O professor Alberto do Amaral define a disputa atual entre EUA, Rússia e China pela supremacia nuclear como a nova Guerra Fria

Um teste nuclear realizado por Vladimir Putin, presidente da Rússia, com o supertorpedo nuclear submarino Poseidon, capaz de gerar ondas radioativas no oceano para tornar cidades costeiras inabitáveis, gerou reação dos EUA. A situação é delicada e compõe o cenário mundial chamado pelo professor Alberto do Amaral, de Direito Internacional da Faculdade de Direito da USP, de “a nova Guerra Fria”. A divulgação de testes e o aumento dos arsenais nucleares alimentam em níveis crescentes a rivalidade entre EUA, Rússia e China, não bastasse a Coreia do Norte continuar realizando testes.
Panorama histórico da corrida
Até a primeira metade do século 20, segundo Amaral, os conflitos, nomeados de guerras clássicas, apresentavam uma divisão definida entre as áreas civis e as áreas militares, o que promovia uma proteção das populações civis através dos primeiros acordos humanitários. “Já a guerra total, que envolve a participação de toda a sociedade no combate às hostilidades, ocorre apenas durante a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Mas a constatação que se pode fazer é que, com a detonação das bombas nucleares em Hiroshima e Nagasaki, o contexto da guerra muda profundamente”, afirma o professor.
A mudança inesperada no respeito aos limites da sociedade civil no ataque à cidade de Hiroshima levou ao incentivo de desenvolvimento de programas nucleares ao redor do mundo, assim como aconteceu na União das Repúblicas Socialistas Soviética (URSS). Amaral cita um pesquisador civil, Bernard Prot, que defende que o ataque mudaria o mundo, porque, caso as potências entrassem novamente em conflito, isso destruiria o planeta.

“No período subsequente, depois que a primeira bomba nuclear foi detonada, e a resposta soviética em 1949, após esse período há uma desconfiança subsequente entre os Estados Unidos e União Soviética, que leva à acumulação de arsenais progressivos entre as duas potências, leva também ao desenvolvimento de armas nucleares por parte da França, do Reino Unido e da própria China. Essa foi, portanto, uma era de desconfiança, uma era de muitos gastos que chegou, inclusive, ao fato de que os países (EUA e URSS) tinham cerca de 70 mil artefatos nucleares para poder detonar”, diz.
Por outro lado, ao final da Guerra Fria, o cenário internacional muda com a chegada de Mikhail Gorbatchov e a aplicação dos programas Glasnost e Perestroika. “Em 1987 é celebrado o Acordo sobre Mísseis Intermediários. Com o surgimento de mísseis intermédios, que poderiam atingir a União Soviética, Moscou e as principais capitais europeias em cinco ou dez minutos, as nações decidem proibir o uso desses armamentos. Assim, começou a ocorrer uma construção da confiança entre Estados Unidos e União Soviética.” Já nos anos 1980, formou-se uma confiança mais sólida com a desintegração da URSS e a presidência de Boris Yeltsin, que “levou à possibilidade de uma diminuição dos arsenais nucleares”.
Desequilíbrio e a China como nova rival
Amaral prossegue: “Hoje não há mais uma disputa entre apenas dois parceiros. Há uma disputa entre três países: os Estados Unidos, a China e a Rússia. Esses três países têm pretensões diferentes. A questão nuclear para a Rússia, e a China tem uma perspectiva de ataque e pressão, enquanto os Estados Unidos têm tido, até agora, uma tentativa de dissuasão”, afirma.
Na visão do professor, a China trata a supremacia nuclear como fundamental para a política internacional, mas especialmente para a questão de Taiwan. “É um tema fundamental, é uma questão referente à integridade territorial do país. Os chineses foram privados do seu orgulho nacional durante a Guerra do Ópio, no século 19, isto motivou uma grande reação por parte dos chineses depois da Revolução Comunista”, comenta.
A decisão de Trump de deixar a Europa se defender sozinha das ameaças russas fez os países do continente aumentarem seus gastos com defesa, com cerca de 800 bilhões de euros destinados ao setor. “Os países como a França, por exemplo, tendem a estender para os seus aliados — a Polônia, por exemplo — a possibilidade de desenvolvimento de armas nucleares. Existe na Europa a convicção de que Putin não irá parar com a invasão da Ucrânia”, menciona Amaral. “O risco de uma situação de falta de controle é muito grande e isso nos leva a uma cautela generalizada e à necessidade de pensar em novas regras para o controle de armas no plano internacional”, finaliza.
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