O professor comenta que várias obras importantes da arquitetura moderna foram produzidas pelo Page, mas o vínculo com o plano acabou esquecido. Um bom exemplo disso está na própria Cidade Universitária da USP, em São Paulo. Até 1959, havia poucos prédios no campus e um dos objetivos do Page foi justamente adensar a Cidade Universitária. Fizeram parte do plano os projetos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU), do prédio de História e Geografia da atual Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Reitoria e de alguns edifícios da Escola Politécnica (EP).
Para Buzzar, algumas hipóteses explicam essa lacuna historiográfica. Em primeiro lugar, existe um reforço das narrativas da arquitetura brasileira a partir da escola carioca, que diminui a importância paulista para o desenvolvimento da arquitetura moderna. Mas, além disso, fatores políticos podem entrar na equação.
Até 1963, a gestão Carvalho Pinto assumia um caráter progressista, fruto da identificação do Partido Democrata Cristão (PDC), ao qual era filiado, à doutrina “economia e humanismo”, do padre francês Louis-Joseph Lebret. Em linhas gerais, suas ideias propunham uma “terceira via” às políticas capitalistas e socialistas, aparentadas ao estado de bem-estar social. O PDC era influenciado pelas ideias do padre, buscando associar políticas públicas de infraestrutura e políticas públicas sociais.
Esse caminho, contudo, não prosperou em São Paulo. Nas eleições de 1963 foi eleito para o governo Ademar de Barros, que interrompe o Page. E, em seguida, com o golpe militar de 1964, o próprio Carvalho Pinto adotaria um papel mais conservador que, segundo Buzzar, pode ter influenciado negativamente na repercussão e legado de seu governo. “Uma combinação da historiografia arquitetônica com uma trajetória política acabou manchando essa produção e colocando-a aquém mesmo de um segundo plano”, analisa o professor.
O pequeno recorte que consta na exposição no Centro MariAntonia apresenta dez dessas realizações, por meio de maquetes e diagramas. Entre elas estão lá a FAU (Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi, 1961), o Fórum de Araras (Fábio Penteado, 1960), o Fórum de Avaré (Paulo Mendes da Rocha e João Eduardo de Gennaro, 1962), o Fórum de Amparo (Oswaldo Bratke, 1960), a Escola Estadual de Itanhaém (Artigas e Cascaldi, 1959), a Escola Estadual Conselheiro Crispiniano, em Guarulhos (Artigas e Cascaldi, 1960), a Escola Estadual Monsenhor Bicudo, em Marília (Salvador Candia, 1962), a Escola Estadual João Franco de Godoy, em Presidente Prudente (João Clodomiro de Abreu, 1962), e a Casa da Lavoura de Birigui (Eduardo de Mendonça, 1960).
A exposição Page: a Difusão da Arquitetura Moderna no Brasil fica em cartaz até 24 de agosto, de terça-feira a domingo, das 10 às 18 horas, no Centro MariAntonia da USP (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, próximo às estações Santa Cecília e Higienópolis-Mackenzie do metrô). Entrada grátis. Mais informações estão disponíveis no site do Centro MariAntonia



