Por Guilherme Ary Plonski, professor sênior da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP e do Instituto de Estudos Avançados da USP
A Liga das Nações (referência ao nome em inglês League of Nations), ou Sociedade das Nações (o nome em francês é Societé des Nations), foi a primeira organização intergovernamental com o objetivo precípuo de manter a paz, bem como o de promover a cooperação entre as nações. Criada em 1919, logo após os horrores da Grande Guerra, a sua principal função era evitar conflitos futuros por meio da diplomacia e de negociações.
Em contraposição a esse objetivo magnânimo, desentendimentos internos estiveram presentes desde os primeiros momentos. Um desses entrechoques se referia à escolha do idioma oficial. Como indica a sua logomarca, a solução de compromisso para o intenso embate foi adotar duas línguas oficiais. Previsivelmente acabaram prevalecendo o inglês e o francês, idiomas dos países que lideraram os aliados vitoriosos.
Merece menção o debate sobre a possível adoção de um idioma auxiliar universal que não fosse peculiar a qualquer nação, ideia alvitrada por alguns membros. A proposta objetiva foi a adoção do esperanto, justificável por ser a motivação que levara à criação desse idioma artificial convergente com o propósito da Liga/Sociedade. O esperanto – que significa “aquele que tem esperança” – foi de fato gerado com o objetivo promover a paz e a cooperação globais.
O inventor da língua, o oftalmologista judeu polonês Ludwik Lejzer Zamenhof (1859-1917), crescera em Białystok, cidade que então fazia parte do Império russo em decorrência de uma das várias partições da Polônia. O seu crescimento econômico no século 19, favorecido pela malha ferroviária recém implementada, atraiu numerosos migrantes de várias proveniências, tornando-a uma cidade habitada por poloneses, russos, alemães e judeus. As barreiras linguísticas exacerbavam as tensões étnicas na cidade, o que inspirou Zamenhof a buscar transformar esse convívio conflituoso por meio da linguagem.
Na época, várias línguas naturais dominavam diferentes campos – o francês na diplomacia, o inglês na economia e no comércio e o alemão na ciência. Todavia, nenhuma língua artificial havia se destacado. Zamenhof idealizou a construção do esperanto enquanto ainda cursava o secundário. Uma década mais tarde lançou la Lingvo Internacia, com a pretensão de tornar o esperanto uma segunda língua internacional. A obra Unua Libro (“Primeiro Livro”) em que a apresentava e delineava a sua gramática e vocabulário, foi publicada sob o pseudônimo de Doktoro Esperanto, que utilizou pelo receio de ser reprimido pela já então temida polícia russa. O pseudônimo caiu nas graças dos adeptos iniciais, tornando-se o nome do idioma.
O esperanto se disseminou rapidamente. Quando da fundação da Liga/Sociedade das Nações, ativistas esperantistas estavam presentes em toda parte. Na esperança de facilitar o diálogo pela paz mundial, organizações e indivíduos contataram a nova entidade, apontando para a oportunidade de incorporar e valorizar o esperanto. A organização intergovernamental considerou adotá-la como idioma de trabalho e encorajar ativamente o seu uso como instrumento, ao mesmo tempo simbólico e concreto, de avanço na missão para a qual fora concebida.
A moção de utilização do esperanto como idioma auxiliar da Liga/Sociedade não prosperou. Uma proposta para introduzi-lo em escolas públicas nas nações-membro recebeu relatório favorável e, votada, foi aceita. A oposição mais estridente a qualquer forma de reconhecimento do esperanto veio do delegado de França, com base no argumento de que ele era desnecessário, uma vez que o francês já era a língua internacional.
A Liga/Sociedade das Nações enfrentou desafios significativos ao longo de sua existência, como a não adesão de potências importantes, entre elas os Estados Unidos. Registraram-se alguns casos de êxito. Por exemplo, após meses de negociações diplomáticas, os governos da Colômbia e do Peru aceitaram a mediação da entidade para resolver seu conflito de fronteiras. Após um acordo de paz provisório, durante o qual a Liga/Sociedade assumiu o controle do território disputado enquanto as negociações bilaterais prosseguiam, acabou sendo assinado um acordo de paz final, resultando no retorno da cidade de Letícia à Colômbia, um pedido formal de desculpas do Peru, a desmilitarização da área ao redor daquela localidade, a livre navegação nos rios Amazonas e Putumayo e um compromisso de não agressão.
