Publicação aprofunda reflexões sobre colecionismo, cultura material, acessibilidade e os legados das imigrações alemã e italiana; download gratuito, com audiolivro e audiodescrição disponíveis no site do Museu do Ipiranga

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O Museu do Ipiranga lançou o catálogo da exposição Design e Cotidiano na Coleção Azevedo Moura, em cartaz até o dia 28 de setembro, no Salão de Exposições Temporárias, localizado no Piso Jardim do museu, que fica no bairro do Ipiranga, em São Paulo. A publicação aprofunda reflexões sobre colecionismo, cultura material, acessibilidade e os legados das imigrações alemã e italiana no Sul do Brasil, com textos de Paulo Garcez Marins, Mário Mazzilli, Adélia Borges, Calito de Azevedo Moura, David Ribeiro, Vânia Carvalho, Günter Weimer, Paula Ramos, Denise Peixoto e Nicole Marziale. A publicação conta com audiolivro e audiodescrição e está disponível para download gratuito no site do Museu do Ipiranga. Em breve, o catálogo impresso estará à venda na Edusp.
Com curadoria da historiadora de design Adélia Borges, a mostra reflete sobre a formação de identidades por meio da cultura material. O projeto reúne 930 itens adquiridos ao longo de décadas, desde meados de 1960, nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. São objetos produzidos por imigrantes europeus no Sul do Brasil entre a segunda metade do século 19 e o início do século 20. A coleção representa o imaginário social e o dia a dia de imigrantes alemães e italianos e revela aspectos pessoais do universo doméstico de pessoas que buscavam construir uma nova vida. As obras conjugam as lembranças, as técnicas e os costumes trazidos pelos imigrantes de sua terra natal, de um lado, e as condições e materiais que encontraram na terra de adoção, de outro.
Passando por questões como habitação, religiosidade, marcenaria e culinária, os objetos apresentados denotam como uma mesma tipologia de artefato pode ter diferentes feições, carregando aspectos afetivos e emocionais. Trata-se de uma escolha dos colecionadores, que optaram por valorizar o trabalho manual contrapondo-se à lógica industrial de produção de peças idênticas em massa. São móveis, utensílios domésticos, ferramentas de trabalho, fotografias e materiais gráficos adquiridos ao longo de seis décadas pela dupla de colecionadores Calito e Tina Azevedo Moura.

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“A maioria desses objetos não tem valor pecuniário em si. Eles não são itens que se encontram em antiquários, valorizados por sua equivalência monetária. A maior parte é rudimentar e remete à nossa raiz rural. A urbanização do Brasil é recente, então essas peças suscitam relações fraternas, tradições geracionais e memórias afetivas”, afirmou a historiadora. “Colecionar é uma forma de escolher objetos e criar um mundo próprio, baseado nos desejos de quem coleciona. A coleção está ligada à realidade, mas não a reproduz exatamente”, afirmam os professores David Ribeiro e Vânia Carvalho, curadores institucionais.
Formação da memória coletiva
Dividida em dez núcleos temáticos e uma sala de vídeo, a exposição enfatiza a beleza e o design de peças que não foram criadas para a elite, mas sim para pessoas comuns, que contribuíram com a formação de uma memória coletiva baseada em trocas culturais. O primeiro núcleo, intitulado Pode Entrar que a Casa é Sua, mostra como os imigrantes artesãos utilizaram a abundância de árvores locais para produzir técnicas de marcenaria diferentes das empregadas na Europa. Essa mesma diversidade aparece também em As Várias Formas do Sentar, que apresenta cadeiras e bancos produzidos pelas duas comunidades europeias, incluindo o tradicional cavalinho de madeira – símbolo do sentar lúdico e do afeto familiar entre crianças e adultos. Em Preparar e Servir o Pão de Cada Dia, são exibidos utensílios destinados ao preparo de alimentos ou ao esmero em servi-los.

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Mande Notícias do Mundo de Lá reúne cartões-postais que trazem cenas românticas que idealizam o continente deixado para trás. Nos ditados de parede da tradição alemã expostos em Lar, Doce Lar, outras ilustrações simples destacam a importância da união familiar e da confiança em Deus para a harmonia doméstica. O núcleo O Céu Que Nos Protege apresenta como a religiosidade católica estava presente nas famílias italianas, seja por meio de reproduções de pinturas sacras ou pequenos oratórios. Grafias de Época, por sua vez, exibe peças de comunicação gráfica como folhetos publicitários que divulgavam mercadorias. Noivas de Preto destaca o costume de noivas que se casavam vestidas de preto, o que, para muitos historiadores, seria uma forma de protestar contra jus primae noctis, isto é, o direito do senhor feudal de ter a primeira noite.
Em Infância nas Colônias é possível observar os costumes e a criação das crianças – que seguia a cultura ocidental burguesa – por meio de brinquedos, fotografias e materiais escolares. Por fim, em Ferramentas do Fazer, é apresentado o serviço de marceneiros, ferreiros, oleiros, pedreiros, sapateiros, alfaiates e farmacêuticos. Os artefatos mostram a realidade muitas vezes precária dos trabalhadores, além de como eles acompanharam a transformação de matérias-primas ao longo dos anos.
Veja o catálogo da exposição Design e Cotidiano na Coleção Azevedo Moura no site do Museu do Ipiranga.
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*Com informações da Assessoria de Imprensa do Museu do Ipiranga


