quarta-feira, março 18, 2026
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Projeto FelizIdade promove bem-estar emocional e acolhimento – Jornal da USP


Estudantes da USP levam musicoterapia, escuta ativa e apoio para pacientes internados no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, e as inscrições para novos membros serão abertas no primeiro semestre do próximo ano

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Grupo de alunos em frente a uma ala de clínica médica no quinto andar do hospital do HC-FMRP-USP
Integrantes do Projeto FelizIdade levam música e afeto aos pacientes internados no Hospital das Clínicas da FMRP-USP – Foto: Arquivo FMRP-USP

A sintonia das notas musicais misturada com a conexão dos ritmos e canções desperta memórias afetivas, que levam conforto emocional para quem busca um alento em meio aos obstáculos da vida, especialmente quando se trata de pessoas submetidas a tratamentos prolongados no ambiente hospitalar. 

Diante desse cenário, amenizar o sofrimento psíquico surge como uma alternativa para aliviar o estresse e a ansiedade decorrentes do procedimento médico. Foi com essa essência que o professor Edson Garcia Soares, do Departamento de Patologia e Medicina Legal da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP, idealizou o projeto FelizIdade, voltado para o amparo e apoio afetivo a pacientes internados no Hospital das Clínicas da FMRP.

Aprendizado humanizado

Criado em 2003, o plano de ensino tinha como proposta inicial levar alunos dos primeiros anos do curso de Medicina ao ambiente de internação, oferecendo-lhes aprendizado prático aliado à vivência humanizada. Nesse contexto, a musicoterapia e a escuta ativa foram incorporadas como instrumentos para aproximar estudantes e pacientes, promovendo cuidado e acolhimento.

Um professor com cabelo levemente grisalho, com óculos e sorrindo para a foto
Fernando Silva Ramalho – Foto: Arquivo pessoal

Com o passar dos anos, a iniciativa se fortaleceu e ganhou novos contornos. Hoje, conta com a participação de cerca de 80 estudantes de diferentes áreas da saúde, como medicina, farmácia, enfermagem, psicologia, nutrição, fonoaudiologia, terapia ocupacional, fisioterapia e informática biomédica. Ao completar mais de duas décadas de existência, o projeto está sob a coordenação do professor Fernando Silva Ramalho, também do Departamento de Patologia e Medicina Legal da FMRP.

O professor lembra que a efetividade e durabilidade do projeto aconteceram em função do engajamento dos estudantes ao darem continuidade às atividades. “A iniciativa existe até hoje, por conta do interesse dos alunos em aprender e entender a história de cada paciente. Principalmente de se colocar no lugar do outro.”

As visitas ocorrem semanalmente, sempre às segundas e quartas-feiras, a partir das 18h, preferencialmente no sétimo andar, onde está o setor de Oncologia, e no quinto andar, ala da Clínica Médica, que tem um público a partir dos 18 anos de idade.

Melodia e empatia 

 Grupo de estudantes da USP sorrindo e reunidos para uma sessão do projeto feliz idade
Estudantes da iniciativa FelizIdade se preparam para mais uma visita aos pacientes, promovendo saúde e bem-estar – Foto: Arquivo pessoal

Entre os gêneros musicais mais requisitados pelos pacientes estão o rock nacional, gospel, sertanejo antigo e MPB. “Todas as músicas são tocadas pelos próprios graduandos com seus equipamentos. A música varia de acordo com a idade do paciente, se for mais velho, as favoritas são moda de viola e sertanejo raiz. Já os mais jovens preferem samba-rock, tropicália ou hinos e cânticos gospel. Tudo vai de acordo com o sentimento deles naquele momento” enfatiza o professor.

 Uma aluna de cabelos castanhos, demonstra um leve sorriso para a foto
Maria Clara Ribeiro Silva – Foto: Arquivo pessoal

Para a estudante do quarto ano de Medicina Maria Clara Ribeiro Silva, integrante da iniciativa há quatro anos, participar do projeto foi algo marcante e transformador em sua vida pessoal e profissional. “Em uma das vezes que participei, lembro que um senhor pediu para tocarmos Legião Urbana. No final da música ele começou a chorar e me disse que aquele som lembrava uma pessoa a quem ele amava muito, mas que havia falecido. Esse acontecimento me fez olhar esses pacientes com mais empatia”, destaca a aluna. 

Maria Clara também relata momentos simbólicos durante as sessões. “Teve uma vez que eu e minha turma fomos ao quinto andar, na parte da enfermaria, e uma das pacientes pediu para tocarmos uma música gospel e, de repente, ela e as outras pacientes formaram um coral e cantaram juntas até o final. Ficamos muito emocionados e tivemos que segurar o choro. A música tem esse poder de promover bem-estar físico e mental, por isso é muito importante levarmos os instrumentos e nos conectar com eles”, diz.

Escuta ativa das histórias de vida

As tarefas dos alunos dentro do hospital se baseiam em abordar os assistidos na beira do leito, com diálogos direcionados à exteriorização das suas preocupações. “Os graduandos fazem esse movimento de escutar com atenção e de maneira compassiva as falas de cada atendido, nunca abordando sobre a doença e tratamento, mas puxando conversa sobre a história de vida de cada um”, enfatiza o professor.

Além disso, o tutor do projeto diz que muitas vezes as conversas são a respeito do cotidiano. “Com pacientes homens, os temas costumam girar em torno de futebol, time preferido e jogos. Já com as mulheres, o assunto vai desde o prato favorito, passando por música preferida, até atividade de lazer, como crochê”, conclui. 

Solidariedade na formação

Apesar de resistir ao tempo, o projeto enfrentou desafios diários em sua jornada. “A maior dificuldade nesses anos foi lidar com pacientes extremamente doentes que não conseguiam falar ou levantar da cama, mesmo com toda barreira, resistiam e tentavam interagir com a gente. É incrível quando chegamos às enfermarias e vemos a interação desses assistidos, com um sorriso no rosto”, conta a estudante.

Para Maria Clara, o trabalho realizado dentro do hospital é fundamental para a formação de profissionais. “Essa sensação de ver que as visitas fazem a diferença para eles é gratificante, porque essa vivência proporcionou para nós, alunos, um sentimento de solidariedade.”

O professor pontua que, para participar, os interessados devem frequentar as reuniões obrigatórias da gestão do projeto, que são divulgadas pelo Instagram, e ter no mínimo 70% de presença nas atividades, porém as vagas estão esgotadas para participação de novos estudantes. As visitas com os pacientes começaram no dia 18 de agosto, com duração de 2h, e vão até o final de novembro. O próximo processo de seleção de alunos ocorrerá no primeiro semestre de 2026 pelo sistema Apolo.

Mais informações do projeto estão disponíveis pela página do Instagram

*Estagiária sob supervisão de Rose Talamone 





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