quarta-feira, março 18, 2026
HomeConsumo conscienteA ciência pela história, episódio 16 – Os cientistas e as revoluções...

A ciência pela história, episódio 16 – Os cientistas e as revoluções – Jornal da USP


Por Gildo Magalhães, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP

Uma nação precisa de cientistas?

Ao negar a petição da esposa de Antoine-Laurent Lavoisier (1742-1794) para que ele não fosse executado, um juiz teria dito que “a República não precisa de cientistas nem de químicos; o curso da justiça não pode ser interrompido”. A frase é tida como apócrifa, mas caiu na mitologia que ronda frequentemente a História da Ciência, e infelizmente Lavoisier foi mesmo guilhotinado durante o período do Terror na Revolução Francesa.

Nota-se ainda que, pela frase citada, um químico ainda não era amplamente identificado como cientista. É certo que as ciências vinham agrupadas na filosofia natural e na história natural, mas o pensamento comum de que a química nasceu depois da física precisa ser repensado, à luz do desenvolvimento da indústria química. Uma breve olhada às ilustrações da famosa Enciclopédia das Ciências, Artes e Ofícios, editada dentro do espírito do Iluminismo francês por D’Alembert e Diderot, bastaria para mostrar a relevância de várias indústrias químicas presentes no cotidiano europeu, e principalmente francês, durante a segunda metade do século 18. Dentre estas avultam as de porcelana, papel, vinhos, velas, vidros, refino de metais preciosos, tinturarias e muitas outras, de forma que se poderia até pensar que já havia uma revolução industrial moderna movida pela química antes mesmo da chegada da máquina a vapor.

Lavoisier herdara um título aristocrático menor comprado por seu pai, e se tornou um rico coletor de impostos da Fazenda Geral, uma instituição terceirizada pelo Estado – a Fazenda Geral adiantava o dinheiro dos impostos para o Reino e ficava com o privilégio de cobrar um valor maior; era bastante odiada pela classe média, devido à sua prepotência e altas taxas cobradas. A Fazenda Geral tinha o monopólio de produção e venda de tabaco e, durante o exercício de Lavoisier no cargo, seu lucro estava decrescendo em virtude de um mercado paralelo que adulterava o produto com cinza e água. Lavoisier pôde demonstrar quimicamente como garantir a pureza do tabaco e criou um sistema de controle bastante rígido para acabar com a falsificação.

Seu interesse pelas ciências naturais o levou inicialmente para a geologia. Incentivou obras públicas, estudou a qualidade do ar, a modernização da agricultura e impulsionou o ensino público de ciências. Lavoisier foi se aproximando cada vez mais da química, montando um bem equipado laboratório particular, para onde encomendou balanças e instrumentos caros, feitos com muita precisão.

Sua nomeação em 1775 para o cargo público de membro da Comissão da Pólvora serviu para demonstrar suas qualidades de excelente administrador, além de tê-lo impulsionado para entrar na Academia de Ciências de Paris, onde rapidamente ascendeu ao mais alto grau, em que recebia uma pensão do governo.

Apelando-se para uma noção cultivada em especial na química, o raciocínio de Lavoisier nas ciências pode ser chamado de “estequiométrico”, ou de equilíbrio dos componentes. Um mito muito divulgado, mas falso, é que ele seria o autor da máxima de que “na natureza nada se perde, nada se ganha, tudo se transforma”. Esse princípio de conservação fora já expresso com outras palavras por pensadores gregos antigos e recuperado antes de Lavoisier pelo polímata russo Mikhail Lomonosov, fundador da Universidade de Moscou. Foi também para Lavoisier um princípio de economia política, outro ramo em que publicou bastante, revelando um perfil burocrático e conservador, adepto do controle orçamentário rígido, que o levou a considerar que a quantidade de riqueza no comércio se mantém constante.