Em contrapartida, sucessivos fiascos se sucederam na década de 1930, tanto os localizados, entre os quais a agressão da Itália à então Abissínia, como os globais, como a malograda Conferência Mundial de Desarmamento, realizada em Genebra entre 1932 e 1934. A incapacidade de impedir a escalada das tensões que levaram à Segunda Guerra Mundial, que foi o seu fracasso mais gritante, levou à liquidação da Liga/Sociedade em 1946, após um período de inoperância quando mais era necessária para evitar o morticínio de um número estimado entre 50 e 100 milhões de seres humanos.
Embora a Liga/Sociedade das Nações tenha se mostrado ineficaz na manutenção da paz e da segurança internacionais, a maior parte das nações aliadas compreendeu que deveria haver algum tipo de organização capaz de supervisionar as relações entre os estados nacionais, bem como de preservar a paz após a finalização da conflagração mundial em que estavam envolvidos. Em 1942, 26 nações em guerra com as potências do chamado Eixo subscreveram um programa comum de propósitos e princípios, em que baseavam suas esperanças por um futuro melhor para o mundo. Esse documento conhecido como a Declaração das Nações Unidas, recebeu posteriormente a adesão de mais 21 nações.
Diversas reuniões realizadas em 1943 e 1944 entre dirigentes ou representantes dos três países que lideravam as potências aliadas pavimentaram o caminho para a implementação de “uma organização internacional geral, baseada no princípio da igualdade soberana de todos os Estados amantes da paz e aberta à adesão de todos esses Estados, grandes e pequenos, para a manutenção da paz e da segurança internacionais”. Como resultado, em 1945, há exatos 80 anos, foi assinada a Carta das Nações Unidas, elaborada pelos representantes de 50 países presentes à conferência fundacional realizada em São Francisco, nos Estados Unidos.
Quando essa conferência estava sendo preparada, surgiu novamente a questão do(s) idioma(s). No período entreguerras, as línguas francas nas relações internacionais eram o inglês e o francês. Propostas ousadas, como a adoção do esperanto como língua auxiliar, foram analisadas e novamente descartadas. Vários países demandavam a presença das suas línguas pátrias, entre eles a União Soviética, a China e países da América Latina, bloco que constituía cerca de um terço dos membros iniciais.
Combinando sensibilidade com praticidade, gerou-se uma solução que definia dois tipos de línguas para a futura entidade, as línguas oficiais e as operacionais. O francês foi inicialmente escanteado, pois a França, ocupada pelos nazistas e com um reduzido governo no exílio em Londres, não participara da trajetória que levou à constituição da Organização das Nações Unidas (ONU). Após apelo emocional à tradição secular do francês como a língua da diplomacia e na sequência de extensos debates, o francês escapou por um triz de ser relegado. Tornou-se uma das línguas oficiais e, também, uma das duas operacionais, sendo a outra o inglês, que paulatinamente se tornaria o idioma primus inter pares.
A questão linguística não terminou aí. Aos cinco idiomas oficiais originais (inglês, francês, russo, espanhol e chinês) foi acrescentado o árabe em 1973. Ao longo dos dez anos seguintes, em resposta a pressões das nações respectivas, as quatro demais línguas oficiais se tornaram também idiomas operacionais, formalmente a par do inglês e do francês. Neste século, surgiu um movimento propugnando a adoção de mais idiomas oficiais ou, pelo menos, a criação da categoria de línguas semioficiais, definidas como as que contam com pelo menos 50 milhões de falantes.
Esse movimento não prosperou, em grande medida pela razão prosaica da carência de recursos financeiros para sua implementação. Cabe observar que, como condição para inclusão do árabe como língua oficial, as nações proponentes custearam a tradução durante os anos iniciais, mais além de suas contribuições de membros.
