Nesse sentido, para combater o silenciamento e a marginalização de epistemologias não ocidentais são necessárias mudanças estruturais. Para a professora, a transformação se dá por meio de mudanças pedagógicas e curriculares, e principalmente pelo diálogo, com a inclusão das comunidades originárias no contexto universitário. “Esses corpos não foram pensados como corpos possíveis de produção de conhecimento. Há ainda uma luta que o movimento negro, quilombola, os movimentos indígenas empreendem para que essas experiências, esses saberes consigam atravessar de fato e de forma positiva os espaços de saberes, a universidade, as escolas.”
Mille aponta também a necessidade desse processo no ensino básico e médio, com a inclusão de cosmopercepções indígenas e quilombolas nas licenciaturas – para a formação de professores preparados para a transmissão desse conhecimento – e diretamente nas realidades escolares: “Esses professores vão concluir suas formações e vão retornar para a educação pública. Dentro do contexto da escola, eles vão pegar uma diversidade muito grande: crianças negras, indígenas, de religiões de matriz africana, então é importante que essas discussões já façam parte da formação desses professores, dessas professoras que estão nos cursos de licenciatura”.
Para exemplificar aspectos importantes das culturas originárias e tradicionais a serem ensinados, ela traz a profunda conexão com o meio ambiente e a diferente forma como essas comunidades encaram a relação homem-natureza. Num contexto de avanço das discussões sobre educação e preservação ambiental, a professora aponta que essas populações conseguem viver o tempo inteiro essa ancestralidade, potência de vida e valorização do que é o meio ambiente: “Porque não é somente uma árvore, não é somente um rio, é um ancestral vivo”. Contudo, ela vai além e aponta a necessidade de inclusão dessas perspectivas não apenas nas ciências humanas, mas de maneira interdisciplinar. Assim, o debate sobre legislação educacional entra em pauta, com enfoque na Lei nº 11.645/2008, que torna obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas. Para Mille, embora a lei preveja um foco nas ciências humanas, sua aplicação deve ser efetivada em todas as disciplinas do currículo escolar. “Isso pode ser feito por meio de exemplos históricos, estudos de caso ou análises de práticas científicas que têm raízes ou influências tanto africanas quanto afrodiaspóricas e indígenas. Há uma necessidade de uma revisão crítica de conteúdos”, afirma.