É conhecido (e talvez supervalorizado) o ataque gradual de Lavoisier à teoria do flogisto, uma substância invisível e sempre combinada com outras, que seria responsável pela liberação de calor e luz na combustão. Essa teoria fora formulada pelo químico alemão Georg Stahl (1659-1734), cuja filosofia de base era atomística; o flogisto era, contudo, capaz de explicar bem um grande número de experiências. Lavoisier passou a considerar que o ar desempenhava um papel vital na combustão, e isto o levou a ter contato com as experiências do inglês Joseph Priestley (1633-1804), que isolou o oxigênio, embora fosse a favor do flogisto. Posteriormente, se constatou que Carl Scheele (1742-1786) na Suécia já tinha descoberto o elemento oxigênio. Há uma certa ironia em tudo isto, pois se Lavoisier teve sucesso em explicar as reações químicas com alguns ácidos pela intervenção do oxigênio, isto não o impediu, de certa forma, de trocar o flogisto pelo calórico, que supôs ser um elemento misterioso, um fluido que passaria de um corpo quente para outro mais frio. E, todavia, embora também fosse algo fictício, o calórico servia para explicar um bom número de resultados da física e da química. Lavoisier era filiado à visão mecanicista da natureza e assumia a postura positivista de só confiar nos “fatos”, o que não o impediu de cometer erros envolvendo o oxigênio e o calor.

Hoje em dia Lavoisier costuma ser celebrado pela reforma da linguagem da química, a partir dos elementos (que definia como substâncias que não podiam ser decompostas) e dos compostos químicos formados pelos elementos, introduzindo um método para nomear. Segundo essa perspectiva, o nome de cada composto era formado por uma composição binária indicativa da proporção dos constituintes por meio de um sufixo. Por exemplo, o ácido sulfúrico contém uma proporção maior de oxigênio do que o ácido sulfuroso; de maneira análoga, sais derivados do ácido sulfúrico receberam uma terminação dando a palavra sulfato, como no caso do “sulfato de cobre”, que substituiu o antigo nome desse composto dados pelos alquimistas, “vitríolo de Vênus”.

Foi uma mudança realmente significativa, implementada a partir de 1787 e ainda corrente atualmente, mas na verdade ela foi devida a um trabalho coletivo e não unicamente de Lavoisier. Com ele colaboraram os químicos Guyton de Morveau (1737-1816), Antoine Fourcroy (1755-1809) e Claude Berthollet (1748-1822), que por sua vez se respaldavam em gerações anteriores de químicos ansiosos por encontrar um sistema adequado de nomenclatura. A seguir, depois da divulgação da nova nomenclatura, Lavoisier publicou seu Tratado Elementar de Química, inspirado na lógica racionalista do filósofo Étienne Condillac (1715-1780) e fartamente ilustrado pela esposa, Madame Lavoisier, que também era química. Embora conservasse vários dos princípios da velha química derivada da alquimia, Lavoisier escrevia como se a sua obra fosse o resultado de uma revolução feita por um homem só, apesar de resultar dos esforços de toda uma geração, um esforço internacional e não só francês.

Quando eclodiu a Revolução Francesa, Lavoisier não titubeou e se colocou ao lado dos revolucionários. Dirigindo o Arsenal, usou sua capacidade organizativa e rapidamente garantiu e aumentou a produção de pólvora, essencial para atacar a contrarrevolução, que se insinuava interiormente na França, apoiada na aristocracia e na Igreja, e exteriormente, em que as nações europeias tentavam derrotar a Revolução invadindo o país em várias frentes para abafar o incêndio antimonárquico que ameaçava se espalhar pelo continente. Lavoisier também teve um papel de destaque na organização das finanças do novo governo. Por fim, deve-se mencionar que participou, e com grande vigor, na reforma dos pesos e medidas, que resultaria no sistema métrico decimal, que foi pouco a pouco conquistando o apoio internacional, solapando as antigas unidades de medida fixadas de forma arbitrária e que entravavam o comércio. Em particular, Lavoisier definiu e construiu o padrão do quilograma.