Como compensação e para favorecer o multilinguismo, em 2022 a Assembleia Geral decidiu incentivar as organizações do sistema das Nações Unidas a disseminarem comunicações e mensagens importantes também em idiomas não oficiais, como o bengali, hindi, persa, português, suaíli e urdu. Essa medida ecoava a natimorta proposta de adoção de idiomas semioficiais.
Compreendendo a dimensão política e o valor simbólico envolvidos, cabe questionar a razoabilidade da recorrente questão dos idiomas nos organismos intergovernamentais. Especialmente porque a ideia fixa de ampliar o seu número tem se mostrado ser insensível às premências institucionais. Entre elas sobressai a necessidade de reverter a preocupante redução da credibilidade da ONU, decorrente do hiato entre as expectativas que levaram ao seu estabelecimento e os resultados efetivos alcançados na preservação da paz mundial.
O capital reputacional da Organização também vem sendo afetado negativamente por sucessivos faux pas. Infelizmente, essa importantíssima entidade tem se mostrado sistematicamente incapaz de manter a conformidade de suas práticas aos valores excelsos que presidiram a sua criação. É ilustração recente da não conformidade a bizarra atribuição da presidência do Fórum Social do Conselho dos Direitos Humanos da ONU ao representante de uma nação-membro cujo regime é notoriamente um dos maiores violadores de direitos das mulheres, ao mesmo tempo em que pune a homossexualidade com penas severas que incluem a de morte, além de perseguir brutalmente minorias políticas, étnicas e religiosas.
A reiterada incapacidade de evitar, mediar ou ao menos mitigar conflitos regionais sangrentos, como os que estão acontecendo na África, na Europa e no Oriente Médio, evoca tristes lembranças da inocuidade da Liga/Sociedade das Nações. Em 20 de abril de 1946, quando deixou de existir, todos os ativos dessa entidade foram repassados às Nações Unidas, sendo concedido ao novo Secretariado da ONU o controle total de sua biblioteca e arquivos. Aparentemente acabaram sendo transferidos também alguns traços disfuncionais, como o verbalismo e o discurso performativo falso, testemunhado pela existência de 40 mil resoluções e decisões da ONU, assim com a “reunionite” e o gosto por relatórios esmerados, mas pouco lidos e menos ainda utilizados.
Essa situação é conhecida e reconhecida pela administração da entidade. Relatório divulgado pelo Secretário-Geral ao tempo em que este artigo estava sendo escrito informa que, apenas em 2024, foram realizadas 2.700 reuniões, envolvendo 240 órgãos. Foram produzidos pelo Secretariado 1.100 relatórios, com textos em média 40% maiores do que há 20 anos. Um em cada cinco foi baixado menos de mil vezes, fazendo o Secretário questão de lembrar que “baixar um arquivo não significa necessariamente que o seu conteúdo é lido”.
O impacto da aluvião de palavras faladas e escritas sobre o instável orçamento das Nações Unidas é expressivo, o que levou o Secretário a declarar publicamente que “Reuniões e relatórios são essenciais. Mas precisamos nos perguntar: estamos usando nossos recursos limitados da maneira mais eficaz”?
A exposição circunstanciada dessas anomalias organizacionais omite um fator oneroso, que é o custo derivado da multiplicidade de línguas oficiais e operacionais. Esses gastos recorrentes podem ser atenuados pela utilização de mecanismos automatizados de tradução, que já alcançam qualidade aceitável e estão disponíveis para cerca de 250 idiomas (inclusive o esperanto). Um dos principais provedores tem como meta chegar a mil idiomas, o que tornaria a ONU e suas produções acessíveis a segmentos amplos da população mundial. Isso também facilitaria o atendimento da compreensível demanda de reconhecimento de múltiplas culturas, feita por nações não contempladas pelos rígidos arranjos políticos vigentes desde os primórdios da entidade.
