Projeto Se liga no Cinto propõe atividades interativas para prevenir e ensinar sobre responsabilidade no trânsito a crianças e adolescentes
Por Vitória Gomes*

Acidentes viários, desrespeito à sinalização, colisão e atropelamento seguido de morte são causas recorrentes quando se trata de violência no trânsito. Ribeirão Preto, de acordo com dados do Infosiga, é a quarta cidade com mais mortes no trânsito entre os 25 municípios paulistas acima de 300 mil habitantes, com 115 óbitos registrados nos últimos 12 meses.
Entre 2012 e 2018, somente o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HC-FMRP) atendeu mais de 6 mil casos envolvendo traumatismos na região do crânio, resultando em uma média de mil casos por ano em crianças e adolescentes, segundo o professor Ricardo Santos de Oliveira, do Departamento de Cirurgia e Anatomia da FMRP.

Para mudar esse cenário, a educação surge como um pilar fundamental para incentivar o desenvolvimento e conscientização sobre o trânsito, especialmente na formação de crianças, jovens e adolescentes. Assim, em 2019, com apoio da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia Pediátrica (SBNPed), o professor Oliveira desenvolveu o projeto Se Liga no Cinto, que articula ações voltadas ao ensino e prevenção da violência no trânsito e promove o bem-estar de crianças e adolescentes. “Nós procuramos consolidar o projeto com parcerias entre neurocirurgiões brasileiros, pensando em atuar em escolas do ensino fundamental e médio, pois o aprendizado é essencial para reduzir essa realidade”, explica Oliveira, que também coordena o projeto.
Ainda segundo o coordenador, a grande motivação do projeto veio da vivência médica nos atendimentos clínicos na Divisão de Neurocirurgia do Hospital das Clínicas (HC-FMRP). “A experiência com casos de traumatismos graves, como cranianos, raquimedulares, lesões na coluna e medula espinhal me proporcionou a partir para a função de educador, levando essa ideia de trânsito seguro para as escolas”, diz.
Educação com segurança e prevenção
As atividades desenvolvidas nas escolas Professora Sueli Terezinha Danhone, em Ribeirão Preto, e Pequeno Tijolinho, na cidade de Araraquara, abrangeram a produção de material informativo, por meio de aulas expositivas com modelos de anatomia do crânio, demonstrando o funcionamento do sistema nervoso. Também foram realizadas oficinas interativas sobre prevenção e segurança no ambiente escolar, utilizando isopor e garrafas plásticas para ilustrar, na prática, a importância da conduta correta no trânsito. Além disso, houve rodas de conversa e palestras com o professor e alunos do curso de Medicina da FMRP, que apresentaram dados sobre os acidentes de trânsito na região.

O ponto inicial para cooptar a atenção dos jovens, segundo Oliveira, foi envolvê-los em um processo de reflexão e tomada de consciência em relação aos acidentes. “Nós apostamos na formação de jovens como multiplicadores; a respeito disso, convidamos adolescentes que atuam nos grêmios estudantis ou que são representantes de classe para engajar nas discussões coletivas em relação às ocorrências de trânsito”, pontua.
Inspirados pelo movimento, as escolas que participaram do projeto passaram a eleger seus professores e tutores como representantes de classe e jovens líderes dentro da escola para cativar os estudantes sobre as ações no trânsito, incluindo-os nos temas abordados em sala de aula.
Iniciativas do projeto Se Liga no Cinto foram realizadas na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), coordenada pelo professor Matheus Ballestero com alunos do curso de Medicina e também na cidade de Araraquara, que segundo o coordenador teve uma excelente receptividade da sociedade. Além disso, a iniciativa firmou parceria com o Samuzinho, projeto idealizado pela Secretaria Municipal da Saúde de Ribeirão Preto, que ensina primeiros socorros de forma lúdica a crianças e adolescentes.
Para tornar o plano de ensino mais abrangente, o projeto também realizou campanhas socioeducativas no parque municipal Dr. Luís Carlos Raya, em Ribeirão Preto, em parceria com a Transerp (empresa responsável pela mobilidade urbana na cidade, atualmente RP Mobi), por meio da ação Blitz Carteirinha, com objetivo de informar sobre a importância de respeitar as leis viárias, utilização de cinto de segurança e uso correto de equipamentos de segurança para transporte de crianças. A proposta também participou da campanha Maio Amarelo, promovendo a mobilização da sociedade a respeito dos riscos no tráfego.
Senso crítico
Essa experiência, baseada na formação de respeito às condutas viárias, possibilitou uma boa adesão e continuidade do projeto. “Em relação ao projeto, tivemos um retorno positivo, tanto dos pais quanto dos alunos. Estimamos que, por meio desse bom desempenho, participaram do projeto mais de mil pessoas, desde seu início em 2019”, informa Oliveira. Atualmente o projeto envolve a participação de 20 alunos da Medicina, e todos atuam na Liga Acadêmica de Neurologia e Neurocirurgia (Lannec) da FMRP.
Para o estudante de Medicina Victor Wendel da Silva Gonçalves, integrante do projeto e presidente da Lannec, a experiência foi transformadora em sua vida, essencial para sua formação. “Durante as atividades, construímos um espaço de conversa próxima com os alunos do ensino fundamental, respondendo possíveis dúvidas e explicando de forma acessível como o sistema nervoso funciona e como atitudes negligentes no trânsito podem comprometer a vida de uma pessoa”, enfatiza
Segundo Victor, essa interação promoveu a fomentação de senso crítico, responsabilidade e empatia. “A cada pergunta que os alunos faziam, víamos ali não só curiosidade, mas também a capacidade de se tornarem agentes multiplicadores dentro de suas famílias. Essa experiência confirmou em mim a possibilidade de desenvolvermos uma ponte entre a Universidade e a sociedade, principalmente por meio da educação em saúde”, conclui.
Desafios por um trânsito mais seguro
Diante da receptividade positiva, a trajetória do projeto enfrentou desafios com os estudantes. “Um dos obstáculos cruciais que identificamos foi o desconhecimento das normas de trânsito, principalmente sobre o uso do cinto no banco traseiro, dispositivo essencial para crianças com idade menor de 10 anos”, destaca o coordenador.
Segundo ele, existe uma cultura de negligência quanto à segurança viária, tornando-se um impeditivo categórico para a promoção da saúde da criança e do adolescente. “Muitas vezes, os pais ou responsáveis pelas crianças não têm o hábito de usar o cinto no banco de trás ou cadeirinha, podendo culminar em desfechos trágicos”, afirma.
Para garantir efetividade do projeto, o professor aposta no processo educacional dos estudantes. “Investimos nos processos educacionais dentro das escolas para mostrar a relevância das leis e ocorrências de trânsito, abrindo espaço para os alunos questionarem e debaterem as condutas irregulares, levando esse aprendizado para suas famílias e os transformando em agentes mediadores e divulgadores do projeto”, finaliza.
Mais informações do projeto estão disponíveis pelo canal do YouTube e Instagram
No player abaixo, ouça entrevista do professor Ricardo Santos de Oliveira à Rádio USP
*Estagiária sob supervisão de Rose Talamone




