No terceiro andar do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP, 21 peças da artista visual Luara Macari chamam a atenção pela vivacidade da tinta vermelha e pelo contraste com a azul. Numa articulação de argila, grafite, carvão e tinta a óleo, a artista faz experimentações e testa os limites da técnica. As obras de Macari compõem a exposição Tudo Que Nasce Vermelho, primeira mostra individual da artista, que foi inaugurada no MAC no dia 26 de julho e fica em cartaz até 26 de outubro.
Resultado de anos de pesquisas, os trabalhos de Macari transferem para a matéria o entendimento da artista sobre ancestralidade, religiosidade e espiritualidade. Exemplo disso é a tela que dá nome à exposição, Tudo Que Nasce Vermelho, de 2023. Como explica a artista, a obra foi criada de forma espontânea. Começou com duas impressões marrons de argila, seguidas de um chão e céu na cor vermelha. Macari enviou uma foto do processo à sua mãe de santo, que enxergou na tela egungun, termo iorubá que se refere a espíritos de ancestrais importantes. “O nome da obra é porque de algum lugar a gente vem, como do sangue e da terra”, diz a artista.
Na tradição iorubá, as mulheres não podem ver egungun e usam panos vermelhos para cobrir a vista. Sua mãe de santo trouxe, então, uma camada de entendimento para a obra: “Eu comecei a pesquisar os mitos de criação da Terra com base na mitologia iorubá. A série não é sobre os itãs, como são chamados os contos da mitologia, mas sim sobre como eu lido com essa sensibilidade, essa subjetividade através da religião.”
Ao compor a tela No Tempo Que Tudo Era Água (2023), Macari pensava na mitologia da criação, em que Olodumaré, o deus supremo iorubá, criador do Universo e todas as coisas, forma a Terra. “Ele manda Oxalá, que é o orixá da sabedoria e da paz, descer para a Terra, que era água. Tudo era mar.” A artista transfere esse processo para a tela: Oxalá desce com um pequeno saco com areia e uma galinha, que cisca a areia e forma a terra.
Em Princípio do Verso e Inverso (2024), Macari reflete sobre polaridades e interações. “No final das contas, esse princípio masculino, do impulso, da guerra, da criação, que abre os caminhos e faz com que a vida nasça na terra, não existe sem o princípio do interno, do feminino, da gestação.” Ela expressa essa dualidade com as duas cores principais da mostra. “O vermelho do sangue, do corpo, da pulsão, também vem com o lugar frio, azul, do osso.”
Na tela Às Pretas (2024), a artista faz alusão a A Negra (1923), famosa obra de Tarsila do Amaral que está no acervo do MAC. “Nesse trabalho, eu questiono o lugar reservado às negras na história da arte. A Tarsila é uma grande referência para mim”, destaca Macari.