Apesar dos esforços para garantir clareza, as resoluções da ONU enfrentam problemas de precisão devido às complexidades do multilinguismo, que são inerentes às diferenças linguísticas e culturais. Exemplo é a tradução dos termos shall, should e may do idioma inglês, que na linguagem jurídica e diplomática carregam significados específicos. No entanto, suas nuanças podem se perder na tradução, levando a interpretações errôneas quanto à obrigação ou permissibilidade de ações. Uma resolução pode usar a palavra shall para indicar uma ação obrigatória, mas em outro idioma ela pode ser entendida como indicação meramente sugestiva.
O risco de imprecisão é exacerbado no contexto das pressões associadas aos processos de negociação, quando por vezes se recorre a formulações ambíguas que permitam superar impasses, na ânsia de chegar a uma redação de compromisso capaz de avivar as esperanças de que a solução de um conflito está ao alcance. O uso de linguagem ambígua pode levar a interpretações diferentes, apesar do esforço de editores qualificados para manter um significado consistente nos seis idiomas oficiais. Isso pode ter consequências na forma como os Estados-membros entendem e implementam as resoluções, especialmente em casos politicamente delicados, assim alimentando novas refregas adiante.
Esse é o caso da Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU, adotada em 1967, que é conhecida por sua ambiguidade linguística no que se refere à retirada de Israel de “territórios ocupados”. Essa ambiguidade permitiu diferentes interpretações, gerando controvérsias e impasses nas negociações de paz na região. A versão em inglês da resolução usa a expressão “territories occupied“, enquanto a versão em francês, considerada igualmente autêntica, usa “des territoires occupés“, que se traduz como “os territórios ocupados“. Essa diferença sutil, com a inclusão do artigo definido “os”, implica que a versão francesa exigiria a retirada de todas as áreas ocupadas, enquanto a versão em inglês permitiria uma interpretação mais flexível.
A limitação da conversação internacional a poucos idiomas, nos tempos presentes apenas um, pode fazer sentido prático, mas acarreta perda da diversidade cultural, o que tem repercussões amplas. Ela é particularmente sentida quando se trata da retração de um idioma requintado, como o alemão, que era a língua franca da ciência até a mutilação do exemplar sistema acadêmico daquele país pelo regime nacional-socialista. Em que pese a sua riqueza singular, esse idioma nem chegou a ser cogitado, quer na falecida Liga/Sociedade das Nações como na atual ONU, uma vez que a Alemanha foi a perdedora nas duas guerras mundiais que ensejaram a criação dessas organizações intergovernamentais.
Podemos aquilatar a magnitude da perda a partir de uma observação surgida em um dos painéis da edição mais recente da Escola de Diplomacia Científica e da Inovação, realizada em agosto de 2025 pela USP, em parceria com o Einstein Hospital Israelita. Desde a edição pioneira da InnSciD, acrônimo derivado do seu nome em inglês Innovation and Science Diplomacy School, viabilizada pela Fapesp no âmbito do programa de Escolas de Ciência Avançada, todas as atividades são desenvolvidas em inglês, sem tradução, por se tratar de grupo em que metade de participantes provêm do exterior.
Um dos palestrantes, que acompanha e estimula a InnSciD desde os primeiros momentos, foi um respeitado diplomata brasileiro que atuou como chefe da divisão de ciência e tecnologia do Itamaraty e assessorou o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Em sua palestra, mencionou a ênfase dos investimentos educacionais avançados de alguns países no que hoje é conhecido por STEM, acrônimo em inglês de Science, Technology, Engineering and Mathematics. Ressaltando a relevância desses campos do saber para a competitividade das nações, expôs preocupação com a sua presença relativamente menor na formação de doutores no Brasil em comparação a áreas como Humanidades e Ciências Sociais – formação avançada que ele mesmo teve na USP.
Esse aparente descompasso pode ser reavaliado ao observar a crescente articulação entre áreas do saber diversas – por exemplo, nas chamadas Humanidades Digitais. A propósito, o Instituto de Estudos Avançados da USP tem, há dez anos, um grupo de estudos em Cultura e Humanidades Computacionais, já pensando na Computação Quântica pós-digital. Também chama a atenção o crescimento extraordinário da proporção de títulos de mestrado e de doutorado concedidos no Brasil nas últimas três décadas na área cognominada de “Multidisciplinar” pela Capes. A compreensão desses fenômenos de interpenetração entre áreas “duras” e “suaves” se torna natural quando utilizamos, ao invés de Science, o vocábulo alemão Wissenschaft.
