domingo, março 15, 2026
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as estruturas que moldam e limitam os afetos – Jornal da USP


Pesquisadores comentam sobre a não monogamia consensual como desafiadora dos pilares de exclusividade romântica e mostram as raízes históricas da monogamia compulsória

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As relações não monogâmicas geralmente têm acordos claros com consenso de todos os parceiros envolvidos – Foto: freepik
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Em uma sociedade em que até mesmo como se ama é padronizado, o que resta a quem foge do ideal? Hoje se torna cada vez mais comum encontrar pessoas que escolhem viver sem uma das mais tradicionais normas que regem os relacionamentos românticos: a monogamia. Mas quando toda a sociedade é constituída econômica, jurídica, política e moralmente para os formatos da exclusividade, se torna necessário pensar como toda essa estrutura poda a liberdade do indivíduo que escolhe não seguir este caminho. Quem explica é Rhuann Fernandes, autor do livro Negritude e Não Monogamia: As Micropolíticas do Amor e membro do Impar -Laboratório de Estudos Críticos da Família, ligado a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

As estruturas da monogamia

“Os relacionamentos românticos que se desviam do roteiro social padrão tão socialmente estigmatizados e seus participantes passam a ser vistos como outros, problemáticos nas discussões em geral.” Fernandes começa explicando um conceito desenvolvido pela filósofa estadunidense Elizabeth Brake, a amatonormatividade: a suposição de que relacionamentos românticos monogâmicos e, geralmente, heterossexuais, que levam ao casamento ou à finalidade do casamento, seriam uma forma ideal de relacionamentos, tornando-se um objetivo universal a ser atingido. Tomar outro caminho significa ser estigmatizado.

A suposição em questão se torna tão profunda que outras possibilidades passam a parecer impossíveis: “Quando eu falo de monogamia enquanto privilégio social, o que eu estou querendo dizer é que ela é tão naturalizada entre nós que ela é invisibilizada”. E toda essa construção se sustenta sobre alguns pilares apontados por Fernandes: a centralidade do amor romântico, que é colocado como a principal forma de relação interpessoal significativa marginalizando outras formas de vínculos afetivos; a norma diádica, exclusividade entre duas pessoas; expectativa de durabilidade, a relação deve durar, idealmente, para toda a vida, descredibilizando relacionamentos intensos, porém de curta duração; e as leis de casamento – a amatonormatividade funciona compulsoriamente através do casamento monogâmico, que é o único reconhecido por lei – o que para o pesquisador vai de encontro com as liberdades individuais e com a pluralidade das entidades familiares.

Jaroslava Valentova, professora do Departamento de Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia (IP) da USP – Foto: Reprodução/Currículo Lattes

Não monogamia consensual

Contudo, há quem busque quebrar essa estrutura. A professora Jaroslava Valentova, do Instituto de Psicologia da USP, aponta que existem várias dinâmicas que podem ser chamadas de não monogamia, mesmo aquilo que se conhece como traição. Mas o foco de sua pesquisa é a não monogamia consensual: “É especificamente uma forma de relacionamentos que permite, com consenso de todos os parceiros envolvidos, relações sexuais ou românticas fora do par primário, se houver algum par primário; ou relações sexuais ou românticas múltiplas, ao mesmo tempo”.
Essa forma relacional se distancia da ideia de traição — entendida como uma não monogamia não consensual — e propõe uma outra ética: baseada na transparência, na escuta e no consentimento. “Hoje em dia a gente fala sobre essa não monogamia consensual exatamente como uma forma ética de não monogamia, não? Em contraponto à traição e relações sexuais por trás das costas do parceiro… o que acontece exatamente quando a monogamia é muito forçada”, explica a professora.

Não se trata de uma “liberação geral”, mas de acordos bem definidos. Como aponta Jaroslava, esses acordos geralmente são claros nas relações não monogâmicas: “Essas pessoas geralmente têm regras bem claras. Verbalizadas, explícitas. Por exemplo, tudo bem, podemos ter relações sexuais, mas não emocionais… Então, se alguém vai perguntar se não existe infidelidade dentro de relacionamentos não monogâmicos, existe, claro que existe. Se eu ultrapassar, por exemplo, essa regra que a gente combinou”.

Fernandes complementa essa perspectiva ao explicar que a não monogamia valoriza fortemente a autonomia e a honestidade entre os envolvidos: “Parte dos não monogâmicos acreditam que o formato de relação, apesar de não poder ser definido previamente, opera com os valores de liberdade e sinceridade, que são evocados constantemente para fortalecer a crença de que não deve haver cerceamento dos sentimentos nem dos parceiros”. Nesse sentido, ele explica que a exclusividade deixa de ser o valor que norteia a relação, uma vez que não é tomada como pressuposto, mas como uma opção.

As origens da monogamia

Na base desta crítica está o fato de que a monogamia moderna está diretamente ligada à história europeia da constituição do capitalismo e patriarcado. Fernandes explica que a imposição desta forma de constituição familiar surgiu como maneira de garantir a transmissão da propriedade privada muito antes de ser pensada como forma de amor: “Há uma revolução agrícola e pecuária há cerca de 10 mil anos e as famílias passam a se estabelecer em uma terra fixa, chamada de propriedade privada. Com a propriedade das terras estabelecidas, surge a necessidade de se passar a herança da posse para os legítimos herdeiros, os filhos donos da terra. Para garantir a proteção dessa linhagem paterna, desponta a exigência de monogamia compulsória para as mulheres, sendo a criança concebida no interior desse relacionamento considerada como filha do proprietário da terra”.

O pesquisador afirma também que o formato monogâmico de constituição familiar se consolida, então, no século 18, com o avanço da industrialização e a consolidação dos valores burgueses na nova organização social que se concretizava. “A modernidade se apropria de algo que já era opressivo em si mesmo, ou seja, a monogamia. Só que a modernidade burguesa atribui a essa monogamia um novo sentido, o amor romântico. É a primeira vez na história que nós vamos verificar a fusão entre um e outro.” Assim, a amatonormatividade se estrutura na história da sociedade europeia e é exportada como padrão internacional a partir do processo de colonização.

Avanços na aceitação da não monogamia

Jaroslava comenta que hoje é possível observar as sociedades um pouco mais abertas a relacionamentos não monogâmicos. Segundo a professora, esse avanço é maior especialmente em países com boas condições médicas e que oferecem boa prevenção a ISTs e possibilidades de controle de natalidade. Ela reforça que essas são diferentes formas de se viver, adotadas pelas pessoas independentemente de sua cultura: “Essas tendências existem em diferentes tipos de sociedades. A monogamia não é para todo mundo e a não monogamia também não é para todo mundo”.

A professora finaliza apontando que os ingredientes para um relacionamento de qualidade — seja monogâmico ou não — continuam sendo os mesmos: “Os mesmos fatores que influenciam na qualidade de relacionamentos monogâmicos, amor, comunicação aberta com parceiros, resolução de conflitos, divisão de tarefas domésticas, situação financeira, saúde… tudo isso parece funcionar da mesma forma nos relacionamentos não monogâmicos”.


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