domingo, março 15, 2026
HomeSaúde física e emocionalna rua ou diante da tela do celular? – Jornal da USP

na rua ou diante da tela do celular? – Jornal da USP


A ordem de importância das notícias nos principais periódicos brasileiros continua a enganar até o mais esperto dos seguidores. As manchetes se alinham pelos interesses e, assim, as demandas do governo dos Estados Unidos da América desbancaram até os jogos de futebol dos principais clubes, os espetáculos (e personagens) da mídia, além, é claro, das diversas barbaridades, curiosidades e novidades que variam da foto extravagante ao mais excêntrico carro elétrico. Os outros países ficaram pequeninos nessa escalada. Só a China se destacou como a anti-heroína do momento. Inclusive, o interesse sobre as guerras no Oriente Médio, na Europa e em outros países ganham relevância apenas quando os EUA entram diretamente no jogo. O mesmo acontece agora com a interferência direta na economia e na disputa política no Brasil.

A loucura ficou tão descarada que os homens mais ricos do planeta Terra resolveram investir na mídia e, com medo de perderem os consumidores privados, apoiaram-se naquele que é o seu maior investidor: o Estado.

A pergunta está respaldada em um sentimento quase universal: os novos Cidadãos Kane nos fazem de idiotas no campo da batalha nada utópica em prol das conquistas sociais. Uma hipótese que pode ser notada quando um político se alia a esses ricaços. Tenha certeza de que ele ganhará mais tempo e espaço nos jornais tradicionais e, além disso, receberá prêmios até de economista do ano.

Enquanto isso, os professores brasileiros sofrem bullying por resultados; os planos de saúde ludibriam seus pacientes; as ruas deixam de ser policiadas; os serviços essenciais são (mal) privatizados; os rios continuam poluídos; as faculdades fecham; aumentam as exportações e os preços internos de alimentos; a discussão trabalhista permanece em banho-maria; as pessoas em situação de rua continuam a ser maltratadas e perseguidas pelos políticos; e assim seguimos com as intolerâncias, opressões e piche (que é a melhor propaganda política explícita, de cima para baixo). Esporadicamente, essas pautas são publicadas como reportagens especiais e, depois, dormem em alguma gaveta, só acordando de tempos em tempos. É matéria fria, no jargão jornalístico.

Notícia quente é aquela que aparece diariamente, cumprindo a meta da periodicidade, como reforçam os professores de jornalismo quando ministram as primeiras aulas sobre linhas editoriais. Depois da teoria, vem a prática, com as matérias sendo organizadas em seções, ou melhor, nos nossos perrengues cotidianos: cultura, educação, economia, emprego, esportes, meio ambiente, política, saúde, segurança, turismo e demais áreas de interesse.

Nada disso existe mais: a cobertura jornalística virou uma bagunça, tanto que ninguém decifra o que realmente precisa saber quando acessa os portais noticiosos. Vale tudo para vender os espaços aos donos do poder.

Triste começo de um era em que os intelectuais surfam na onda da inteligência artificial. É tanta IA que isso até já cansou os calouros da universidade. Tenham certeza de que, por trás, também há só propaganda barata, com certificado científico de big techs e muitas ganâncias no seu dicionário que começa em “X”.

Aqui no Brasil, já não mais encontramos os repórteres nas ruas com uma estampa da profissão na camiseta. Agora, o sujeito acha que resolve a treta pelo digital. Há o repórter sentado (e de braço curto), que fica em frente ao computador, e o repórter remoto, que faz tudo pelo mobile.

As pessoas precisam de repórteres nas ruas e de debates? Ou será que o ensino do jornalismo se resumiu ao uso (in)consciente do celular?

O negócio das universidades agora é lotar a sala de aula e ter um bom Wi-Fi – para economizar energia. Também é desejável criar um design contemporâneo, cheio de computadores de última geração e cores nos ambientes. Mas, cuidado, porque os gastos com esses aparelhos e programas já quebraram muitas empresas do ramo. Os laboratórios viraram (apenas) vitrines, tanto que os estúdios de rádio e televisão se tornaram secundários no mundo dos celulares.

