No artigo “A construção do Eu nas narrativas de vida”, com participação de Karen Worcman, André faz referência à obra do sociólogo Norbert Elias intitulada “A Sociedade de Corte”. O livro, em síntese, defende que a formação do Eu acontece em conjunto com a formação da sociedade. Para explicar isso, o autor descreve a construção da sociedade de corte, do Absolutismo Monárquico de cerca de cinco séculos atrás. A organização social desse grupo pode ser caracterizada por um aspecto que não parece ser tão obsoleto: na época, as pessoas estavam o tempo todo observando e controlando a si mesmas e às outras.
Essa organização não foge muito da realidade contemporânea. Com a expansão das redes sociais, lidamos com um espaço de entrelaçamento de uma sociedade que se “segue”, como registra a própria nomenclatura comum dos aplicativos. Em contato diário com a maioria dos usuários que optamos por acompanhar, observamos constantemente o nosso próprio perfil e os dos demais. Por vezes, isso se estende ao controle: além de haver regras de uso elencadas pelos serviços, se buscarmos entre os usuários, encontramos regras de “etiqueta” e de visibilidade.
Sobre o Eu nas redes sociais, André afirma: “É como fazer parte da sociedade de corte”. Segundo ele, no antigo grupo, os olhares representavam uma forma de as pessoas se reconhecerem como idênticas e pertencentes a uma certa camada social – de modo que uma funcionava como reguladora da outra, possibilitando, como um espelho, identificação. Isso se relaciona com as redes, na medida em que a vida virtual também traz a necessidade de buscar o olhar do outro para garantir certo reconhecimento. “É vida de corte, em que as pessoas se confirmam e se reconhecem. Se uma delas não gosta de algo, por exemplo, tem toda uma classe que vai fazer com que a pessoa seja excluída, afastada, pois há uma regulação”, descreve André.
Esse tipo de identificação é percebido por André como uma forma de gerar um fechamento em um certo grupo social. Há uma diferenciação entre os que fazem parte e os que não fazem. “Quem consegue construir para si certos comportamentos que fazem parte de um grupo, acaba se diferenciando daqueles que não conseguiram se submeter a essas regras do olhar, essas exigências sociais. Tudo isso é para poder encontrar um certo lugar de diferença, de destaque, de privilégio”, explica. Nas redes sociais, aqueles que reconhecem e acompanham as regras de “etiqueta” e visibilidade, conseguem construir comportamentos que agradam as exigências sociais e, assim, encontram um lugar de diferença – recebendo um retorno que não é toda a sociedade que recebe, simbolizado por um maior número de seguidores, comentários e curtidas.
Para compreender melhor a relação entre a sociedade das redes e a sociedade de corte, podemos relacioná-las a uma expressão contemporânea: bolha social. O termo sugere divisões, que ocorrem através da formação de grupos que se distanciam uns dos outros por enrijecerem determinados posicionamentos. Segundo matéria publicada na Folha de S. Paulo, um estudo conduzido pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) mostra que as redes sociais reforçam a propensão humana a buscar informações que se alinhem a ideias preconcebidas. Isso significa, portanto, o distanciamento de ideias diferentes.
Assim, as bolhas representam segregações de pessoas e de ideais. A fim de aprofundar a questão, André explica: “As pessoas se unem em um traço único e comum e, assim, se forma uma massa. Ou, na etimologia atual, uma bolha. A ideia é que todos são uniformes, indiferenciados, constituídos pelo mesmo traço e se identificam com o mesmo ideal. A massa representa quase que como um único indivíduo, porque essas pessoas acabam reproduzindo certos comportamentos. E qualquer diferença que tente se introduzir é eliminada”. Um exemplo do caso nas redes é que, muitas vezes, para não lidar com opiniões divergentes, a alternativa frequente é a opção de bloquear os usuários que as trazem para o espaço virtual.
Contudo, a ‘diferença’ que André menciona é eliminada não só no sentido de, muitas vezes, não haver aceitação de perspectivas diferentes, mas também ao tentarmos suprimir aspectos que fogem do tal “padrão” em nós mesmos. Isso porque estar preso em uma bolha significa internalizar e reproduzir que se deve ser igual às pessoas que fazem parte dela. Nas palavras de André, “o indivíduo se fecha em uma bolha e a reproduz mesmo sem saber. Isso ocorre muito facilmente, e vemos, inclusive, em discursos hegemônicos, que dizem de algo ‘estrutural’, em que as pessoas não se dão conta de que estão participando. Está na estrutura da formação da sociedade e do sujeito, que é constituído por isso, mesmo sem saber. ‘Você tem que gostar disso’, ‘Você tem que ser assim’. Os grupos se constroem nessa lógica de identificações e diferenciações”.
Logo, para o pesquisador, é como se as redes sociais explicitassem uma repetição dessa vida longínqua, de cerca de 500 anos atrás, em que carregamos secularmente a necessidade do olhar do outro para poder nos reconhecermos como alguém, para poder dizer “eu sou” ou “eu faço parte”. O que nos atrai, é a sensação de pertencimento, que faz com que, por vezes, nos adaptemos às exigências sociais desses meios. André acrescenta: “Esse sentimento nos satisfaz narcisicamente, em que se pode pensar ‘como eu pertenço a essa classe, eu sou privilegiado de estar ali, eu tenho capacidade, qualidade e virtude para fazer parte de um determinado grupo’. É como pertencer à sociedade de corte”.



