No próximo sábado, dia 16, encontro na centenária construção da Vila Romana, em São Paulo, vai questionar a expansão imobiliária na cidade

“O céu é um patrimônio universal e todo cidadão tem o direito de usufruir dessa paisagem.” Com essa justificativa, a Casa Amarela da Vila Romana, em São Paulo, vai realizar no próximo sábado, dia 16, a partir das 14 horas, a 1ª Conferência Sobre o Céu. “Diante do domínio crescente dos territórios urbanos pela especulação imobiliária, que resulta na destruição da história e memória de bairros inteiros, é urgente discutir o impacto que a perda da vista do céu tem na vida das pessoas que habitam nas grandes cidades”, de acordo com o texto de apresentação do evento, assinado pelas organizadoras da conferência, a artista visual e arte-educadora Janice de Piero – proprietária da Casa Amarela – e a professora Cibele Lopresti, doutora em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A entrada é grátis.
O evento vai ser realizado em duas etapas. A primeira, das 14h às 16h, terá a mediação do professor José Minerini Neto, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Com ele estarão a professora e escritora Geruza Zelnys, o artista Rodrigo Bueno, a arquiteta e urbanista Lucila Falcão Pessoa Lacreta e o sociólogo Leonardo Mello e Silva, professor da FFLCH. A segunda etapa ocorrerá entre as 16h30 e as 18h30, será mediada pela geógrafa Ros Mari Zenha, mestre em Planejamento Urbano pela FFLCH, e contará com a participação do escritor Eduardo Guimarães, da jornalista Neusa Maria Pereira e do engenheiro civil Ivan Carlos Maglio, mestre e doutor em Saúde Ambiental pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Nessa segunda etapa do evento será feita homenagem à fotógrafa e jornalista Rosa Gauditano – autora de documentários fotográficos sobre povos indígenas, festas populares, prostitutas e lésbicas –, que morreu no dia 7 passado, aos 70 anos. Rosa iria participar da Conferência Sobre o Céu.
“Ao erguer edifícios cada vez mais altos, colados uns aos outros, o insensato sistema financeiro promove o sombreamento das ruas, casas e praças, impede a vista do céu, cria ilhas de calor em bairros inteiros e colabora para o aquecimento global”, destaca o texto de apresentação do evento. “Importante lembrar que a Constituição Federal de 1988 estabelece que a paisagem é um bem ambiental, um bem coletivo que merece proteção contra quaisquer danos e ameaças.”
De acordo com as organizadoras, “o céu é um território público, um bem da humanidade que está sendo tratado pelas incorporadoras como bem privado, destinado a poucos. O projeto Conferência sobre o Céu propõe a criação de uma micropolítica da paisagem e prega a defesa do direito social à vista do céu, favorecendo, assim, a possibilidade da ampliação e da articulação de olhares ecossistêmicos”.
Casa foi construída há mais de 100 anos

A Casa Amarela da Vila Romana foi construída pelo bisavô de Janice de Piero, Angelo de Bortoli, em 1921. Tombada como patrimônio histórico de São Paulo, hoje ela funciona como centro cultural e espaço de exposições artísticas.
“Angelo, filho de camponeses, nasceu em Padova, na Itália, em 1862. Após completar 18 anos, resolveu deixar a família e aventurar-se em terras brasileiras”, como se lê no site da Casa Amarela. “Quando já estabelecido, motorista e dono de um tílburi, carro de praça levado por cavalos, comprou um grande terreno, totalmente tomado por imenso capinzal, na distante Vila Romana.”
“Em 1921, Angelo de Bortoli, já casado e com filhos, construiu a Casa Amarela para abrigar imigrantes que chegavam ao Brasil. A casa ficava dentro de seu sítio, não havia ainda a demarcação das ruas. A casa de aluguel acolheu muitas famílias. Diante da avassaladora especulação imobiliária na região, a existência da casa passou a ganhar dimensão simbólica ao representar a luta contra os desmandos das incorporadoras, um espaço de abrigo à maltratada memória e um lugar de afeto que possibilita reconhecer-se humano”, continua o texto publicado no site. “Sua existência tornou-se uma forma de hospitalidade. A casa passou a ter uma envergadura outra, talvez por ser associada à permanência que a vida não tem. As pessoas a fotografam, agradecem pela conservação, acenam em forma de elogio. A casa tornou-se um ícone. Hoje ela é uma casa-aberta, expandida, num tempo em que grades, muros e monitores inibem e impedem relacionamentos de proximidade entre as pessoas. É uma casa-obra, pois em seu interior são realizadas instalações e encontros que propiciam gestos e relacionamentos.”
A 1ª Conferência Sobre o Céu será realizada no dia 16 de agosto, sábado, das 14h às 18h30, na Casa Amarela da Vila Romana (Rua Camilo, 955, Vila Romana, em São Paulo). Entrada grátis. Não é preciso fazer inscrição. Mais informações podem ser obtidas no site da Casa Amarela e pelo e-mail jan@janicedepiero.art.br



