quinta-feira, março 19, 2026
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Moraes segue postura de Toffoli e deixa lacunas no caso Master


As revelações envolvendo o Banco Master colocaram os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e Dias Toffoli no centro de questionamentos que, até o momento, seguem sem esclarecimento completo. No caso de Moraes, a principal linha de defesa — de que mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro não eram destinadas a ele — não foi acompanhada de esclarecimentos adicionais.

Pontos como o contexto das mensagens, esclarecimentos sobre encontros que teriam ocorrido entre Moraes e Vorcaro ou supostas relações pessoais não foram mencionados pelo ministro. Além disso, o magistrado não mencionou o contrato do escritório de advocacia da esposa, Viviane Barci de Moraes, com o Banco Master.

Toffoli, por sua vez, apresentou justificativas pontuais durante o processo, mas deixou sem resposta aspectos centrais das suspeitas. 

Embora os ministros tenham se manifestado em momentos distintos, pontos relevantes permanecem sem resposta pública detalhada — especialmente após a divulgação de mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro. 

A Gazeta do Povo buscou contato com os gabinetes dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes para questionar os pontos ainda sem esclarecimento e colocar o espaço à disposição para manifestação. Até o fechamento da matéria, no entanto, não houve retorno.

Até o momento, não há acusações formais contra os ministros no âmbito do caso do Banco Master. Ainda assim, as lacunas nas explicações seguem alimentando questionamentos sobre transparência e possíveis conflitos de interesse dentro da mais alta Corte do país.

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Contrato do Master com a mulher de Moraes

O escritório de advocacia da mulher de Moraes, Viviane Barci, tinha um contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master, de acordo com reportagens do jornal O Globo. O contrato foi revelado em dezembro de 2025, mas a empresa só se manifestou sobre o caso recentemente, negando a condução da causa do Master no STF, mas demonstrando outros serviços jurídicos que prestava ao banco. Moraes, por sua vez, não fez qualquer menção ao caso até o momento.

Esse contrato levantou suspeitas de parlamentares em relação ao fato de Moraes ter se reunido com autoridades do Banco Central do Brasil durante a crise do Banco Master.

Em dezembro, o gabinete de Moraes e o Banco Central confirmaram, por meio de notas, a realização de reuniões entre o presidente da instituição, Gabriel Galípolo, e o ministro. No entanto, ambas as manifestações apontaram apenas que o tema tratado seria a aplicação da Lei Magnitsky contra o magistrado. As notas, no entanto, limitaram-se a confirmar o encontro sem detalhar quando aconteceram as conversas ou quantos foram esses encontros.

Sem os esclarecimentos adicionais, a suspeita de deputados e senadores da oposição é de que as reuniões tenham tratado também da situação do Banco Master em meio a discussões sobre a possibilidade de liquidação da instituição. Ou seja, que o ministro possa ter prestado algum tipo de apoio político a Vorcaro ao mesmo tempo em que o banqueiro remunerava a mulher dele por meio de contratos jurídicos.

Moraes negou ter recebido mensagens de Vorcaro, mas não ofereceu provas

Com a quebra do sigilo de Vorcaro, no âmbito da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, mensagens mencionando encontros com “Alexandre Moraes” e outras que teriam sido trocadas diretamente com o ministro acabaram se somando às suspeitas iniciais contra o magistrado.

O ponto mais crítico até o momento é a investigação sobre um contato de Vorcaro com Moraes no dia em que o banqueiro foi preso pela primeira vez, em 17 de novembro de 2025. Moraes nega esse contato, mas mensagens supostamente endereçadas ao ministro foram encontradas pela polícia no celular do banqueiro.

A polícia apurou que os dois escreviam mensagens em seus celulares usando o aplicativo bloco de notas. Depois tiravam fotos dos textos e mandavam pelo WhatsApp em mensagens de visualização única. Tudo para não deixar provas das conversas. Em uma das mensagens, Vorcaro questiona: “conseguiu bloquear?” – em possível referência à sua detenção.

Antes disso, Vorcaro fez relatos que aparentam ser sobre a tentativa de venda de seu banco. “Estou tentando antecipar os investidores aqui, e tenho chances de conseguir assinar e anunciar ainda hoje uma parte. E ai eu irei pra la pra tentar assinatura dos demais investidores estrangeiros”, escreveu Vorcaro. Moraes sinalizou a mensagem com um emoji de “joinha”. As respostas de Moraes não foram recuperadas até o momento.

