Quando, em 2023, 2024 e 2025, recebemos notícias de que mulheres muçulmanas não têm acesso sequer a absorventes — um item básico de higiene —, nos deparamos com a crueldade sistemática de políticas de privação — como as impostas pelo Estado de Israel em Gaza. A escassez de água, medicamentos, roupas limpas e cuidados básicos no puerpério evidencia a violação do direito à vida digna.
O que faz essas mulheres resistirem a tamanha brutalidade? Como se manterem religiosas em meio ao horror?
Recentemente li o artigo da psicóloga social Kathleen Rutledge, da Queen Margaret University, publicado na Frontiers in Psychiatry (julho de 2025), intitulado Rethinking Pathways to Well-being: the function of faith practice in distress alleviation among displaced Muslim women affected by war. O estudo investiga como práticas religiosas influenciam o bem-estar de mulheres muçulmanas sunitas deslocadas internamente após o conflito com o ISIS, no norte do Iraque.
Rutledge utilizou métodos mistos: 160 questionários, 50 entrevistas e quatro grupos focais com mulheres entre 18 e 64 anos. O estudo revelou que a maioria das participantes apresentava alta religiosidade. Práticas como oração, jejum e leitura do Alcorão eram percebidas como fontes de conforto e proteção. A crença de que Deus observa e se importa com seu sofrimento esteve fortemente associada a menores níveis de sofrimento psicológico. Em contrapartida, sentir que Deus havia se afastado aumentava a angústia. A ausência de espaços adequados para oração e o apoio espiritual pouco sensível ao gênero ampliavam o sofrimento.
Costumo dizer a meus alunos de Psicologia: em contextos de sofrimento extremo, a fé não é periférica, mas central. Intervenções em saúde mental devem reconhecer e integrar crenças religiosas como parte fundamental do cuidado. Ações humanitárias precisam prever espaços seguros de oração para mulheres e o acesso a materiais religiosos. Penso que o fenômeno religioso está intrinsecamente ligado à elaboração do trauma, ao alívio da dor e à reconstrução do sentido.
Nesse contexto, destaca-se a contribuição de Samah Jabr — psiquiatra, psicoterapeuta e escritora palestina. Nascida em Jerusalém, ela desenvolveu o conceito de “psiquiatria sob ocupação” para tratar dos impactos da ocupação israelense na saúde mental do povo palestino. Em suas palavras, o conceito de sumud (صمود) — firmeza, resiliência, enraizamento — vai além da resistência individual: é prática coletiva, ação política. Derivado de As-Samad, um dos nomes de Deus no Islã (O Protetor), sumud é fé encarnada em perseverança.
Como afirma Jabr:
“Go ahead não significa apenas sobreviver ou se recuperar do trauma. É desafiar, de forma contínua, a opressão e a ocupação. Sumud não é um traço nato, mas um conjunto de habilidades e hábitos que podem ser aprendidos”.
Ela compara esse espírito à oliveira palestina — profundamente enraizada, símbolo de resistência, cultura e memória. No livro Sumud em Tempos de Genocídio, Jabr destaca que muitas mulheres palestinas que sofreram violências extremas continuam a resistir não apenas como sobreviventes, mas como protagonistas da dignidade coletiva. Seu sofrimento é inseparável da ação política e da esperança compartilhada.
Para Jabr, a fé islâmica não é apenas espiritual. É força psíquica, suporte social e afirmação moral diante da injustiça. Sumud se manifesta como: ação movida pela fé; apoio comunitário e emocional; dever religioso de resistir à ocupação.
Uma reflexão importante de Samah Jabr é a crítica às estatísticas de saúde mental palestinas, especialmente aos dados sobre o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Jabr questiona a metodologia e as definições fornecidas pela Organização Mundial da Saúde. “É importante desenvolver nossos próprios padrões de saúde mental.”
Jabr é retratada no documentário de longa-metragem Beyond the Frontlines: Tales of Resistance and Resilience in Palestine (2017), da diretora francesa Alexandra Dols. O documentário fortalece sua discussão ao mostrar, de forma audiovisual, tudo o que o texto argumenta: que a fé, a comunidade e a resistência são partes integrantes da saúde mental para mulheres (e homens) sob ocupação. Ele também posiciona Samah Jabr como uma referência ética e clínica no campo da saúde mental palestina.
Jabr descreve sua prática clínica com mulheres que sofreram violências extremas: violência sexual, perda de filhos, tortura ou expulsão. Para essas pacientes, o sumud não é somente resiliência, mas a afirmação da dignidade diante de traumas profundos. Suas narrativas — embora marcadas pela dor — se conectam com a resistência coletiva.
No livro, Samah Jabr eleva as mulheres palestinas ao papel de protagonistas do sumud — guardiãs da vida, da história e da esperança coletiva. Elas praticam a resistência por meio da existência cotidiana, do amor e do luto, agindo politicamente mesmo diante dos maiores horrores.
Para ela, a fé islâmica não é apenas espiritual — é uma fonte ativa de força política, psicológica e coletiva. O sumud tem origem no nome divino as-Samad (O Protetor), e se expressa: como ação inspirada pela fé; como apoio comunitário e emocional diante do sofrimento; e como um dever religioso e moral de resistir à ocupação e injustiça.
Enquanto Kathleen Rutledge analisa o papel da fé entre mulheres deslocadas pelo ISIS no Iraque, Samah Jabr volta seu olhar para os efeitos da ocupação israelense sobre a saúde mental do povo palestino. Embora atuem em contextos distintos, ambas reconhecem a importância de compreender essas sociedades islâmicas deslocadas a partir da centralidade da religião e da coletividade.
Nessas culturas, como entre palestinos, iraquianos e iemenitas, o indivíduo não se concebe isoladamente: a identidade pessoal está profundamente entrelaçada com o pertencimento comunitário.
Pensar o sofrimento psíquico nesses contextos exige, portanto, uma abordagem que integre fé, cultura e vínculos coletivos.
Finalizo com as palavras de Samah:
“A urgência hoje está em reviver nossa humanidade moribunda, que falhou em preservar a vida dos gazenses, promover compaixão e restaurar os valores que nos definem como seres humanos. Resgatemos os restos da nossa humanidade dos escombros de Gaza”.
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