O que exatamente significa Wissenchaft? Ela é uma palavra composta, como sói acontecer no alemão, de Wissen e schaffen. A tradução de Wissen ao inglês é knowledge, e ao português é “saber” ou “conhecimento”. Por sua vez, a tradução de schaffen pode variar, dependendo do contexto, significando tipicamente “criar”, “produzir”, “conseguir”, “fazer” ou “estabelecer”.
E qual a diferença significativa da Wissenschaft com relação ao termo consagrado em numerosos idiomas – Science, Ciência, Scienza, Scientia – como está, em latim, no brasão da USP? Ciência refere-se habitualmente a disciplinas que se baseiam na observação sistemática e na experimentação, utilizando o método científico para desenvolver explicações e previsões testáveis. Já Wissenschaft se refere à busca sistemática de conhecimento em todas as disciplinas acadêmicas, abrangendo tanto as ciências naturais como as ciências sociais e, igualmente, as humanidades.
Essa palavra caracteriza a pesquisa que produz conhecimento bem fundamentado, ordenado e considerado certo em uma determinada área, qualquer que seja.
Qual seria a tradução de Wissenschaft ao inglês e ao português? Há uma interessante literatura acadêmica sobre essa traduzibilidade, que caracteriza um período em que ambos os termos Wissenschaft e Science eram intercambiáveis. Também propõe uma explicação do porquê eles se diferenciaram a partir de meados do século 19, como parte dos vigorosos confrontos intelectuais e geopolíticos entre a Inglaterra e a Alemanha. Esses confrontos, vale lembrar, se tornaram bélicos no século 20.
Uma interpretação alternativa à Science associa Wissenschaft ao inglês scholarship, vocábulo de difícil equivalência no português – geralmente é traduzido por “bolsa de estudos”, mas que no caso significa “o estudo”. Na prática, acaba se utilizando o termo no original alemão, mesmo em textos redigidos em outros idiomas.
A incorporação desse descritor na jovem especialidade diplomática configuraria então a Wissenschaft Diplomacy, ou Diplomacia da Wissenschaft. Essa ampliação integrativa aumentaria a latitude da Diplomacia Científica e contribuiria para uma atuação dos seus agentes mais consistente com os grandes e urgentes desafios da sociedade, que precisam da confluência de saberes diversos para sua superação. Para os puristas, que tendem a torcer o nariz frente a expressões bilíngues, cabe lembrar que a expressão Engenharia de Software está consolidada, sem registros recentes de protestos.
Mais além das divergências linguísticas, cabe destacar um desafio crucial contemporâneo do gênero humano. Este artigo é escrito quando se comemora o 80º aniversário não apenas da Carta de São Francisco, que estabeleceu a ONU, como também do lançamento das duas bombas atômicas. Que a memória das milhões de vítimas ilumine os caminhos dos atuais e futuros agentes, quer da Science como da Wissenschaft (ou termos afins em outros idiomas), para evitar o ressurgimento de enfrentamentos que, em duas guerras mundiais ao longo do século passado, colocaram seus conhecimentos sofisticados a serviço da destruição.
Como contraponto, ecoa o espírito do mais que centenário esperanto uma expressão utilizada há poucos dias na fala de abertura de evento magno pelo presidente da Academia de Ciências e Humanidades de Israel – a propósito, denominação que reflete o conceito abrangente da Wissenchaft mesmo sem utilizar o termo alemão. Ao saudar o conferencista, historiador que dirige o pioneiro Instituto de Estudo Avançados de Princeton, no qual atuaram e atuam intelectuais do porte de Albert Einstein, conclamou o anfitrião, que é eminente cientista da computação, a que os/as circunstantes nutram uma “esperança baseada no conhecimento (knowledge-based hope): a expectativa de que uma compreensão mais profunda do passado – o nosso e o dos outros – abra novas possibilidades para o futuro”.
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