O ministro se pronunciou negando que tenha recebido as mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro. Em nota, o gabinete do ministro informou que as capturas de tela com mensagens “estão associados a pastas de outros contatos da agenda” de Vorcaro e não aparecem como enviados diretamente a Moraes. Na nota, o ministro não apontou quem seriam os destinatários das mensagens de Vorcaro, alegando que os nomes estariam sob sigilo decretado pelo ministro André Mendonça.

Na avaliação do advogado, fundador e presidente da associação de juristas Lexum, Leonardo Corrêa, as notas à imprensa em que Moraes nega ter sido o destinatário das mensagens de Vorcaro não bastam como explicação.

“Em termos republicanos, não basta negar. É preciso esclarecer o suficiente para afastar dúvidas razoáveis. Quanto mais elevada a função, maior o dever de explicação. A legitimidade de uma Corte depende disso”, afirma.

Diante das dúvidas que pairam sobre o recebimento ou não das mensagens, o advogado André Marsiglia vai além e aponta que Moraes deveria disponibilizar o seu celular para os investigadores. “Se ele realmente não tem nada com isso, [deveria entregar o celular] para mostrar que ele está limpo nisso”, sugere.

Moraes não explica como teve acesso a dados sob sigilo

Em artigo publicado pela Gazeta do Povo, o advogado Leonardo Corrêa destaca ainda outras lacunas relacionadas ao ministro Alexandre de Moraes. “A nota do tribunal não explica quem realizou a análise que embasou o desmentido, não esclarece como o ministro teve acesso a dados sob sigilo e, mais relevante, não nega que tenha conversado com Vorcaro – nega apenas que as mensagens específicas teriam sido ‘direcionadas a ele’”, aponta Corrêa.

Para o advogado Vitor Barretta, professor de Direito Administrativo no Grupo Unipública, há uma limitação estrutural nas respostas apresentadas até agora, especialmente no que diz respeito à análise das mensagens.

“A principal lacuna reside na ausência de esclarecimento sobre a dinâmica concreta das comunicações. O uso de mensagens de difícil rastreabilidade — como conteúdos de visualização única e registros concentrados em apenas um dos aparelhos — impede a reconstituição segura dos fatos”, afirma.

Segundo ele, embora a negativa apresentada por Alexandre de Moraes seja juridicamente válida, ela não enfrenta o ponto central da controvérsia.

“Ela não resolve a necessidade de apuração técnica sobre se houve interlocução e por quais canais ela teria ocorrido, especialmente diante da menção a possível uso de meio funcional”, diz.

Barretta acrescenta que os elementos já revelados deslocam o debate para outro patamar jurídico. “Há, ao menos em tese, indícios de tentativas de interlocução em momento sensível, inclusive com referências a decisões que poderiam afetar o próprio Vorcaro. Isso não comprova irregularidade, mas exige verificação mais aprofundada”, afirma.

Na avaliação do advogado, esse cenário abre espaço para diferentes enquadramentos jurídicos, caso irregularidades venham a ser confirmadas. “A análise pode envolver desde crime comum — como eventual tráfico de influência ou acesso indevido a informações — até, em tese, crime de responsabilidade, se houver uso indevido da função ou conduta incompatível com o cargo”, conclui.

Suposta relação pessoal, marcada por encontros com Moraes, não foi esclarecida

Além da troca de mensagens que teria ocorrido diretamente com Moraes, ficaram sem esclarecimento mensagens em que o nome de Moraes é mencionado por Vorcaro em conversas com sua então noiva, Martha Graeff. O ministro não se manifestou especificamente sobre os alegados encontros com o banqueiro.

Em pelo menos duas conversas ocorridas em abril de 2025, Vorcaro conversa com a ex-noiva e menciona encontros com “Alexandre Moraes”. Em uma delas, o banqueiro diz que estaria indo encontrar com ele “perto de casa”. Martha pergunta se ele está em Campos e Vorcaro responde que “ele está passando feriado”.

Em outra conversa, o banqueiro faz uma chamada de vídeo com Martha. Após encerrar, a ex-noiva pergunta “quem era o primeiro cara” e Vorcaro responde: “Alexandre Moraes”.

Esses encontros teriam ocorrido em 2025. Além deles, as conversas revelaram também um evento jurídico ocorrido em Londres em 2024. De acordo com informação divulgada pelo Poder 360 e confirmada pela Gazeta do Povo, o ex-controlador do Banco Master teria reunido Moraes e outras autoridades brasileiras após o evento para uma degustação exclusiva do seleto uísque escocês Macallan, que custou R$ 3 milhões ao todo a Vorcaro. Moraes não se pronunciou sobre as revelações.

