Uma nova apuração com base em dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelou que o Banco Master e a JBS transferiram R$ 18 milhões a uma empresa de consultoria que, posteriormente, realizou pagamentos ao escritório de advocacia do filho do ministro Kássio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), Kevin de Carvalho Marques.
As movimentações, registradas entre agosto de 2024 e julho de 2025, foram classificadas como atípicas pelo órgão por apresentarem incompatibilidade com a capacidade financeira declarada da empresa envolvida.
De acordo com uma apuração publicada nesta sexta (20) pelo Estadão, foram R$ 6,6 milhões do Banco Master e R$ 11,3 milhões da JBS, controlada pelos irmãos Joesley e Wesley Batista. O total corresponde a praticamente toda a movimentação recebida pela Consult Inteligência Tributária no período, apesar de ela ter declarado faturamento de apenas R$ 25,5 mil.
A Gazeta do Povo procurou o Banco Master, a JBS, a Consult Inteligência Tributária, o escritório de Kevin de Carvalho Marques e o gabinete de Nunes Marques para se pronunciarem sobre a apuração e aguarda retorno. Ao Estadão, os citados negaram irregularidades nas transações (veja mais abaixo).
Segundo a apuração, as transações chamaram a atenção do Coaf por serem “incompatíveis com a capacidade financeira” da empresa e que “alguns dos valores podem ter origem não formal”. Na prática, o relatório indica que o volume repentino de recursos pode sugerir o uso da empresa como intermediária para circulação de dinheiro.
Além das entradas, o órgão analisou as saídas financeiras da consultoria e identificou, por amostragem, 11 transferências que somam R$ 281,6 mil a Kevin de Carvalho Marques. Ao Estadão, ele afirmou que os valores recebidos são lícitos e decorrentes da atuação profissional, destacando que o trabalho prestado foi “voltada ao fisco administrativo”.
O escritório também ressaltou que ele “nunca defendeu nenhum caso” no STF e criticou o que classificou como “tentativas de criminalização da advocacia e de interferência no sigilo profissional”. “A atuação para a empresa mencionada foi voltada ao fisco administrativo”, completou.
A JBS, por sua vez, declarou que contrata consultorias para lidar com a complexidade tributária brasileira — “como toda grande empresa brasileira que lida com a complexidade do sistema tributário nacional” — e afirmou que a empresa citada presta esse tipo de serviço regularmente — “para apoiar sua atuação nessa área, entre eles a Consult Inteligência Tributária” –. Já o Banco Master e o gabinete do ministro não se pronunciaram sobre a apuração.
A Consult Inteligência Tributária informou que realizou serviços de auditoria, consultoria tributária e desenvolvimento de sistemas para as empresas contratantes. Sobre os pagamentos ao filho do ministro, limitou-se a dizer que se referem à “prestação de serviços técnicos e de assessoria jurídica para a Consult, entre 2024 e 2025”.
Criada em 2022 pelo empresário e contador Francisco Craveiro de Carvalho Junior, de Teresina, cidade natal do ministro, a consultoria afirma que faz parte de um grupo com atuação desde 2004 e atendimento a centenas de empresas. A empresa também declarou que passou por uma “reorganização societária” recente, após mudanças na composição de seus sócios.
No entanto, segundo consta na apuração, Craveiro negociou o recebimento de R$ 13 milhões da divisão de lucros, que serão repassados em três parcelas até 2028. Ele voltou a ser sócio da consultoria no último dia 6 de março.




