Autor desenvolveu a pesquisa de forma independente, após ter seu projeto de pós-doutorado recusado pela academia
Por Silvana Salles

Contando a história de um setor da imprensa marginalizado, o livro Repórter Eros: a história do jornalismo erótico brasileiro é um dos vencedores da edição deste ano do Prêmio Jabuti Acadêmico. Escrito pelo jornalista e professor Valmir Costa, o livro é resultado de uma trajetória de décadas de pesquisa, que passou pelo mestrado e o doutorado do autor na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e culminou com a pesquisa acadêmica independente. Publicado pela editora Cepe, Repórter Eros levou o primeiro lugar do Jabuti Acadêmico de 2025 na categoria Comunicação e Informação.
A pesquisa de Costa sobre o jornalismo erótico começou na graduação, como trabalho de conclusão do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), ainda nos anos 1990. Depois, ele trouxe o tema para a pós-graduação na ECA. O projeto de pesquisa que foi o gérmen do livro era destinado a um pós-doutorado, submetido à USP e a outras universidades. No entanto, o projeto nunca foi aceito.

“A academia me virou as costas para este projeto, que era de pós-doutorado. Foram 11 tentativas. A primeira em 2007. A última em 2019. Seja por editais de bolsa de financiamento e também apenas com supervisor e sem bolsa. Então, ganhar o Jabuti Acadêmico mostra que é urgente que as universidades apoiem mais pesquisas — e que, muitas vezes, é fora da academia que a gente consegue fazê-las florescer”, diz Valmir Costa.
O livro Repórter Eros analisa como a imprensa brasileira abordou temas relacionados ao erotismo ao longo de mais de dois séculos. A história narrada por Costa começa com o nascimento do jornalismo erótico no século 19, passa pela censura do Estado Novo e da ditadura militar iniciada em 1964, cobre a era de ouro da Playboy nas últimas décadas do século 20 e discute a transição do impresso para o digital com a popularização da internet. As páginas do livro são ricas em fotografias e ilustrações históricas.
Trabalhando como pesquisador autônomo, Costa pôde avançar em sua investigação graças à digitalização do acervo da Biblioteca Nacional. “Eu queria traçar essa história não escrita do jornalismo. Então, teria que ter financiamento para pesquisar na Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro. O tempo passou, a BN digitalizou os periódicos e facilitou meu trabalho acadêmico autônomo”, diz o autor.
“As revistas mais modernas, dos anos 1990 para cá, eu consegui. Outras comprei em sebo. Mas ainda existem algumas que não foram digitalizadas e estão no ‘inferno’ da BN. É como se chamam os arquivos de livros e revistas censurados pela moral e que sequer aparecem nas bases de dados. Por exemplo, a revista Sans dessous, que não está digitalizada na BN”, completa.
Para além do entretenimento, o livro explora o papel do jornalismo erótico no debate público sobre sexualidade, comportamento e direitos civis. Em uma entrevista anterior ao Jornal da USP, Costa explicou que as publicações eróticas contribuíram para lutas contra a homofobia e o racismo. Também desafiaram o machismo em diferentes épocas. Ao mesmo tempo, porém, reafirmaram estereótipos que pesam principalmente sobre os corpos negros e a sexualidade feminina.
“Eu estou radiante com a premiação do Jabuti Acadêmico. Ainda mais pelo fato de ser o primeiro livro. Só tenho a agradecer ao conselho editorial da Cepe Editora e ao editor Diogo Guedes, que publicaram um livro de 696 páginas e com imagens. Coisa rara entre as editoras”, afirma o jornalista.




