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Políticas urbanas que transformam periferias na América Latina reconfiguram desigualdades – Jornal da USP


Estudo que analisou locais periféricos do Rio de Janeiro e em Medellín, na Colômbia, mostra que as transformações foram baseadas em formas de violência, como a remoção de pessoas

Soldados circulam armados entre diversas pessoas em uma comuna de Medellin, Colombia
Nas comunas de cidades colombianas o exército armado circula entre as pessoas, sem a aura de amedrontamento – Foto: Apoena Dias Mano

Para camuflar as desigualdades de classe, raça e território, o Estado usa as periferias para criar a ideia de transformação urbana da cidade. Em sua tese de doutorado defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Apoena Dias Mano analisou a relação entre as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) das favelas do Rio de Janeiro e o chamado “urbanismo social”, desenvolvido nas comunas de Medellin, na Colômbia. O objetivo foi investigar como as desigualdades são produzidas e contestadas em territórios populares como as favelas. A pesquisa intitulada Do atrito à ação: uma etnografia móvel sobre desigualdades socioespaciais teve a orientação da professora Bianca Stella Pinheiro de Freire Medeiros, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia, e recebeu Menção Honrosa no Prêmio Tese Destaque USP.

Homem branco, cabelos pretos bigode e cavanhaque, trajando uma camisa azul escuro
Apoena Dias Mano é formado em Turismo pela UFF e mestre em Ciências Sociais pela UERJ – Foto: Lattes

O pesquisador reuniu experiências de uma viagem junto a Thiago Firmino, guia turístico e liderança comunitária na favela Santa Marta, no Rio de Janeiro. “Ao longo de quase dez anos de diálogo sobre políticas urbanas e a vida cotidiana na favela, construímos uma relação que culminou em um trabalho de campo conjunto em Medellín, na Colômbia.”

“Existe a narrativa de que Medellín agora é uma cidade que venceu a guerra. Medellín foi a cidade que teve o maior número de homicídios na América Latina nos anos 1990. E daí se tornou um caso global de uma cidade que se resolveu”, observa o pesquisador. Ele e Thiago conversaram com diferentes pessoas durante a pesquisa de campo em Medellín e entenderam que essas transformações foram baseadas em muitas formas de violência, como a remoção de pessoas.

Essa política, como conta o pesquisador, inspirou a criação, em 2008, do programa das UPPs, no Rio de Janeiro. No contexto dos megaeventos esportivos de 2014 e 2016, com o projeto de “cidade olímpica”, o Rio de Janeiro buscou resolver os problemas que impediam seu desenvolvimento com a permanência contínua de policiais nas favelas para melhorar a segurança.

Entre as diferenças identificadas pelo pesquisador em Medellín e Rio de Janeiro, é comum ver nas comunas da cidade colombiana o exército armado andando entre as pessoas, sem a aura de amedrontamento que persiste nas favelas do Rio de Janeiro. O pesquisador explica que a relação entre crime e Estado foi alterada.

“Muitas pessoas foram removidas das suas casas por causa desses processos de transformação. A ideia de transformação exclusivamente positiva é muito problemática.”
– Apoena Dias Mano

Turismo

Apoena afirma que a ideia de transformação positiva é utilizada pelos governos para destacar as cidades como influentes e crescentes no contexto global. “Chamou nossa atenção como o turismo é promovido como sustentação de formas de governo baseadas na militarização, no empreendedorismo popular e na construção de imaginários globais em torno de ideias de uma suposta ‘transformação’ urbana”, observa o pesquisador. “No entanto, essas narrativas positivas são tensionadas por uma análise crítica ancorada no cotidiano dessas localidades: desigualdades persistem, agora reconfiguradas por essas novas estratégias urbanas”, afirma Apoena.

Outro tema abordado na tese é o crescimento do turismo nas favelas. “A ideia de que uma localidade que ninguém podia entrar de uma hora pra outra se torna um lugar turístico, envolve a militarização, a produção imobiliária e formas de controle e vigilância nesses lugares”, analisa.

Imagem mostra, em primeiro plano, um binóculos pendurado diante de uma grande favela
Estudo investigou como as desigualdades são produzidas e contestadas em territórios populares como as favelas – Foto: Thiago Firmino/Acervo pessoal

De acordo com Apoena, o turismo em favelas tem um papel central no surgimento de novas lideranças

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comunitárias, que crescem como resultado do atrito na implementação dessas políticas. “Existem lideranças comunitárias que estão emergindo nesses contextos que têm um conhecimento tácito do que são esses territórios, e é muito importante ser organizado e visibilizado em termos da produção de políticas urbanas do governo.”

“No que diz respeito às conclusões mais práticas, eu estabeleço um tipo de crítica às políticas urbanas, do Rio de Janeiro e de Medellín, que traz à tona que a experiência vivida dessas pessoas é muito diferente do que o governo sempre fala sobre o que está acontecendo nesses lugares”, finaliza.

Texto de Isadora Batista, do Serviço de Comunicação Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, com edição de Antonio Carlos Quinto



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