terça-feira, março 17, 2026
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Mulheres muçulmanas deslocadas e o cuidado com a saúde mental – Jornal da USP


Sou antropóloga no Departamento de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP há 15 anos e, durante cinco anos, também lecionei na Universidade São Marcos no curso de Psicologia. Embora sem formação direta em saúde mental, esse campo tornou-se cada vez mais relevante no meu trabalho com mulheres muçulmanas. A realidade de adoecimento psíquico emergiu diante de múltiplas violências — entre elas, a islamofobia no Brasil e o deslocamento forçado em contextos de guerra e genocídio, como o vivido pelas mulheres palestinas.

Quando, em 2023, 2024 e 2025, recebemos notícias de que mulheres muçulmanas não têm acesso sequer a absorventes — um item básico de higiene —, nos deparamos com a crueldade sistemática de políticas de privação — como as impostas pelo Estado de Israel em Gaza. A escassez de água, medicamentos, roupas limpas e cuidados básicos no puerpério evidencia a violação do direito à vida digna.

O que faz essas mulheres resistirem a tamanha brutalidade? Como se manterem religiosas em meio ao horror?

Recentemente li o artigo da psicóloga social Kathleen Rutledge, da Queen Margaret University, publicado na Frontiers in Psychiatry (julho de 2025), intitulado Rethinking Pathways to Well-being: the function of faith practice in distress alleviation among displaced Muslim women affected by war. O estudo investiga como práticas religiosas influenciam o bem-estar de mulheres muçulmanas sunitas deslocadas internamente após o conflito com o ISIS, no norte do Iraque.

Rutledge utilizou métodos mistos: 160 questionários, 50 entrevistas e quatro grupos focais com mulheres entre 18 e 64 anos. O estudo revelou que a maioria das participantes apresentava alta religiosidade. Práticas como oração, jejum e leitura do Alcorão eram percebidas como fontes de conforto e proteção. A crença de que Deus observa e se importa com seu sofrimento esteve fortemente associada a menores níveis de sofrimento psicológico. Em contrapartida, sentir que Deus havia se afastado aumentava a angústia. A ausência de espaços adequados para oração e o apoio espiritual pouco sensível ao gênero ampliavam o sofrimento.

Costumo dizer a meus alunos de Psicologia: em contextos de sofrimento extremo, a fé não é periférica, mas central. Intervenções em saúde mental devem reconhecer e integrar crenças religiosas como parte fundamental do cuidado. Ações humanitárias precisam prever espaços seguros de oração para mulheres e o acesso a materiais religiosos. Penso que o fenômeno religioso está intrinsecamente ligado à elaboração do trauma, ao alívio da dor e à reconstrução do sentido.

Nesse contexto, destaca-se a contribuição de Samah Jabr — psiquiatra, psicoterapeuta e escritora palestina. Nascida em Jerusalém, ela desenvolveu o conceito de “psiquiatria sob ocupação” para tratar dos impactos da ocupação israelense na saúde mental do povo palestino. Em suas palavras, o conceito de sumud (صمود) — firmeza, resiliência, enraizamento — vai além da resistência individual: é prática coletiva, ação política. Derivado de As-Samad, um dos nomes de Deus no Islã (O Protetor), sumud é fé encarnada em perseverança.

Como afirma Jabr:

Go ahead não significa apenas sobreviver ou se recuperar do trauma. É desafiar, de forma contínua, a opressão e a ocupação. Sumud não é um traço nato, mas um conjunto de habilidades e hábitos que podem ser aprendidos”.

Ela compara esse espírito à oliveira palestina — profundamente enraizada, símbolo de resistência, cultura e memória. No livro Sumud em Tempos de Genocídio, Jabr destaca que muitas mulheres palestinas que sofreram violências extremas continuam a resistir não apenas como sobreviventes, mas como protagonistas da dignidade coletiva. Seu sofrimento é inseparável da ação política e da esperança compartilhada.

Para Jabr, a fé islâmica não é apenas espiritual. É força psíquica, suporte social e afirmação moral diante da injustiça. Sumud se manifesta como: ação movida pela fé; apoio comunitário e emocional; dever religioso de resistir à ocupação.

Uma reflexão importante de Samah Jabr é a crítica às estatísticas de saúde mental palestinas, especialmente aos dados sobre o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Jabr questiona a metodologia e as definições fornecidas pela Organização Mundial da Saúde. “É importante desenvolver nossos próprios padrões de saúde mental.”

Jabr é retratada no documentário de longa-metragem Beyond the Frontlines: Tales of Resistance and Resilience in Palestine (2017), da diretora francesa Alexandra Dols. O documentário fortalece sua discussão ao mostrar, de forma audiovisual, tudo o que o texto argumenta: que a fé, a comunidade e a resistência são partes integrantes da saúde mental para mulheres (e homens) sob ocupação. Ele também posiciona Samah Jabr como uma referência ética e clínica no campo da saúde mental palestina.

Jabr descreve sua prática clínica com mulheres que sofreram violências extremas: violência sexual, perda de filhos, tortura ou expulsão. Para essas pacientes, o sumud não é somente resiliência, mas a afirmação da dignidade diante de traumas profundos. Suas narrativas — embora marcadas pela dor — se conectam com a resistência coletiva.

No livro, Samah Jabr eleva as mulheres palestinas ao papel de protagonistas do sumud — guardiãs da vida, da história e da esperança coletiva. Elas praticam a resistência por meio da existência cotidiana, do amor e do luto, agindo politicamente mesmo diante dos maiores horrores.

Para ela, a fé islâmica não é apenas espiritual — é uma fonte ativa de força política, psicológica e coletiva. O sumud tem origem no nome divino as-Samad (O Protetor), e se expressa: como ação inspirada pela fé; como apoio comunitário e emocional diante do sofrimento; e como um dever religioso e moral de resistir à ocupação e injustiça.

Enquanto Kathleen Rutledge analisa o papel da fé entre mulheres deslocadas pelo ISIS no Iraque, Samah Jabr volta seu olhar para os efeitos da ocupação israelense sobre a saúde mental do povo palestino. Embora atuem em contextos distintos, ambas reconhecem a importância de compreender essas sociedades islâmicas deslocadas a partir da centralidade da religião e da coletividade.

Nessas culturas, como entre palestinos, iraquianos e iemenitas, o indivíduo não se concebe isoladamente: a identidade pessoal está profundamente entrelaçada com o pertencimento comunitário.

Pensar o sofrimento psíquico nesses contextos exige, portanto, uma abordagem que integre fé, cultura e vínculos coletivos.

Finalizo com as palavras de Samah:

“A urgência hoje está em reviver nossa humanidade moribunda, que falhou em preservar a vida dos gazenses, promover compaixão e restaurar os valores que nos definem como seres humanos. Resgatemos os restos da nossa humanidade dos escombros de Gaza”.

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(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)



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