E é por causa desse discurso falido que os cursos de jornalismo, inclusive os oferecidos em instituições privadas, precisam continuar fortes, com a tecnologia sendo uma aliada e não um problema.

Observem que as cobranças diante do consumo de notícias aumentaram, e, agora, o perigo está em compartilhar uma informação sem checagem. Quem já não cometeu esse delito pelo menos uma vez na vida, nem que seja em tom de provocação, nas redes sociais. Só que essa atitude está fora do campo do jornalismo.

O processo da construção da notícia é uma preocupação latente entre os profissionais e os estudiosos da comunicação que, na prática, se reflete no cuidado minucioso dos professores e dos editores com os alunos e os focas, respectivamente. Sendo assim, analisar a pauta é uma obrigação logo no primeiro ano de faculdade ou no primeiro dia de trabalho nas redações (seja ele presencial ou virtual). Desde a escolha das fontes até o relato de uma matéria in loco, o processo passa pelos critérios de apuração.

Na Universidade de São Paulo, essa tarefa é realizada pelo professor Dennis de Oliveira que, já no início do primeiro ano letivo, trabalha com os calouros do curso de Jornalismo da USP na produção do jornal Notícias do Jardim São Remo e do portal Central Periférica, que têm como público-alvo a comunidade São Remo, localizada perto da Universidade, entre os bairros Butantã e Rio Pequeno. O rigor é a alma dessa atividade didática, que visa ao acesso à informação e à cobertura das lutas sociais. Os jornais impressos são distribuídos nessa região, ou melhor, são entregues nas mãos dos moradores, sem desperdício. O professor repassa aos estudantes os ensinamentos básicos do jornalismo, especialmente o comprometimento e a fidelidade para com o seu público. Sendo assim, essa conduta vai além da técnica, já que o objetivo é formar cidadãos e, consequentemente, profissionais responsáveis.

Mesmo com problemas estruturais, como a ausência de equipamentos de ponta na área da educação, os docentes chão de fábrica (termo que, entre os professores de jornalismo, tem o significado de ensinar a produzir a notícia) das universidades públicas e de muitas instituições privadas seguem esse perfil, em busca da excelência. Até o último dia de aula, quando os estudantes apresentam e defendem o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), o professor reforça o discurso de que é possível ser ético e apto, mesmo em uma profissão em que a opressão e o medo andam lado a lado.

Afinal, o jornalista (formado ou não) lida, ao mesmo tempo, com os interesses de magnatas e, também, com as necessidades dos esquecidos, como ficou claro no triste período pandêmico. E, por isso, este artigo é para reforçar o velho ditado de que o jornalismo está mais vivo do que nunca, porque estamos prontos para as batalhas nas redes e nas ruas.

Estaremos a postos com materiais jornalísticos com forma e conteúdo, como os estudados pelos professores José Marques de Melo e Manuel Carlos Chaparro. Colocaremos nossas matérias e opiniões à prova por meio de argumentos e fatos, e não por fantasias.

Não fugiremos das discussões, como fazem os candidatos que se pautam pelas pesquisas de intenção de voto e acabam “escapando” dos debates organizados pelos canais de comunicação. O resumo dessa atitude você já sabe: o que era para ser um governo do povo acaba por ser uma facção caricaturada, na imagem de seu líder. São histórias que o povo brasileiro conhece bem. Depois de assumir o cargo, os gestores se revelam vilões.

Se a realidade é virtual, então os jornalistas precisam ficar atentos ao novo processo de construção da notícia. Caso contrário, continuaremos sendo enganados pelas especulações e pelas mentiras daqueles que, verdadeiramente, controlam as nossas terras e telas.

________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)



Fonte

Mais populares

- Anúncio-
Google search engine