quarta-feira, março 18, 2026
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Oferecer caminhos integrados para enfrentar desafios globais – Jornal da USP


Estudo internacional com participação de professor da USP propõe novo modelo para analisar as “policrises”

Fotomontagem em que se vê uma pessoa de costas, totalmente coberta por um envoltório branco, com a mão direita estendida para diante, em direção à imagem de vários coronavírus que parecem estar indo em direção a ela.
A pandemia de covid-19 tornou-se um exemplo “didático” dessa complexidade que envolve as chamadas policrises Arte sobre fotos: prostooleh/Freepik e
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Um estudo internacional  propõe um novo modelo analítico para compreender as chamadas “policrises” – fenômenos complexos nos quais múltiplas crises se interconectam e amplificam mutuamente. A pesquisa, publicada na revista The Lancet Planetary Health, focou na interação entre os sistemas energético e alimentar global, dois pilares fundamentais ameaçados por crises contemporâneas.

Leandro Giatti, professor do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP e coautor do estudo, explica que o conceito não é novo: “O próprio Edgar Morin já utilizava esse termo, definindo policrises na década de noventa”. No entanto, a pandemia de covid-19 tornou-se um exemplo “didático” dessa complexidade: “Ela transcendeu tanto os sistemas que fazem parte da nossa vida que acabou sendo muito elucidativa dessa perspectiva aplicada da crise múltipla”.

Sistemas em transformação

A pesquisa analisou dois sistemas globais interconectados: energia e alimentação. “O sistema energético global tem vários desafios, vários modais de produção”, observa Giatti, destacando que a transição para energias de baixo carbono ainda convive com a incerteza sobre “quando realmente vai ter essa inflexão da curva do consumo de combustíveis fósseis”.

Leandro Giatti – Foto: IEA/USP

Paralelamente, os sistemas alimentares enfrentam sua própria evolução problemática: “A gente tem visto uma degradação da qualidade nutricional, com a substituição de alimentos naturais por processados e ultraprocessados”. Giatti ressalta que essas mudanças afetam tanto cadeias produtivas quanto a saúde humana, gerando “obesidade, doenças crônicas” e pressionando recursos naturais.

Metodologia inovadora

O novo modelo analítico proposto incorpora dimensões frequentemente negligenciadas nas análises tradicionais. “A gente desenvolve uma perspectiva analítica focando um resultado final maior que a saúde da população”, explica Giatti. Isso inclui questionar “quem ganha, quem perde, quem tem interesse e influência” nas soluções propostas – como no caso do uso de inteligência artificial para a transição energética.

A abordagem também reconhece que “as sociedades humanas fazem parte do contexto da natureza. Nós não estamos fora destacados”. Essa visão integrada permite identificar soluções com “múltiplos ganhos”, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar brasileiro: “Quando eu fortaleço a cadeia produtiva local, eu dou alimento mais saudável, preservo a cultura e torno o ambiente também mais resiliente a crises”.

Aplicações práticas

Para Giatti, o valor da nova metodologia está em sua aplicabilidade: “O conhecimento que a gente precisa produzir para entender essas complexidades vai também gerar soluções que são excelentes em vários níveis”. O estudo oferece ferramentas para tomadores de decisão enfrentarem crises sistêmicas considerando suas interconexões – desde pandemias até mudanças climáticas.

O pesquisador conclui com uma visão esperançosa, destacando que não se trata de enxergar o mundo como algo cada vez mais complicado ou impossível de lidar, mas sim de compreender que a complexidade das policrises pode levar a soluções mais robustas e integradas para os desafios globais do século 21.


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