Luli Radfahrer responde a essa e outras questões relacionadas à tecnologia, a qual, segundo ele, cria uma ilusão de relacionamento com a máquina
Por que as grandes empresas de tecnologia escolheram o Chat como interface padrão para seus produtos de IA? Segundo o professor Luli Radfahrer, essa pergunta demanda duas respostas: a técnica e a psicológica. “Tecnicamente, os modelos de linguagem são treinados em conversa. A arquitetura Transformer funciona naturalmente com sequências de texto. Psicologicamente, o ser humano é um bicho social e conversacional. É muito fácil democratizar uma tecnologia complexa através de uma técnica que todo mundo sabe; afinal de contas, todo mundo sabe conversar. O Chat cria uma ilusão de relacionamento com a máquina. Ninguém esperava a popularidade dessa tecnologia e isso pegou muita gente de surpresa. Algumas pessoas se apegam à inteligência artificial e dão a ela personalidades como se fossem de pessoas; afinal de contas, a gente já fala com os nossos amigos através do smartphone. Algumas empresas de tecnologia estão manipulando essa emoção para criar uma dependência. A inteligência artificial simula uma empatia sem realmente sentir. Ela nunca vai criticar você de verdade. O resultado é que muitas crianças confundem IA com amigos reais.”
Um outra questão a que Radfahrer responde é a de como o formato de Chat mudou nossa relação com a tecnologia. “Para começar, pela popularidade: em maio de 2025, o ChatGPT tinha cerca de 800 milhões de usuários ativos semanais, com projeção de chegar a 1 bilhão até o final de 2025. Atualmente, ele processa mais de 2,5 bilhões de instruções por dia. Outra mudança importante é a mudança de comandos para pedidos. As pessoas tratam a IA como assistente pessoal. E isso é muito interessante, porque marca uma diferença entre gerações.”
Por fim, uma outra questão: que outras interfaces poderiam existir? “O Chat venceu por ser o mais fácil e o mais acessível. A OpenAI era uma empresa nova, ela chegou com uma tecnologia diferente e pegou, e aí os outros foram atrás. É muito mais fácil você falar do que usar qualquer interface visual – provavelmente, daqui a pouco, a gente vai ter interface gestual e interface de realidade aumentada, que já estão sendo testadas em alguns games e em algumas interfaces mais específicas, como médicas ou de engenharia. Elas não vingaram para nós, para o público comum, porque ainda demandam uma certa complexidade. Mas eu acredito que a verdadeira novidade vai vir nos equipamentos e não nos programas.”
Datacracia
A coluna Datacracia, com o professor Luli Radfahrer, vai ao ar quinzenalmente, sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7 ; Ribeirão Preto 107,9 ) e também no Youtube, com produção da Rádio USP Jornal da USP e TV USP.
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