terça-feira, março 17, 2026
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A ciência pela história, episódio 17 – As mulheres atômicas – Jornal da USP


Por Gildo Magalhães, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP

O lugar da mulher é na cozinha?

Responderemos após rever uma parte essencial da ciência, feita essencialmente a partir do século 20.

Em 1934, a imprensa mundial registrou com alarde que o físico italiano Enrico Fermi (1901-1954) tinha produzido em laboratório novos elementos químicos ainda desconhecidos, bombardeando átomos, principalmente de tório e urânio, que são radioativos e possuidores dos mais pesados núcleos existentes. A surpreendente notícia implicava a descoberta de elementos superpesados, que viriam depois do urânio na tabela periódica da química, e que ocupava até então o 92º e último lugar.

Fermi publicou suas conclusões na prestigiosa revista Nature, mas logo em seguida recebeu cópia de outro artigo publicado em alemão por uma jovem química, que contestava veementemente seus resultados. Segundo ela, havia muitos problemas na análise feita por Fermi, que não permitiriam concordar com nenhuma das suas conclusões. Depois de enumerar vários erros de química desabonadores para Fermi, ela terminava seu artigo com uma hipótese audaciosa – o que Fermi tinha conseguido era outra coisa: a fissão nuclear, ou seja, a quebra de núcleos pesados, subdivididos em núcleos mais leves.

A jovem química era Ida Noddack (1896-1978), casada com outro químico, Walter Noddack (1893-1960). O casal alemão tinha profundos conhecimentos das propriedades dos elementos químicos e, ao contrário de outros colegas, acreditava que nos agrupamentos desses elementos em colunas da tabela periódica há mudanças contínuas de propriedades em comum, mas também há mudanças bruscas dentro da mesma coluna. Escapando da ortodoxia vigente, o casal partiu dessas mudanças descontínuas e trabalhou arduamente em laboratório, tendo finalmente publicado, em 1925, sua descoberta histórica de dois novos elementos químicos da tabela, a que denominaram de rênio (elemento 43) e masúrio (elemento 75, depois rebatizado de tecnécio, em meio a muita celeuma negando o reconhecimento desta descoberta pelo casal).

Houve muitas tentativas de desacreditar como um todo o trabalho do casal Noddack, que, entretanto, foi indicado por essas descobertas para o Prêmio Nobel por três vezes. Especialmente visada nas campanhas contra o mérito desses resultados, devido à sua língua afiada, Ida fez outras contribuições científicas notáveis, como seus trabalhos sobre a distribuição dos elementos químicos no Universo, mas pouco se fala a seu respeito na história da ciência, da mesma forma que a participação feminina em muitas áreas de conhecimento tem sido deixada no esquecimento.

Em 1938, os físicos alemães Otto Hahn (1879-1968) e Fritz Strassmann (1902-1980) realizaram experiências decisivas, que foram consideradas como comprovantes da hipótese de Ida Noddack, de fissão nuclear. Entre outras consequências, a fissão nuclear seria a base para a futura construção tanto da chamada bomba atômica quanto das centrais de geração elétrica hoje em uso pelo planeta.

Hahn apresentou seus resultados sobre a possibilidade de fissão nuclear em seminários da Universidade de Berlim, em que participou Walter Noddack, que chegou a questionar Hahn sobre qual seria o motivo dele não citar o artigo de 1935 de Ida, que justamente poderia dar força à ideia de fissão nuclear. Hahn respondeu: “Caro colega, não quero ridicularizar a sua esposa”. Naquela época, isso tinha a conotação machista de que uma mulher não pode ser uma cientista confiável, e era compatível com a mentalidade geral e, mais acentuadamente, com a ideologia endossada pelo partido nazista, de que a mulher não tinha a possibilidade de se igualar intelectualmente ao homem, devendo se dedicar à geração de filhos e às tarefas domésticas.

O curioso é que Fermi, que deu tantas contribuições reconhecidamente notáveis para a física nuclear, recebeu em 1938 seu Prêmio Nobel de Física, exatamente pela suposta (e, como vimos, errônea) descoberta de elementos transurânicos, uma demonstração de que em premiações a política pode falar mais alto do que os méritos. Só bem depois, em 1966, Otto Hahn se arrependeu e reconheceu numa entrevista de rádio que Ida Noddack tinha razão.

Em 1944, no auge da Segunda Guerra Mundial, Otto Hahn foi aquinhoado com o Prêmio Nobel de Química, sem dividi-lo com Fritz Strassmann nem com a assistente que mais colaborara com ele para a confirmação da fissão nuclear, a física austríaca Lise Meitner (1878-1968). Quando Lise foi para Berlim ser assistente de Hahn, por ser mulher não tinha permissão para frequentar as aulas de química, o que ela só conseguiu se escondendo atrás dos tablados de madeira da sala de aula. Em 1918, ela e Hahn anunciaram a descoberta do elemento 91 da tabela periódica, o protactínio.

