quarta-feira, março 18, 2026
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Comentário sobre as personagens calculistas – Jornal da USP


Por Jean Pierre Chauvin, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

Edward Morgan Forster ensinou, em Aspectos do Romance (1927), que o homo fictus não ocupa a mesma dimensão do homo sapiens: justamente por estarem no âmbito da ficção, as personagens tendem a ser mais coesas e coerentes que nós – para além, para aquém das nossas pretensões.

Digo isso porque quem se propõe a escrever sobre personagens corre o risco de detectar traços pessoais (empíricos) nelas. A tentação pode ser grande; e o procedimento, em certa medida, compreensível. Quantos dentre os leitores já não disseram se identificar com o caráter ou a ação de certo protagonista? Em contrapartida, quantos de nós colocaram em xeque as atitudes de uma criatura de papel, submetendo-a aos juízos morais mais severos, dentre aqueles que reinam no mundinho extra-romanesco?

Subtraída nossa maior ou menor habilidade de distanciamento em relação à matéria literária, há um tipo ficcional recorrente que costuma chamar a atenção: nem herói, nem vilão, o calculista. Isso acontece porque, aos olhos do leitorado, alguns pensamentos e ações dessa categoria traduzem uma concepção puramente pragmática, por vezes utilitária.

Personagens dessa estirpe podem recordar o ensinamento de que o mundo adulto costuma ser reservado às conveniências, ou seja, melhor adaptado aos seres capazes de planejar quase todos os lances de sua existência, evitando maiores surpresas, estejam elas no plano emocional; estejam na órbita do comodismo socioeconômico.

Utilitários são a Marquesa de Merteuil e o Visconde de Valmont, principais interlocutores em velada disputa no romance As ligações perigosas (1782), de Chordelos de Laclos; pragmática é Guiomar, a mocinha de A mão e a luva (1874), o segundo romance de Machado de Assis; calculilsta é dom João V, transformado em caricatura autoritária e ridícula por José Saramago, no Memorial do convento (1982).

Seja nas relações interpessoais, seja no trato com os poderes difusos na sociedade, esses seres ilustram concepções de mundo situadas entre o cálculo e a utilidade. Como dizia, é arriscado pressupor que protagonistas ou coadjuvantes correspondam a pessoas empíricas. De todo modo, a trajetória de um homo fictus pode ilustrar (in)certos modos de comportamento no universo menos coerente que vivemos cá – além ou aquém da verossimilhança, substrato da Ficção que a diferencia da História, como preceituava Aristóteles na Arte poética, 29 séculos atrás.

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