Marília Fiorillo diz que nos dias atuais, em que se fala uma coisa e se faz outra, o uso da força e da chantagem prevalecem: “Persuadir, só com a eloquência dos mísseis”
O aço, o petróleo, componente industriais, a suculenta manga e toda previsibilidade imprescindível para evitar o caos na economia mundial, estes e outros produtos e serviços foram para o espaço com os cambiantes tarifaços do empreiteiro, e também presidente dos EUA, Donald Trump. Mas há uma vítima pouco mencionada, e igualmente implodida: a retórica.
O senso comum associa a retórica à enganação, fala mentirosa, blablablá para iludir trouxas. Nada mais errado! A retórica, à qual Aristóteles dedicou páginas elogiosas, é uma arte tão importante quanto a ética e a política, aliás uma arte/técnica imprescindível na vida pública, pois retórica é a arte da argumentação e persuasão, aquela busca de acordos possíveis e vantajosos entre as partes, sem a qual não há debate nem diálogo. É através dela que se chega a bom termo em questões espinhosas, e a arena do debate político não se transforma num Coliseu de feras e gladiadores. Só a retórica permite que posições diversas e mesmo antagônicas evitem o eterno entrechoque, e se acomodem num jogo em que todos cedem um pouco, e ganha o bem comum.
É a arte do convívio possível, instável, provisório, mas efetivo enquanto dure. Nas palavras do mestre “Aristu”, a arte de descobrir, em cada caso particular, os meios disponíveis de persuasão. Portanto, é o oposto de trapacear com as palavras. E também não é sinônimo de falar bonito. É falar adequadamente de modo a convencer os interlocutores, e cada caso demanda fundamentos e justificativas específicos e plausíveis. Resumidamente, ela se baseia em três características: 1) a autoridade de quem fala (o ethos) 2) a razoabilidade e racionalidade dos argumentos (logos) e 3) a adesão emocional ao que se diz (páthos).
A má fama da retórica nasceu com o mau humor de Sócrates com os sofistas (veja-se a comédia de Aristófanes As Nuvens, em que um pai contrata um professor para ensinar boas maneiras ao filho e acaba levando uma surra do rebento; o professor, claro, seria um sofista que ensina verdades relativas, não a verdade universal que Platão atribui ao mestre Sócrates. Feito esse desagravo à retórica, e recuperando sua boa reputação, leiam Chaïm Perelman, que os convencerá de vez que, sem retórica, a vida seria uma desagradável e constante troca de sopapos, pontapés e xingamentos.
É nesse cenário que vivemos hoje, de política como bullying. Até o box tem suas estritas regras. Desrespeitou, desclassificou e sai do ringue. No ringue atual, com Trump e Putin como pesos pesados, trapaceando, dizendo uma coisa e fazendo outra, batendo sempre abaixo da cintura, a pobre retórica foi completamente esquecida e escanteada. O uso da força e da chantagem prevaleceram. Persuadir, só com a eloquência dos mísseis. Perdem todos, menos a indústria armamentista.
Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar quinzenalmente sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.
.





