domingo, março 15, 2026
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Entre lacunas e ausências, coletivos buscam afeto, memória e justiça em arquivo da USP – Jornal da USP


O trabalho do coletivo tem o intuito de mostrar a “vista do ponto” sobre o sistema prisional, chamando atenção às frequentes violações de direitos humanos e à necessidade de interromper o ciclo de violência que atinge, sobretudo, a população negra. “A vista do ponto a gente traz de quem está do outro lado. Geralmente quem traz o ponto de vista é a sociedade, é a mídia, é quem está olhando, né? Então, a vista do ponto é a gente trazer quem sofre essa violência, quem está do outro lado do mundo”, explica Maurício, ele próprio um sobrevivente do Massacre do Carandiru. “As vozes de grupos marginalizados”, completa Helen, que é também mestranda em Ciências Humanas e Sociais na Universidade Federal do ABC.

Com a imersão no arquivo do IEB, o objetivo do coletivo era procurar por fontes documentais sobre o Massacre do Carandiru. No acervo do instituto, encontraram apenas uma nota curta, na qual o professor Antonio Candido defendia a abertura de uma CPI na Assembleia Legislativa para investigar o massacre.

Além do ativismo e do trabalho educativo, Helen, Maurício e Walter compartilham entre si também o fato de os três serem sobreviventes do cárcere. Helen destaca que, na prisão, se passa muita fome. Seja porque a comida não chega ou porque a que chega, chega estragada. Walter reforça: na cadeia, comida é um luxo.

Maurício, que foi preso pela primeira vez em 1990, lembra que sua mãe levava comida quatro vezes por semana para ele dividir igualmente com seus 14 companheiros de cela. “Eu falava para a minha mãe: ‘Mãe, só trazer o arroz e o feijão, já era, não precisa de carne’. Porque seria o suficiente para pelo menos a gente sentir o gosto. Mas eu estou falando de uma época que entrava a comida, né? Hoje não entra assim, por conta do endurecimento das normas do Estado contra os presídios. Mas naquela época entrava”, conta o educador, que mantém um canal no YouTube chamado Prisioneiro 84.901.

Helen se emociona ao lembrar de um fufu preparado por uma companheira de cela. “A gente estava um dia e meio sem comer, então aquele fufu parece que aqueceu a nossa alma. E o fufu foi feito na perereca, né, que é no banho-maria, então demorou. A gente ficava olhando com o olhinho brilhando, esperando aquilo ficar pronto e mexia, e mexia, né? E ela dançava, ela dançava fazendo aquele fufu”, conta a integrante do Memórias Carandiru.



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