“O que estamos vendo é que os algoritmos estão evoluindo tão rapidamente que eles acabam ocupando o espaço que achávamos ser nosso, dos humanos”, indica o professor. Mas não se trata de uma situação exclusiva do campo literário. Na produção audiovisual, na área musical e em todos os ramos e segmentos da produção artística, Arbix vê esse mesmo processo em operação, de maneira generalizada.
No que toca o campo literário, os desafios não dizem respeito apenas a concursos, diz o professor. Povoar o mundo com textos, poesias, ensaios, músicas e vídeos produzidos por algoritmos traz também perguntas éticas. “Até que ponto você não está reproduzindo vieses e preconceitos contidos nos bancos de dados dessas grandes plataformas?”, questiona Arbix. Ele cita o exemplo da Grok, ferramenta de inteligência artificial de Elon Musk, que tem suas respostas afinadas com a linha editorial da Fox News, favorável a Donald Trump.
“Não é só informação errada. Estou falando sobre orientações ligadas à visão de mundo”, comenta o docente. “Isso implica visão de mundo sobre as mulheres, gênero, religião, sobre a geopolítica, todas as questões que tratamos no dia a dia.”
Por isso, assinala Arbix, o primeiro passo é educar as pessoas sobre as plataformas e o que é a IA, alertando sobre os preconceitos que podem vir embutidos nos dados e respostas produzidos pelas ferramentas. Mais importante do que vetar o uso, acredita, é fundamental ajudar as pessoas a entender a natureza dessas plataformas.
É nesse sentido que o professor também considera essencial conscientizar a sociedade para a necessidade de transparência no uso da IA. “É preciso educar e tirar procedimentos, mostrar para as pessoas que ser transparente não desvaloriza suas atividades.” Indicar onde as ferramentas foram usadas valorizaria o trabalho humano dos autores, defende, tanto no campo literário como nos próprios meios universitários e científicos, onde o uso da inteligência artificial já é uma realidade, apesar das dificuldades de regulamentar seu uso.
Outro ponto levantado por Arbix envolve os possíveis impactos que delegar atividades tipicamente humanas para máquinas pode representar para a vida das pessoas. “O que significa isso, do ponto de vista da sua estrutura como ser humano? Significa que você está pensando menos, de uma maneira mutilada? Ao delegar, você adormece parte de suas atividades, você está entorpecendo suas habilidades ou, no mínimo, deixando de desenvolvê-las? Isso está em aberto, não temos respostas conclusivas.”
De todo modo, Arbix considera que outro aspecto importante da discussão é reafirmar a relevância da atividade humana e que nem tudo pode ser delegado para as máquinas. “Cada vez que você substitui os humanos, você tem perda de qualidade no que faz.” O professor pensa, aqui, sobretudo nas tarefas do pensamento. Diferentemente de outras ferramentas, como uma calculadora, os algoritmos tomam decisões relacionadas à cognição. “Atingem pessoas que trabalham com a mente e o pensamento. Você não está apenas no nível de rotinizar atividades corriqueiras.” Esse é o ponto: até hoje, as máquinas substituíram músculos, diz o professor. Mas agora estão substituindo mentes.
“Há um universo pela frente e um número muito grande de medidas que podem ser tomadas”, acrescenta. “Eu só acho que simplesmente barrar não vai resolver o problema de ninguém.”