A misoginia em relação à pesquisa atômica não incidiu apenas nos casos citados, de Ida Noddack e Lise Meitner. Pode-se argumentar com muitos outros exemplos que a presença feminina foi essencial em toda a história da energia nuclear, a começar de uma pioneira, esta sim bem famosa, a polonesa Marie Sklodovska-Curie (1867-1934). Após Marie emigrar para a França, ela e o marido Pierre Curie (1859-1906) se dedicaram à pesquisa da radioatividade, obtendo, entre outros resultados notáveis, a descoberta dos elementos químicos rádio (número 88 da tabela periódica) e polônio (número 84), pelo que ela ganhou o Prêmio Nobel de Química em 1903, junto com o marido Pierre Curie e Henri Becquerel. Mesmo com sua fama, que se irradiava mundialmente, ela não escapou da insídia, manifesta nas acusações após a morte de Pierre, de que tinha como amante o físico Paul Langevin, assunto que causou grande amargura e desgaste para ambos, depois cabalmente desmentido como intriga.

A França vivia ainda o trauma das falsas acusações de traição à pátria do caso Dreyfus, que fora intensificado pelo forte antissemitismo vigente. Marie Curie foi igualmente vilipendiada por ser judia, outra “acusação” sem fundamento algum. Tampouco ficou livre da inveja acadêmica, que insinuava não serem de Marie os trabalhos relevantes, mas sim de seu esposo Pierre, que seria o mentor intelectual das descobertas e para quem deveriam ser dirigidos os louros. As vozes dissonantes foram pelo menos temporariamente caladas quando Marie ganhou sozinha o Prêmio Nobel em 1911, desta vez em Química, pelas suas pesquisas com elementos radioativos, sendo até hoje a única pessoa a ganhar dois prêmios Nobel em áreas científicas. Além de suas contribuições científicas, durante a Primeira Guerra Mundial Marie inaugurou um serviço radiológico móvel, com o uso inovador de raios X em ambulâncias, as chamadas petites Curies, uma das quais ela mesma dirigia.

As alunas de Marie Curie foram chamadas de “filhas do rádio” e são numerosas, todas contribuindo para o desenvolvimento acelerado da física nuclear, como a física francesa Marguerite Perey (1909-1975), que descobriu o último dos elementos naturais da tabela periódica, o frâncio, que ocupa o 87º lugar. Com isso, ela foi admitida na Academia de Ciências de Paris, honraria anteriormente negada à própria Marie Curie, basicamente por ser mulher. Naturalmente passaram pelo Instituto do Rádio, fundado por Marie em Paris, também homens que com ela estudaram e que viriam a ser cientistas de grande mérito, como o biogeoquímico soviético Vladimir Vernadsky e o paleontólogo francês Pierre Teilhard de Chardin.

Nessa lista de “filhas do rádio” não falta o nome da filha de Marie e Pierre, Irène Joliot-Curie (1897-1956), que, com seu marido Frédéric Joliot-Curie (1900-1958 – e sim, ele acrescentou ao seu o sobrenome Curie da esposa, do qual sentia orgulho), realizou o velho sonho alquimista de transformar um elemento químico em outro, pela síntese artificial de novos materiais radioativos, o que lhes valeu o Prêmio Nobel de Química em 1935. Esta descoberta logo possibilitou a obtenção de fármacos radioativos de forma rápida e barata, no campo que se tornaria cada vez mais importante da medicina nuclear.

A lista de mulheres envolvidas com a pesquisa atômica e que deram contribuições substanciais é muito grande. Para citar apenas mais algumas pioneiras, temos a química norueguesa Ellen Gleditsch (1879-1968) e a física norte-americana Fanny Gates (1872-1931). Como temos insistido, os grandes nomes são importantes, mas não nos devemos esquecer que a ciência é um trabalho essencialmente coletivo, e muitos nomes ainda precisam ser recuperados pela história da ciência para uma melhor apreciação de como se desenvolveram descobertas e aplicações fundamentais. A existência de prêmios atribuídos apenas a mulheres vem atestando cada vez mais a contribuição científica feminina. Cada premiação tem seu valor, mas a ocupação cotidiana de lugares em todos os níveis na vida social e econômica das nações prescinde de honrarias, tendo havido também um relativo progresso na equiparação salarial, embora a igualdade ainda exija um longo caminho pela frente.

O lugar das mulheres é na cozinha? Certamente, tanto quanto o dos homens o é, ainda mais por ser a. No caso específico da ciência nuclear, o lugar das mulheres na “cozinha atômica” dos elementos químicos e seus isótopos se revelou tão importante que, sem elas, seria difícil termos chegado aos resultados fantásticos hoje conhecidos.

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(As opiniões expressas pelos articulistas do Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)



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