terça-feira, março 17, 2026
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Desmenti o tornozelo (e não foi na conversa) – Jornal da USP


A mentira do pé e outras verdades da padaria

Não foi num consultório médico nem num congresso de linguística que ouvimos, pela primeira vez, “desmentir” no sentido de torcer ou luxar uma parte do corpo. A descoberta aconteceu numa padaria de São Paulo, daquelas que acordam cedo, perfumam a rua com pão francês saindo do forno e servem café passado na hora, enquanto o papo flui tão livre quanto o açúcar que escapa da colher e cai sobre o balcão.

Um dos articulistas destas linhas contava que a filha havia sofrido uma entorse no tornozelo e precisou ser imobilizada. O copeiro, Andrey de Lima Silva – pernambucano da cidade de Panelas, craque em equilibrar bandejas e bons comentários – parou, olhou com genuíno espanto e mandou, sem titubear:

– Poxa, professor, sua filha desmentiu o pé?

Entre fornadas e xícaras tilintando, o balcão virou laboratório de linguística. Ali, diante de um “desmentir” aplicado ao corpo, revelava-se uma pequena joia da língua popular, tão saborosa quanto o pão quentinho que acompanhava a conversa.

Panelas, onde a língua cozinha devagar

É sabido que as regiões interioranas da Bahia e de Pernambuco são como arcas antigas, onde se preservam, intactos, tesouros do português de outrora. No vaivém das feiras, no murmúrio das conversas de calçada e no sotaque que afeiçoa cada sílaba, sobrevivem modos de dizer que, nas capitais, já se recolheram à memória – formas que resistem, como se o tempo ali caminhasse mais devagar.

Panelas, no Agreste pernambucano, é um exemplo desses lugares. Ali, pelo visto, certos usos linguísticos que, nas grandes cidades, se perderam ou se transformaram, continuam a circular no dia a dia, sem pressa de desaparecer. É o caso do verbo desmentir, já registrado no Vocabulário portuguez e latino (1712-1728) de Raphael Bluteau. Na entrada para o verbo desmentir, Bluteau atestava: “Desmanchar, desmentir hum pé. Pedem luxare (o, avi, atum) Plin.”, indicando o latim luxare, “deslocar, torcer”. Mesmo nosso contemporâneo Dicionário Houaiss, ao registrar essa acepção, indica se tratar de um uso “antigo” que, contudo, sobreviveria nas regiões Norte e Nordeste do Brasil.

Quando o pé falta com a verdade

O uso de desmentir com o sentido de “torcer” ou “luxar” uma parte do corpo, como em “desmentiu o pé”, parece ter se firmado por um deslizamento semântico guiado pela metáfora. Originalmente, o verbo remete ao ato de negar ou contrariar uma afirmação – desfazer uma mentira, corrigir algo dito de forma errada –, e também, segundo uma das acepções presentes no Houaiss, pode significar “[…] destoar, diferir, desarmonizar ‹a expressão dos olhos desmentia o que os lábios diziam› […]”.

Partindo desses significados, quando aplicado ao corpo, o que se observa é uma reinterpretação expressiva: o tornozelo, ao se deslocar, ao sair de sua posição esperada, “desmente” a ordem natural das coisas e “contraria” a funcionalidade esperada. Tal como a expressão dos olhos pode desmentir o que é dito pelos lábios (nesse caso, indicando algum grau de falsidade), o tornozelo deslocado pode desmentir a forma ideal do corpo que temos em mente. Essa transferência de sentido se ancora na analogia entre a verdade (como alinhamento, coerência) e a integridade física (também percebida como alinhamento, ordem).

O português popular, sobretudo em regiões do Norte e Nordeste, manteve esse paralelo que mistura dor física e ironia semântica, lembrando que, às vezes, até o corpo pode ser desmentido.

Mudança linguística e pancronia

Em sua proposta de análise multissistêmica da língua, Ataliba de Castilho postula, entre outros princípios, que “a língua é pancrônica”. Isso significa dizer que, em um mesmo momento histórico, estruturas do passado e do presente convivem no idioma – afinal, a mudança linguística não se dá abruptamente, não se substitui totalmente uma variedade pela outra.

Neste episódio, a persistência do significado antigo de “desmentir” em certas regiões não é mero capricho geográfico. A sociolinguística mostra que áreas afastadas dos grandes centros tendem a adotar inovações linguísticas com mais lentidão, preservando assim até formas arcaicas.

No Agreste ou no Sertão, certas construções sintáticas, pronúncias e usos vocabulares – verdadeiros fósseis vivos da língua – continuam a ser transmitidos como se transmite uma receita de família. É nessa fala preservada que o linguista encontra um acervo riquíssimo: palavras e sentidos que permitem reconstituir a história do português no Brasil.

Desse modo, o que se ouve hoje em cidades como a de Panelas talvez seja, para o pesquisador de amanhã, a chave para entender como falávamos ontem e para lembrar que a língua, embora viva e mutável, também sabe guardar lembranças.

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