quarta-feira, março 18, 2026
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Estudo revela falhas na implementação de programa destinado a combater a obesidade infantil – Jornal da USP


Ao analisar o programa Proteja, do governo federal, Gabriela Kimie de Azevedo Kimura aponta falhas estruturais, mas também destaca pontos positivos

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Pelo cálculo do Índice de Massa Corpórea (IMC) é possível medir o grau de obesidade de uma pessoa – Foto: Freepik
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Um estudo da USP avalia a implementação da Estratégia Nacional para a Prevenção e Atenção à Obesidade Infantil (Proteja) em municípios de pequeno porte em São Paulo. A estratégia foi instituída em 10 de agosto de 2021 como um trabalho intersetorial, com o objetivo de deter o avanço da obesidade infantil, além de contribuir para o cuidado e a melhoria da saúde e da nutrição das crianças. Quem explica as informações sobre o excesso de peso em crianças no Brasil é a mestranda da Faculdade de Saúde Pública da USP Gabriela Kimie de Azevedo Kimura, pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) e autora do trabalho.

Segundo o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani), de 2019, 10% das crianças com menos de 5 anos apresentam excesso de peso — o maior índice já registrado nessa faixa etária: “Foi a primeira vez que esse indicador teve um aumento para essa faixa etária; e é preocupante, porque sabemos que as crianças com obesidade têm maior chance de ter obesidade na adolescência e na vida adulta. Então não é só a prevalência que preocupa”.

Gabriela explica que as consequências são diversas, com impactos diretos à saúde física, aumentando as chances do desenvolvimento de doenças como diabetes e hipertensão. Mas também há impactos sociais, como bullying, isolamento, além de efeitos emocionais como baixa autoestima e ansiedade. A pesquisadora aponta que o impacto não é apenas individual, mas afeta toda a sociedade: ”Tem um impacto econômico expressivo. Em um estudo recente, Eduardo Nielsen mostra que, nos últimos dez anos, a obesidade infantil e juvenil custou ao SUS cerca de R$ 225 milhões em internações, procedimentos e medicamentos. Fica claro que a obesidade infantil é, sim, um dos principais desafios de saúde pública do País hoje”.

Proteja

Foi nesse contexto que o governo federal lançou, em 2021, o Proteja. O programa tinha como objetivo deter o avanço do problema, fortalecendo a atenção primária, a vigilância nutricional e a promoção de hábitos saudáveis. A iniciativa previa repasses financeiros e apoio técnico aos municípios que aderissem. No entanto, acabou sendo descontinuada em 2023, após apenas três anos.
O estudo de Gabriela avaliou como a estratégia foi implementada em municípios paulistas. Ela explica que, embora 30 municípios tenham aderido ao Proteja, apenas metade chegou a incluir o programa em seus planos de saúde, e em muitos casos de forma superficial. “A inclusão limitada pode comprometer a institucionalização da estratégia”, aponta. Além disso, a execução ficou concentrada nos profissionais da saúde, sem a articulação efetiva com outros setores como educação, assistência social e esporte — aspecto central previsto no desenho do programa.

As falhas estruturais também ficaram evidentes no engajamento. A pesquisadora destaca que o modelo top-down, em que diretrizes federais são repassadas diretamente aos municípios, dificultou a adaptação às realidades específicas. “Não adianta vir uma ideia mirabolante onde o município não tenha profissionais ou condições para executar. Cada município tem diferenças que precisam ser valorizadas”, explica.

Entre os pontos positivos, o estudo identificou que o Proteja ajudou a ampliar o monitoramento nutricional, especialmente entre adolescentes, e fortaleceu práticas já existentes de promoção da alimentação saudável. O apoio técnico e financeiro do governo federal foi considerado um facilitador importante para as cidades que conseguiram executar mais ações. Para Gabriela, os resultados mostram que a atenção primária à saúde tem potencial estratégico na prevenção da obesidade infantil, mas ainda precisa de maior capacitação profissional, financiamento contínuo e, sobretudo, de políticas que superem a fragmentação entre os setores. “Entre os desafios, um ponto central é a baixa articulação dos setores. A gente precisa, hoje, de ambientes alimentares mais saudáveis e, também, da promoção de estilos de vida mais ativos. Essa articulação é importante para que a gente consiga alcançar a prevenção da obesidade infantil”, afirma.


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