à sua importância no mundo real: domínio da variedade culta e produção dos significados.
Ainda assim, por vezes parece se manifestar um resquício dos primeiros tempos em que a comunidade acadêmica brasileira rediscutia o papel dos estudos gramaticais na escola: à época, embora se tenham produzido obras que já arriscamos chamar de “clássicas” – caso de Preconceito linguístico, de Marcos Bagno, ou Por que (não) ensinar gramática na escola, de Sírio Possenti –, leitores apressados entendiam que o conhecimento gramatical poderia ser banalizado (coisa que os autores de referência jamais defenderam).
Ao fim e ao cabo, nossa frustração vem do fato de que, mesmo sem recorrer à metalinguagem especializada (dêixis, mais-que-perfeito e afins), a banca examinadora poderia ter elaborado um belo item sobre a construção da temporalidade no texto narrativo. Em vez disso, talvez pelo receio de soar “gramatical demais”, o item banaliza o conceito de “presente” e acaba incorrendo em um equívoco conceitual.
O tema da temporalidade (essencial para compreender textos de gêneros como o conto, a crônica ou o romance), tal qual tantos outros em linguagem, passa sim por conhecer recursos linguísticos, como tempos verbais e marcadores de progressão. Por que não assumir que, da forma adequada (privilegiando a língua em uso, os textos reais, a contextualização), nossas juventudes podem sim aprender um pouco mais sobre o funcionamento da língua, em vez de adotar um ensino envergonhado da gramática?
________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)



