“Quando o carrapato infectado se alimenta, ele injeta na pele do hospedeiro tanto a bactéria quanto moléculas da saliva capazes de suprimir a resposta imune. Isso permite que a infecção avance de forma silenciosa”, explica Sá Nunes. “Estudar essas moléculas, como a Amblyostatin-1, nos ajuda a compreender os mecanismos que favorecem a transmissão da febre maculosa e pode, no futuro, orientar estratégias para bloquear essa infecção.”
A Amblyostatin-1 pertence à família das cistatinas, proteínas que inibem enzimas catepsinas, que desempenham papéis importantes no sistema imune e em processos inflamatórios. No estudo, a molécula demonstrou seletividade na inibição de catepsinas específicas, como a catepsina S e a catepsina L, associadas a processos de ativação de células do sistema imunológico. A catepsina S, por exemplo, é essencial para ativar células dendríticas (que acionam a resposta imune), enquanto a catepsina L atua na resposta inflamatória dos neutrófilos (células de defesa contra infecções por bactérias e vírus). Ao inibir essas enzimas, a Amblyostatin-1 demonstrou ser capaz de reduzir significativamente a ativação das células dendríticas e a inflamação na pele em modelos animais.
“Sabíamos que essas moléculas poderiam modular o sistema imune, mas um estudo anterior, que teve a participação do nosso grupo de pesquisa, mostrou que a Amblyostatin-1 se destacou por ser a cistatina expressa em maiores níveis durante a alimentação do carrapato, o que sugeria um papel relevante na interação com o hospedeiro”, explica Sá Nunes. Além disso, a Amblyostatin-1 apresentou baixíssima imunogenicidade, ou seja, não induziu a produção de anticorpos nos animais. Esse é um fator importante para o desenvolvimento de medicamentos de uso prolongado, já que o corpo tende a neutralizar substâncias reconhecidas como estranhas.
“Essa característica faz da Amblyostatin-1 um antígeno silencioso, ou seja, uma molécula que o organismo não reconhece como uma ameaça. Isso permite seu uso contínuo sem perda de eficácia, algo desejável em tratamentos de longo prazo para doenças inflamatórias”, complementa Sá Nunes.
Além do grupo liderado pelo professor no Departamento de Imunologia, participaram do estudo a professora Andréa Cristina Fogaça, do Departamento de Parasitologia do ICB, a professora Aparecida Sadae Tanaka (Universidade Federal de São Paulo), Michalis Kotsyfakis (Czech Academy of Sciences) e Lucas Tirloni (NIH), dentre outros pesquisadores.
O finaciamento foi da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
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*Da Assessoria de Imprensa do ICB. Adaptado por Júlio Bernardes
**Estagiária sob orientação de Moisés Dorado



