terça-feira, março 17, 2026
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Do perigo da criança usuária das redes sociais se transformar amanhã no empresário que matou o gari – Jornal da USP


Os influencers mirins foram aliciados para outro gênero de pornografia, que é a obscenidade moral, o desprezo por qualquer valor que não seja grana e famosidade instantânea

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Em sua coluna desta semana, Marília Fiorillo deixa de lado os temas internacionais para abrir espaço a dois assuntos nacionais que ganharam repercussão na imprensa. São dois episódios recentes, que ela considera igualmente asquerosos e repugnantes, e que, aparentemente sem conexão um com o outro, alertam para a mesma ameaça. “O galã marombado e vigarista que assassinou em BH o gari Laudemir de Souza Fernandes, e o galã depois entrou no carro de polícia na boa, sem algemas, comparado à denúncia viralizada pelo youtuber Felca do oceano de pedófilos que há nas redes sociais e da facilidade algorítmica de se conectar a qualquer uma dessas redes são uma e a mesma coisa. Não vamos nos deter na necessidade urgentíssima de regulamentar e até mesmo proibir aquelas big techs que zombam da gente e desprezam a lei. Também não vamos repetir que o abuso sexual infantil acontece na maior parte das vezes dentro de casa e o criminoso é um parente próximo, ou que os pais e as mães alugam, quando não vendem os seus próprios filhos para pervertidos. Ou, ainda, que tornou-se uma temeridade para a gente postar fotos inocentes da garotada brincando na piscina ou à beira do rio.”

“Há países que proíbem que um estranho fotografe criança, a não ser com a anuência explícita dos responsáveis. Mas o ponto nevrálgico aqui é a permissividade ou condescendência com o uso compulsivo de celulares por crianças e adolescentes. Deixar um garoto colado ao celular, ao computador, oito, dez horas por dia, é como largá-lo sozinho numa quebrada de drogados. Enfim, caiu a ficha. Graças ao youtuber, melhor, ao cidadão Felca. Os predadores virtuais estão tão ou mais nefandos que o pedófilo em carne e osso. E o uso das redes sociais é um problema de saúde pública. Além do horror do abuso sexual infantil, o vídeo de Felca mostra, bem no início, outro crime pavoroso que não tem sido tão comentado. Crianças de 9 e de 10 anos macaqueando o discurso do empreendedorismo, convencidos de que sucesso na vida é exclusivamente fazer dinheiro e a escola só atrapalha; ‘se entra um ladrão em minha casa e eu gritar Aristóteles, ele não vai embora’, esclarece um dos meninos; a grana resolve tudo e tudo determina.”

“Não há como deixar de ver o quão mórbido é o modo da criançada enxergar a vida e o mundo. Em cada um deles está germinando a mesma personalidade daquele galã que matou o gari porque podia. A personalidade que humilha os vulneráveis, espanca mulher e cospe nos pobres. Os influencers mirins foram aliciados também para outro gênero de pornografia, além da sexual, que é a obscenidade moral. Isto é, o desprezo por qualquer valor que não seja grana e famosidade instantânea. Por enquanto, são vítimas, fantoches, adultizados do novo normal. Amanhã serão os aliciadores. Se não houver um basta draconiano às plataformas digitais, estaremos formando e fomentando uma geração inteira de sociopatas.”


Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar quinzenalmente sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.

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