Para o advogado Vitor Barretta, a presença de autoridades de alto escalão em eventos custeados por agentes privados — ainda que sem comprovação de ilegalidade — levanta um debate relevante no plano institucional.

“A participação da alta cúpula de órgãos, como STF, PGR e Polícia Federal, em eventos desse tipo suscita uma crítica importante. Mesmo na ausência de irregularidade comprovada, essas situações podem colocar em xeque a percepção de imparcialidade, especialmente quando envolvem pessoas que posteriormente se tornam objeto de investigação”, afirma.

Toffoli também não explicou todas as menções que o envolvem no caso Master 

Já Dias Toffoli apresentou explicações parciais, mas deixou lacunas. O nome do ministro apareceu em mensagens que sugerem possíveis tratativas financeiras, sem que ele tenha detalhado publicamente a natureza dessas referências.

As investigações revelaram que o resort de luxo Tayaya, localizado em Ribeirão Claro (PR), pertenceu a familiares de Toffoli e depois foi vendido ao Fundo Arllen, pertencente ao cunhado de Vorcaro, o pastor e empresário Fabiano Zettel. Outra parte do resort foi vendida a um advogado que atua para a JBS.

Depois que as informações vieram a público, Toffoli revelou que é sócio da empresa Maridt, que vendeu o resort. Ele divulgou nota afirmando que o magistrado pode integrar o quadro societário de empresas e receber dividendos, “sendo-lhe apenas vedado praticar atos de gestão na qualidade de administrador.”

Toffoli afirmou que jamais recebeu qualquer valor de Vorcaro ou de Zettel e disse que não tinha relação de amizade com o banqueiro. Mas também não esclareceu quanto recebeu na negociação.

Ele disse que tudo foi declarado à Receita Federal e que todas as vendas foram realizadas dentro de valor de mercado. Também afirmou que a negociação aconteceu antes de ele assumir a relatoria do caso Master, em 28 de novembro de 2025.

Porém, Toffoli não explicou o motivo de ter tomado decisões não usuais quando estava na relatoria do caso. As que mais causaram polêmica foram medidas que restringiram temporariamente o acesso da Polícia Federal a dados extraídos do celular de Vorcaro e a nomeação de peritos específicos para examinar o material.

Outro ponto sensível envolve a viagem de Toffoli ao Peru em novembro de 2025. Ele viajou para Lima, capital do país, na companhia do advogado de um dos presos por envolvimento no caso do Banco Master. O deslocamento foi feito em um jato particular de um empresário. O motivo foi a final da Libertadores entre Flamengo e Palmeiras.

O ministro afirmou tratar-se de deslocamento privado, motivado por convite de um amigo, mas não deu maiores explicações sobre a presença do advogado.

Falta de esclarecimentos amplia pressão 

Tanto no caso de Moraes quanto no de Toffoli, o padrão observado é de respostas iniciais limitadas, sem complementação posterior diante de novas informações. 

Esse cenário mantém o caso sob pressão política e institucional, com questionamentos sobre transparência e sobre a necessidade de esclarecimentos mais detalhados por parte dos ministros. 

Para o advogado Vitor Barretta, a presença de elementos como menções a encontros, uso de estratégias atípicas de comunicação e coincidência temporal com atos relevantes reforça que as respostas apresentadas até o momento são incompletas.

“Ainda que não haja prova concreta de ilícito, a ausência de esclarecimento mais aprofundado mantém aberta uma zona de dúvida juridicamente relevante, que justificaria investigação mais detalhada quanto à eventual configuração de responsabilidade”, observou Barretta.

Segundo ele, o ponto central não é necessariamente jurídico, mas de credibilidade institucional. “Não se trata de afirmar irregularidade nem de exigir explicações sob um dever legal estrito. Mas, no plano republicano, a preservação da confiança pública recomenda maior transparência sobre o contexto, os limites e a natureza dessas interações”, diz.

Na avaliação do advogado, esclarecimentos adicionais funcionariam como medida de cautela. “Mais do que uma obrigação jurídica, trata-se de uma providência prudencial para resguardar a credibilidade das instituições e evitar que episódios desse tipo alimentem dúvidas sobre a independência e a integridade das funções exercidas”, conclui.



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