Todo esse trabalho foi interrompido com sua prisão no final de 1793, seguida pela apreensão de seus aparelhos e documentos científicos. Como é possível que alguém que se empenhara tanto pela vitória da Revolução acabasse sendo repentinamente condenado à morte? Sua condenação se baseava numa acusação sabidamente falsa – a de que cometera fraude falsificando o tabaco e sonegando o imposto devido (esquecendo-se de suas ações exatamente ao contrário disso) – e na sua condição de antigo coletor de impostos, pois sua prisão e execução foi em conjunto com outros 27 coletores de impostos.

Há muitas explicações que vêm sendo dadas para os acontecimentos. Se bem que, ainda hoje, não haja muita gente que goste de fiscais e de pagar impostos, é preciso levar em conta as circunstâncias do Terror jacobino na França. Lavoisier era visto com desconfiança pelos mais radicais, devido à sua posição na Fazenda Geral e por ser um membro da aristocracia, conquanto nunca tivesse feito parte da corte real e tivesse sido um revolucionário de primeira hora. Isso não o impediu de sofrer pesadas críticas de Jean-Paul Marat (1743 – 1793), veiculadas no jornal extremista deste, O Amigo do Povo.

Por que motivo Marat o atacava? É preciso lembrar que Marat era médico e havia publicado trabalhos de competência reconhecida no campo da medicina. Enquanto médico da corte, montou um laboratório de física particular e escreveu trabalhos sobre eletricidade, luz e calor. Contudo, Marat almejava entrar para a Academia de Ciências de Paris, e lá submeteu algumas de suas pesquisas, das quais o relator foi justamente Lavoisier, cujos pareceres foram sumariamente negativos. Hoje há uma controvérsia se os trabalhos de Marat não teriam mesmo mérito científico, e se a reação de Lavoisier foi puramente arbitrária, um despotismo acadêmico. Ouve-se que pode haver alguns concursos com o estigma de serem com “cartas marcadas”, e há pareceres de projetos e publicações que sofrem de parcialidade, de forma que não seria uma surpresa total se isto também tivesse acontecido com Marat, gerando ressentimento. As academias francesas acabaram sendo fechadas em 1793 pela Revolução, com o argumento de que funcionavam para as elites e não atendiam as necessidades do povo – sendo lentamente restabelecidas posteriormente a 1795.

Um outro dado é particularmente intrigante: por que os cientistas colegas de Lavoisier não tentaram salvá-lo? Houve algumas tentativas tímidas nesse sentido, mas justamente os químicos que tinham trabalhado mais de perto com ele foram os que se mantiveram em silêncio. Seria por medo, ou por dedicação à causa revolucionária e aos jacobinos em particular? Talvez houvesse algum desgaste para Lavoisier por não mostrar deferência para com seus colaboradores, assumindo que apenas ele era responsável pelos avanços na Química, não reconhecendo que resultavam de uma obra coletiva. Após sua morte, esses mesmos químicos não economizaram palavras de louvor a Lavoisier, já redimido como mártir da Revolução Francesa, ao que se somou mais tarde a apropriação nacionalista de Lavoisier por parte daqueles que, principalmente nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, viam a química como uma ciência essencialmente francesa, contra as pretensões de uma supremacia científica alemã.

Processos semelhantes ocorreram em outras revoluções e circunstâncias, como na Revolução Soviética. Muitos cientistas e intelectuais apoiadores dessa revolução foram denunciados como contrarrevolucionários e perderam seus cargos, foram exilados ou condenados à prisão ou mesmo à morte. Muitas vezes a política segue os mesmos rumos que a ciência canônica: persegue os que pensam diferentemente, só que na política os efeitos são mais deletérios – se na ciência a palavra é cassada, na política a vida pode ser extinta.

Definitivamente, a nação precisa de seus cientistas e de suas opiniões, ainda que dissidentes.

________________
(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)



Fonte

Mais populares

- Anúncio-
Google search engine