A produção científica mundial sobre saúde do solo cresceu significativamente na última década, com 52% dos artigos publicados nos últimos cinco anos e 74% nos últimos 10 anos. Apesar da alta produtividade, o campo é considerado emergente desde a década de 2010, com conceitos e metodologias ainda passando por revisão.
Se de um lado a ciência demanda tempo, de outro a busca por soluções exige pressa: tanto para minimizar crises ambientais agravadas pelas mudanças climáticas, quanto para conciliar a produção agrícola com a proteção ambiental. Mas as regiões indicadas como pontos cegos pela pesquisa são ainda mais delicadas, por estarem localizadas nos trópicos.
“Na América Central e do Sul, África, Sudeste Asiático e Oriente Médio, a temperatura aumentará significativamente, e com isso, haverá um aumento dos eventos extremos, por exemplo, estiagens mais prolongadas e intensas, enxurradas com maior potencial erosivo e ondas de calor”, explica Cherubin.
O pesquisador aponta para a sobreposição de vulnerabilidades, por se tratarem de regiões com países pobres e de menor estabilidade política. Nesse ritmo, ele acredita que estas regiões terão cada vez menos capacidade de investimento para desenvolver e implementar estratégias de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Para o agrônomo, a restauração da saúde do solo depende de pesquisas que dêem sustentação científica aos países mais afetados.
“A falta de ciência de saúde do solo é um agravante, pois solos mais degradados tornam-se mais vulneráveis, gerando reduções na produtividade. E solos que produzem menos aceleram a degradação, criando-se um ciclo vicioso e difícil de reverter” – Maurício Cherubin
Com Estados Unidos e China liderando a produção científica e as citações, o estudo sobre a saúde do solo pode gerar dados genéricos e aplicações inadequadas para as realidades locais. É o caso de Brasil e Indonésia, que se destacam com as maiores taxas de desmatamento, mas figuram em 4º e 19º lugar, respectivamente, na lista de países ranqueados por produção científica. Para além da posição, os países também podem estar mais ou menos vulneráveis à erosão, à perda de biodiversidade e mudanças climáticas.
“Soluções adaptadas às regiões mais vulneráveis dependem de lideranças de pesquisas locais, capazes de encontrar quais as melhores práticas de manejo da saúde do solo. A simples transferência de conhecimento e tecnologias de outras regiões, normalmente países da Europa ou Estados Unidos, é um processo mais lento e, na maior parte dos casos, pouco efetivo”, afirma o pesquisador.
Ao analisar as publicações e redes de conexões entre autores, o estudo criou ainda uma lista de autores mais produtivos na área. No top-5 dos pesquisadores mais produtivos do mundo estão Rattan Lal (Universidade de Ohio), Douglas Karlen (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), Maurício Roberto Cherubin (Esalq/USP), Davey Jones (Universidade de Bangor) e Carlos Garbisu (Instituto Vasco de Investigação e Desenvolvimento Agrário). A lista completa do top-100 pesquisadores está disponível neste link.
“Ser listado como um dos cientistas mais produtivos da área é motivo de orgulho, pois demonstra claramente a alta capacidade científica que temos em nosso grupo de pesquisa, e também reforça para a comunidade internacional que o Brasil é um polo de ciência em saúde do solo”, afirma Cherubin.
Tanto ele quanto os demais autores do estudo destacam a necessidade de fortalecer as lideranças locais e promover oportunidade para que novas lideranças científicas surjam nas regiões menos representadas.



